Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

quarta-feira, julho 27, 2005

 

O PAPEL IMPÔS A SUA VONTADE

POR SOLICITAÇÃO DO PRÓPRIO ALBERTO GONÇALVES, E POSSO ADIANTAR QUE POR EXCELENTES RAZÕES PARA QUEM GOSTA DE LER O QUE ELE ESCREVE, ESTE BLOGUE TERÁ QUE FECHAR. É PENA? POIS É. MAS ACREDITEM QUE HAVERÁ UMA ALTERNATIVA MUITO APETECÍVEL PARA BREVE.

terça-feira, julho 19, 2005

 

Os pobres de espírito

De acordo com uma célebre escola de pensamento, cuja licença em Portugal foi consignada ao dr. Soares, as motivações dos terroristas são a pobreza e o desespero. É fascinante que se repitam toleimas com cara séria. Shehzad Tanweer, um dos assassinos de 7 de Julho, estudava na Universidade de Leeds, conduzia um Mercedes e jogava críquete. Mohammad Khan era professor do ‘básico’. Magdi el-Nashar, o alegado ‘quinto homem’, doutorou-se em química com bolsa do Estado britânico. Etc. Como aliás se verificou nos instruídos protagonistas de Nova Iorque, Washington e Madrid, dificilmente seria a pobreza a mobilizar os criminosos de Londres. Os pobres não matam em nome de abstracções.

Quanto ao desespero, o caso é diferente. Talvez o Mercedes do sr. Shehzad tivesse problemas de origem (uma vez comprei um carro que saiu do ‘stand’ a assobiar pelo pára-brisas, e confesso que me apeteceu desfazer o que estivesse à mão). Não sei. Sei que quem acredita chegar às virgens através de chacinas é mesmo capaz de estar desesperado. Infelizmente, não pelas causas que o dr. Soares papagueia.

Vamos lá repetir a cartilha. A angústia dos terroristas não provém da fome ou da injustiça, mas da insuportável inadequação do mundo deles ao nosso mundo. Com variantes, o Ocidente conquistou nos últimos séculos a laicização do Estado e da vida corrente. Semelhante processo valeu-nos perplexidades, “erosão moral” e, sem dúvida, um imenso avanço tecnológico. Em certo sentido, a modernidade entregou-nos a nós próprios, o que é, à falta de melhor, uma definição possível de liberdade. Inúmeros muçulmanos não a percebem. Alguns não a toleram. O Corão não prega o respeito pelos infiéis. Pior: o Corão exige estrita observância, e a ausência de uma hierarquia religiosa deixa os critérios dessa observância ao cuidado de pregadores avulsos, o que convida ao zelo e ao fanatismo.

Há dois pontos comuns a quase todos os perpetradores da jihad: a frequência de universidades e mesquitas em território ocidental. Ambas são indispensáveis ao terror. Nas primeiras encontram a técnica; nas segundas a motivação. Não convém abolir o ensino superior, mas seria útil esquecer as boas maneiras e indagar o que acontece em muitas ‘mesquitas’ de Londres, Paris e Berlim, hoje um eufemismo para fábricas de tarados, perdão, desesperados. Se realmente pretendem combater o terror, as autoridades deveriam investigá-las, identificar os desesperados e ouvir-lhes as razões, compreendê-los, acarinhá-los. Ou então rebentar logo com eles: é mais seguro e, no fundo, eles não querem outra coisa.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 19 de Julho de 2005

domingo, julho 17, 2005

 

Homem-a-dias: 15 de Julho

Afinal, parece que os cidadãos de Londres ficaram histéricos com os atentados. O sr. Blair é que censurou a informação. E o resto é crónica feminina: quotas, abortos e perseguições de importância diversa.

Dia 7, QUINTA-FEIRA
Há quem se divirta com os comentários do dr. Mário Soares acerca do terrorismo. Eu acho-os espirituosos, mas repetitivos. A graçola do “diálogo” com os senhores da al-Qaeda já está estafada. Em matéria de alucinações, prefiro a cobertura televisiva caseira, que estrebuchou perante a calma dos londrinos. Na Tvi, as reportagens dos atentados corriam sobre um dístico: “Pânico e Caos”. Na Sic, um senhor Ribas qualquer clamava contra a “censura” noticiosa imposta pelo governo britânico, e contra os “média” locais que a aceitaram. Teoricamente, o jornalismo deveria informar o público dos acontecimentos do mundo. O “jornalismo” dos nossos noticiários conta-nos o mundo de quem os faz. E é um mundo repelente, profundamente boçal e, no fundo, muito triste.

