Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

terça-feira, março 29, 2005

 

Reformas antecipadas

Era fatal: a estrondosa derrota do PSD e do PP suscitou na direita uma súbita vontade de se “reformar”. Ou de se “reinventar”, segundo os mais líricos. Quando se ocupa o poder, não é habitual surgirem apetites assim. Ainda há um ano, a direita achava-se óptima tal e qual como estava. Depois, vieram Santana, a iminência do desastre e as primeiras dúvidas existenciais. E agora é ver a direita ou as direitas vadiarem por becos e colunas de opinião, em busca de um rumo, de um desígnio e, em particulares casos, de um emprego melhor. Mas de que reformas falamos? No que respeita ao PP, já não seria mau convencer alguém a tomar conta do tasco.

Quanto ao PSD, outra dimensão, outras responsabilidades, outra barafunda, a história exige análise cuidada. Porém, e a benefício da síntese e do bom senso, é desnecessário ir além dos palpites dos candidatos reais e putativos à liderança. Marques Mendes pretende “reconquistar o centro social-democrata”. Não satisfeito em “virar” o partido à esquerda, deseja “abri-lo” ao exterior e aumentar a participação das “bases”. No extremo oposto, Luís Filipe Menezes pretende retomar “os valores da social-democracia”, “recentrar” o PSD no centro-esquerda, torná-lo atraente à “sociedade civil” e “devolvê-lo” às “bases”. Há aqui funda cisão, e sente-se a falta de alguém com uma perspectiva intermédia, alguém que sugerisse, digo eu, recuperar os princípios da social-democracia, levar o partido para a esquerda, despi-lo em praça pública e em seguida gritar vivas às “bases”. Sobretudo faz falta ao PSD quem se esqueça de que o PS existe, que por acaso é governo, e que estranhamente possui maioria absoluta. Não é o caso de António Borges. Este célebre vulto, que ninguém conhece bem e que também não é bem candidato, não cultiva a social-democracia ou as “bases”. A ambição do dr. Borges passa por converter o PSD ao liberalismo, custe o que custar. E o facto de o liberalismo ser tão querido ao eleitorado do PSD (e ao País) como um tumor maligno não parece importuná-lo.

No fundo, no fundo, a única coisa que cada um destes três senhores pretende alterar no partido é o líder, de preferência por troca directa. A aspiração dos drs. Mendes e Menezes tem efeito imediato. O dr. Borges, que não dispõe de vagar para oposições, estará a pensar em 2008. Claro que, na sombra, intelectuais reflectem. Infelizmente para eles, reflectem sozinhos. A direita não quer reformas: a direita quer regressar ao poder. E para isso não precisa de “reinvenções”: precisa de paciência, de vestígios de juízo e, se um dia tiver sorte, de um candidato a sério.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 29 de Março de 2005

quinta-feira, março 24, 2005

 

Não ir à bola

A sugestão de abolir o cam­peonato nacional de futebol, que, meio a sério, meio a brincar, aqui deixei há umas semanas, indignou pelo me­nos dois leitores, os quais decidiram insultar-me com elevação. Para esta significativa amostra dos meus detrac­tores, eu não passo de um pedante, desses que desprezam a bola porque: a) não perce­bem nada do assunto; e b) não toleram diver­timentos populares.
Falso e falso. Em primeiro lugar, eu até percebo "do assunto". Aliás, e com a excep­ção de José Mourinho, o equivalente terre­no de Nosso Senhor, não conheço quem sai­ba de futebol tanto quanto eu. Eu sei o nome de cada vencedor da Taça dos Campeões Eu­ropeus. Eu sei porque é que, no Mundial de 1958, Feola adiou para o terceiro jogo a titularidade de Pele e Garrincha. Eu sei a trá­gica história de Mathias Sindelar, o melhor jogador da década de 1930. Além disso, li todos os clássicos do género, de Mário Filho a Brian Glanville e, quando criança, assisti a todos os desafios a que era humanamente possível assistir.
Em segundo lugar, gosto muito das folias populares, desde o futebol abordoada públi­ca. Se deixei de acompanhara bola (mas não a bordoada), foi justamente a partir do ins­tante em que a dita desceu do povo para meios mal frequentados. O meu problema come­çou com os "debates" televisivos. Nos últi­mos anos, os canais de TV encheram-se de intermináveis lengalengas, nas quais alegados representantes dos "três grandes" (haja pa­ciência!) reproduzem paleio de café nas suas piores formas. E que, ainda por cima, conta­minam o resto: se nos media apenas se discu­te a "tomada de posição" do dirigente X ou as falhas do árbitro Y, por que razão os jogado­res haveriam de se esmerar na qualidade do jogo, insignificância a que, pêlos vistos, já ninguém presta atenção? Dez minutos do dr. Sea­ra bastariam para desmoralizar Cruyff.
E depois, confesso, não me entusiasmo com: claques (assustadoramente) organiza­das; jogadores que posam no relvado como posam para anúncios; conferências de im­prensa em que as mesmas banalidades se re­petem com intuitos sádicos; dirigentes des­portivos sem excepção; o pífio nacionalismo inerente, que obriga a que a "selecção" seja "de todos nós" e que o Real Madrid seja "de Luís Figo"; o jargão do ramo, onde cabem expressões do tipo "binómio espaço-tempo"; a doce subserviência dos políticos.
Do que eu gostava era dos tais 22 tipos que corriam atrás de uma bola. Hoje, entre o ruído, a bola escapa-se-lhes. E a mim tam­bém. Ë só isto.

No primeiro dia de Abril (sem piadas, s. f. f.), entrará em vigor o novo código penal tur­co, que visa adoçar a União Europeia (UE). A mim, confesso que o alargamento suscitava hesitações (e recentemente, num programa televisivo, mostrei-as com fartura). A Histó­ria tanto evidencia fundas disparidades como laços comuns. E é discutível se. no Ocidente que se pretende laico, as diferenças religio­sas devam ser um argumento sério. Além disso, a UE já vai em 25 membros e os "se­nadores" Mário Soares e Adriano Moreira in­vocam as raízes partilhadas para defender a inclusão de Cabo Verde, um precedente que, a prazo, faria a Europa coincidir com a Terra inteira.
A verdade é que a familiaridade da Tur­quia com os famosos "valores" europeus está a ser avaliada pêlos critérios errados. Recuar a Bizâncio ou à derrota dos otomanos em Viena não ajuda nem os simpatizantes nem os opositores da adesão. Também não va­mos lá com indicadores do tipo "Percenta­gem de casas com acesso à Internet": a Tur­quia ainda apresenta números fracotes, mas a popularidade da "rede" entre os animado­res de rua islâmicos não tardará a inverter a situação.
Um indicador fiável é a leitura. E