Dia 8, SEXTA-FEIRA
Cancelei vários compromissos para ler, com vagar, a entrevista de Sónia Fertuzinhos ao “Público”. Quem é Sónia Fertuzinhos? Excelente pergunta, cuja resposta ignoro. Apenas sei que pertence a uma família com humor patronímico e que é deputada do PS. De resto, não importa o que ela é: importa o que ela pensa. E a dra. Fertuzinhos pensa que as mulheres devem ocupar 33% da Assembleia da República.
Será um bocadinho estranho que, em pleno século XXI (como se costuma dizer), ainda haja gente que trata o mulherio enquanto produto alfandegário e pretende atribuir-lhes quotas. Por mim, óptimo. Não só não resisto a atitudes saudosistas como o instinto me recomenda que a presença das mulheres é sempre preferível à respectiva ausência. Seja no Parlamento, no restaurante, no organograma da CP ou na sala de estar cá de casa.
Entusiasmado com a entrevista, dispus-me a participar em qualquer acção em prol da intervenção feminina. Roubei uma dúzia de soutiens à minha própria mulher (para queimar ou dar às pobres) e preparava-me para descer à rua quando olhei o “Público” de esguelha e reparei que, em pequena caixa anexa, a dra. Fertuzinhos também defende o casamento de homossexuais. Larguei os soutiens e prostrei-me no sofá, em conjecturas negras sobre a humanidade. Que feminismo é este? Como é que uma pessoa que exige uma quota de mulheres nas mais extravagantes actividades só as acha facultativas na união sexual? O casamento entre “gays” é-me indiferente. Mas a incoerência irrita-me.

Dia 11, SEGUNDA-FEIRA
Foi bonito o ajuntamento à porta do Tribunal de Setúbal, onde duas senhoras eram julgadas por aborto. Felizmente, nos eventos assim nunca faltam as delegações dos partidos e os grupos activistas de inúmeras tendências não partidárias (todos dependentes do Bloco de Esquerda). Conhecida a sentença, as arguidas, que possivelmente preferiam ter atravessado o processo em ambiente mais discreto, foram mandadas em liberdade. Depois, em pose para os “telejornais”, a maralha contestatária fez vistosa festa e jurou continuar a lutar pelo fim da “perseguição às mulheres”.
Parece-me que a festa é exagerada e que a luta decorre nos lugares indevidos. Que eu saiba, os julgamentos deste género terminam fatalmente na absolvição. Mesmo que haja algum enxovalho, palpita-me que existem mulheres a sofrerem violências maiores.
Veja-se o mundo muçulmano. Veja-se, a título de exemplo, a Turquia, só nas últimas semanas. Veja-se Birgul Isik, baleada pelo filho após se queixar do marido num programa televisivo. Veja-se Ayse Aydin, encontrada morta e sexualmente mutilada (os familiares falaram em suicídio). Veja-se Rodja, forçada a casar aos 13 anos com o homem que a violou (um hábito apreciado na região) e cujo padrasto lhe amputou o nariz por motivos certamente compreensíveis.
Embora a imprensa internacional ferva com episódios semelhantes, estes não comovem os nossos activistas da causa feminina. Se calhar, o respeito pela soberania alheia impede-os de fazer baderna no estrangeiro, mesmo que não tenha impedido muitos deles de emporcalhar Edimburgo a propósito do G8. Também não haverá obstáculos económicos: comparada com os preços de Istambul, uma estadia na Escócia sai caríssima. Pelos vistos, há perseguições e perseguições, mulheres e mulheres. É pena. Talvez as turcas apreciassem o apoio de manifestantes portugueses. Ou, pensando bem, talvez não. As desgraçadas já amargam o suficiente.

Dia 12, TERÇA-FElRA
Depois de a polícia encontrar um carro suspeito, a estação ferroviária de Luton foi hoje evacuada. Nos últimos dias, idêntica medida foi tomada em Birmingham e em diferentes pontos de Londres (Whitehall, King’s Cross). Dadas as circunstâncias, percebe-se a cautela. Certo é que a cautela, levada a estes extremos, não pode continuar para sempre. E mais horrível é imaginar que pode, que o medo de agora permanecerá intacto daqui a um, cinco, vinte anos. Em Inglaterra, políticos e populares reagiram aos atentados com louvável decência. Mas garantir que o terror não vencerá não o impede de vencer. Este particular terror, irracional no exacto sentido de que não negoceia nem exige, tem poucas possibilidades de fracassar. Pessimismo à parte, há que tentar encontrá-las. De preferência, dispensando o diálogo e o dr. Soares.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 15 de Julho de 2005

terça-feira, julho 12, 2005

 

Madeira exótica

Sob critérios ‘étnicos’ ou religiosos, Estaline assassinou, ao longo de uma gloriosa carreira, milhares de ucranianos, polacos, judeus, tchetchenos e etc. Há meses, o PCP relembrou os ingénuos de que Estaline continua a ser a referência da seita. Quase ninguém se maçou. Certamente ninguém pediu ao Presidente da República uma opinião sobre o assunto, ninguém pressionou o sr. Jerónimo para desautorizar os autores do artigo e a ninguém ocorreu rumar de joelhos às embaixadas da Ucrânia, da Polónia e de Israel, com a corda ao pescoço e perdões oficiais. Já os disparates de Alberto João Jardim suscitam franco pandemónio, e o facto de a criatura pertencer ao Conselho de Estado talvez não explique tudo. Também não serei eu a explicá-lo.

Eu sei que o dr. Jardim tem razão num ponto. Se não é insólito, é no mínimo ridículo que um país democrático se sinta obrigado a pedir desculpas a uma pocilga totalitária. Dado o modo como trata habitualmente a generalidade dos seus servos, perdão, cidadãos, não consta que o governo chinês se ofenda porque alguns deles foram enxovalhados pelo obscuro chefe de uma ilha longínqua. Ao mesmo tempo, é engraçado que o dr. Jardim atribua tamanha importância aos direitos humanos, sobretudo quando esses direitos têm a ver com os particulares humanos que ele próprio confessadamente despreza.

Tudo isto, é claro, são passatempos. O calor aperta e a classe política é tomada por um desejo recorrente de se fingir activa. Infelizmente, há uma outra questão, bem mais grave: o dr. Jardim perdeu a graça. E dantes eu achava-lhe alguma. O folclore em volta da figura nunca me incomodou. E a capacidade dele em enervar a esquerda não era pequena virtude. Claro que as atoardas contra os ‘cubanos’ da capital eram vagas e dispensáveis. Mas os confrontos verbais com os líderes indígenas ou continentais eram uma alternativa divertida ao respeitinho pelintra vigente no meio. Na altura, os alvos do dr. Jardim tinham rosto e, presume-se, possibilidade de resposta.

Devagarinho, porém, a inimputabilidade do dr. Jardim foi crescendo, à medida que as suas ambições de um papel na política ‘central’ diminuíam. E o resultado não espanta: enquanto o público abandona o circo, carrega-se nas palhaçadas para seduzir os espectadores que restam. No exercício, a piada atenua-se e, um dia, desaparece de vez. No caso do dr. Jardim, desapareceu agora. Atacar gente indistinta é apenas cobarde. Atacar imigrantes, por definição mais indefesos e dependentes, é apenas uma pulhice.

Antigamente, pelo Carnaval, o dr. Jardim fantasiava-se de selvagem. Já não precisa da fantasia.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 12 de Julho de 2005

sábado, julho 09, 2005

 

Homem-a-dias: 9 de Julho

Quem descobrir o nexo entre uma cançoneta da Madonna e a extinção da pobreza ganha o Nobel da Economia. Quem desco­brir a hospitalidade pátria ganha um fim-de-semana na Madeira. Quem descobrir Machado de Assis ganha.

DIA 2, SÁBADO
A miséria alheia é a sorte de Bob Geldof. Em 1984, o cavalheiro viu um programa sobre a fome na Etiópia e, em vez de mudar de canal, decidiu chamar a atenção dos media através de uma cantiga. A cantiga, que reuniu todo o esterco da pop britânica, foi lançada em Dezembro e lamentava que os infelizes etíopes não soubessem que estávamos no Na­tal. Visto que os infelizes etíopes são maioritariamente muçulmanos on animistas, era como dedicar o Ser Benfiquista à claque do Porto. Ninguém se importou: Do They Know It's Christmas? vendeu imenso e convenceu Bob Geldof de que tinha uma missão a desempenhar,
A missão consistia em nutrir milhões de africanos e em massacrar, com refugo vagamente "musical", milhões de ocidentais. 0 Live Aid, realizado em 1985, cumpriu a segunda tarefa. Embora Bob Geldof tenha assegurado que os lucros dos concertos foram inteirinhos "para as pessoas que precisam", não se notou muito que a pessoa mais precisada se chamava Mengistu Hai-le Mariam, o ditador local, a quem o dinheiro veio a calhar para fortalecer as tropas. Excepto pelos soldados, que passaram a comer indiscutivelmente melhor, o etíope médio não sentiu grandes abalos na dieta. Quer dizer, na verdade, sentiu: a fome, que é um instrumento usado na região para conter eventuais rebeliões, aumentou, graças a um exercito mais capaz de a implementar. Graças ao Live Aid.
Vinte anos passados, a manutenção do drama africano e as prováveis debilidades na sua conta bancaria levam Bob Geldof a reincidir. O Live 8 é o Live Aid que, em lugar de recolher fundos, procura motivar os "países ricos" a perdoar a divida dos "países pobres". Mas a essência da caridade mantém-se, e terminara fatalmente no reforço bélico dos dementes que mandam em África.
Ao contrario daquilo em que Bob Gel­dof finge acreditar (e em que alguns tontos acreditam de facto), o problema de África não passa pela escassez alimentar: passa pela escassez democrática. Removido o socialismo despótico que é regra de Angola ao Zimbabwe, a coisa só poderá progredir. Troque-se Madonna pela privatização da propriedade, os U2 pela liberalização do comércio, a Mariza pela abolição dos obstáculos fiscais à iniciativa particular, os Pink Floyd pelo fim das guerras civis. Bob Geldof por eleições justas e pronto.
O engraçado é que o circo do Live 8 continua a culpar as democracias, o poder do mercado e a globalização, justamente o que África não tem e necessita. E tudo isto ante a complacência de Blair, Bush e restantes senhores do mundo livre. Aliás, excessivamente livre: há pelo menos 20 anos que o sr. Geldof devia estar preso.

DIA 5, TERÇA-FElRA
O dr. Sampaio sugeriu que Portugal repensasse a oferta turística. Segundo o Presidente da Republica, parece que o nosso "produto sazonal de sol e praia" perde em comparação com os países mediterrânicos e já não entusiasma ninguém. Nada a opor. A questão é: retirados o sol e a praia, que "produtos" podemos oferecer?
0 campo é uma vastidão sem vivalma, que ainda por cima tem o tique de irromper em chamas no Verão. O património, historicamente muito inferior ao padrão europeu, foi varrido a expensas da "modernidade". A gastronomia? Seria uma hipótese, se a própria Agência de Segurança Alimentar não tivesse anunciado esta semana que um número indeterminado de restaurantes é entreposto certo para os cuida dos intensivos.
Sobra a hospitalidade, a lendária hospitalidade indígena. Desde que a encontremos. Ontem, enquanto o dr. Sampaio se aliviava das suas preocupações, o chefe de uma região turística entretinha-se a insultar chineses e indianos. Seguiu-se o habi­tual tumulto indignado: é inadmissível, é intolerável, etc. A verdade e que o dr. Alberto João Jardim se limitou a dizer em publico o que milhões de Portugueses opinam em privado sobre a concorrência asiática. E sobre tudo o que a estranja nos envia de resto.
Como e do conhecimento geral, os afri­canos são fonte de insegurança e os moços do Leste isco de gangues organizados. Os turistas, propriamente ditos, também não suscitam encómios. Os ingleses e os alemães que nos tocam são pés-rapados. Os americanos, felizmente poucos, são uns imperialistas, que julgam mandar nisto. Os franceses, esses peneirentos, escolhem outras paragens. E nós sabemos bem o que é que os espanhóis querem.
Mesmo "repensado", o turismo nacional não promete. O Governo é que promete o aeroporto da Ota, o qual talvez venha a beneficiar do trafego que o justifica. Não para receber estrangeiros, mas para levar os que ainda andarem por cá, em férias, trabalho ou vadiagem. De qualquer das formas, ao engano.

DIA 6, QUARTA-FEIRA
Há uns meses, na revista Ler, Abel Barros Baptista disse de mim o que o dr. Jardim não diria dos imigrantes. Na altura, não reagi. Sendo rancoroso, aproveito agora para informar que o dr. Baptista dirige, na Cotovia, o Curso Breve de Literatura Brasileira, 16 livros de Machado de Assis a Nelson Rodrigues, passando por Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Acrescento que seria difícil imaginar-se melhor e termino aliviado. A vingança serve-se fria.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 9 de Julho de 2005

terça-feira, julho 05, 2005

 

As obras, as ideias e o macho

O vice-presidente do PPM justifica a escolha de uma concorrente da “Quinta das Celebridades” para candidata à Câmara de Cascais com os argumentos de que a senhora “é uma mulher independente, que não precisa de macho, que se preocupa muito com as questões sociais e que é uma visitadora nata.”

Parecem-me critérios válidos. Pelo menos, são uma alternativa possível às razões que levam um benfazejo qualquer a sacrificar-se em em prol da “sua” câmara. Normalmente, os heróis das autárquicas candidatam-se pelos mesmos aborrecidos motivos: porque têm “ideias” ou porque têm “obra”. Não custa perceber a distinção, já que a rapaziada das ideias é composta pelos caloiros e o pessoal da obra reúne os veteranos do ramo.

Claro que os conceitos não devem ser tomados à letra. No jargão municipalista, “ter obra” significa que já se presidiu a um lugarejo tempo suficiente para arrasá-lo quase por completo. Quanto a “ter ideias”, quer dizer que o candidato estreante tem a ideia de que talvez fosse preferível ser ele próprio, e não o cacique do costume, a prosseguir o arraso.

O elevado grau de destruição de um município não diminui o apetite dos autarcas e dos desafiantes por tentar agravá-lo. Tirando a entulheira acabada do Marco de Canaveses, que lembra Nagasaki após a bomba, mas com pior saneamento e uma igreja do Siza Vieira, parece haver sempre lugar para nova miséria. Com jeitinho, cabe mais um “empreendimento-âncora”, um pólo “centralizador”, uma resma de “acessibilidades”. A este exercício de aniquilação contínua chama-se, naturalmente, “fazer cidade”. E quem a faz assim tem obra. Em certos casos, tem também um apreciável conjunto de bens em nome alheio e relativo prestígio entre os selvagens da paróquia.

Sendo tradicionalista, o povo prefere a obra às ideias. Regra geral, o coração do eleitorado inclina-se para os autarcas que já dispuseram de muitos anos a “fazer cidade” e a distribuir empregos. Questão de hábito, que não se deixa sequer influenciar pelo facto de o sujeito estar eventualmente indiciado por corrupção ou abuso de criancinhas. Como as sondagens têm demonstrado, aliás.

De Norte a Sul, os exemplos são célebres e não vale a pena citar nomes. Alguns são mulheres, alguns são independentes, uns tantos declaram imensas preocupações sociais, um anda há dois anos em visita ao Brasil e, que se saiba, poucos precisam de macho. Mas, ao contrário da senhora do PPM, nenhum reúne todos os predicados. Para cúmulo, a revelação monárquica não possui obra nem corre riscos de um dia vir a ter uma única ideia. Ai, se eu morasse em Cascais.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 5 de Julho de 2005

domingo, julho 03, 2005

 

Homem-a-dias: 1 de Julho

O Bloco resiste à opressão vigente no meio de rebanhos e pastores. Os gays resistem à discriminação entre sedas e silicone. O português médio não resiste aos coletes reflectores, por acaso bem bonitos.

DIA 21, SEXTA-FEIRA
Através de visões apocalípticas ou 11 invocações do "contexto social", não houve criatura que não tentasse explicar o arrastão de 10 de Junho. Não houve explicação tão interessante, diga-mos, quanto a da dra. Ana Drago, deputada da nação e do Bloco de Esquerda. Para a dra. Drago, o arrastão não existiu. Sucedeu apenas que a rapaziada entrou praia adentro em fuga de "uma carga policial indiscriminada". A ser verdade, eu gostaria de perceber como é que uma carga po­licial sobre centenas de pretos numa área repleta de brancos consegue, ainda assim, manter-se indiscriminada.
Provavelmente, não merece a pena o esforço. Estamos no sinuoso terreno dos desejos íntimos. A dra. Drago limitou-se a imaginar os arruaceiros de Carcavelos numa situação que ambiciona para ela própria, inspirada nos mitos de uma infância bloquista que, pelos vistos, demora a passar. Com as devidas variantes, o caso aproxima-se da neurose de transferencia, definida por Freud. Parece que ha cura.
Até que a cura chegue, a dra. Drago continuará a suspirar por investidas da polícia, interrogatórios, censura e todo o entulho ditatorial que legitima, por oposição, o verdadeiro resistente. Convenhamos: ser trotskista em democracia não tem grande piada. Ser trotskista e deputado de um parlamento eleito deve ser uma angústia. É chato protestar contra a globalização e conduzir um Toyota. É chato fingir marginalidade e ter acesso solto à imprensa. É chato combater o sistema e usufruir das respectivas mordomias. É chato provocar e não ofender vivalma.
Felizmente, a esta gente não custa trocar a realidade pela alucinação. É por isso que, no fim do mês, o Acampamento dos Jovens do Bloco promoverá um workshop sobre Desobediência Civil na Serra da Estrela. Não sei se a dra. Drago participará como docente ou aluna. Sei que, entre montanhas, ribeiros e cabritos, o bando resistira estoicamente a fascismos e torturas imaginários. Alguns audazes poderão mesmo baixar à clandestinidade na Covilhã ou adquirir um queijinho proibido. não há dúvida de que um outro mundo e possível, embora o mundo em questão se resolvesse melhor com um internamento no Júlio de Matos do que com umas ferias na Beira Alta.

DIA 25, SÁBADO
Ausente de Lisboa e pouco versado em marchas populares, venho por este sossegado meio solidarizar-me com a marcha do Orgulho Lésbico, Gay, Bissexual e Transgenero (LGBT), que hoje se realizou. E não vejo melhor maneira de o fazer senão confessando profunda vergonha da minha heterossexual idade. A todos os orgulhosos LGBT peço, portanto, desculpa.

DIA 27, SEGUNDA-FEIRA
Começa hoje a obrigatoriedade dos coletes reflectores nos automóveis. Talvez não acabe hoje a carnificina nas estradas. De alguma forma, especialistas apuraram que a sinistralidade rodoviária está intimamente ligada ao vestuário dos condutores, que teimam em vestir tons morrinhentos, como o beije, o azul-marinho e, nos casos mais irresponsáveis, o cinzento. Confundindo-se com a paisagem envolvente, sobretudo se houver nevoeiro ou se circularem perto dos subúrbios, os baços automobilistas tornam-se presas fáceis para a concorrência. Dai a nova fardamenta, garrida e vistosa. Infelizmente, a modernice sé terá influência na redução dos acidentes em que nos encontramos no exterior do veículo. Para os restantes azares, em que o pessoal se espatifa no interior e que constituem uns 99,47% dos desastres totais, é provável que a União Europeia prepare em breve outra linha de pronto-a-vestir.
Certo é que os Portugueses adoraram a medida. A portaria que regulamenta a lei do colete foi publicada há três meses, e há três meses que milhares de coletes embelezam os assentos dianteiros de milhares de carros. Ou seja, aos cidadãos não bastou comprar o produto com antecedência, tiveram que mostrá-lo a olho nu, para que não restassem dúvidas do seu entusiasmo.
Curioso. Não vamos longe naquilo que importa. Não somos excessivamente produtivos, organizados, asseados ou pontuais. E, mesmo sem frequentarmos o workshop do Bloco de Esquerda, não so­mos nada cumpridores das leis convencionais e sensatas. Mas temos um talento inato para acatarmos com contagiante zelo determinadas regras, escritas ou tácitas, desde que desprovidas de sentido.
A irracionalidade parece ser, de facto, o critério principal. Não é o único. Após laboriosos estudos, conclui que os portugueses só apreciam normas que, alem de ridículas, impliquem a exibição pública de objectos, de preferência susceptíveis de serem pendurados. Se o Governo ou um SMS em cadeia decretassem para Outubro o uso forçado de tamancos (graças aos céus, por enquanto não decretou), muitos de nós passariam o Verão com os tamancos ao pescoço, em demonstração prévia de brio.
No ano passado foram as bandeiras. Em 1999, os lençóis por Timor. Este é o ano dos coletes: quem não os possuir arrisca multa; quem não os desfraldar ante a comunidade incorre em casmurrice e, quiçá, falta de patriotismo. Escusado é alimentarmos esperanças sobre os demais aspectos do comportamento ao volante. O limite de velocidade não é fácil de pendurar.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 1 de Julho de 2005

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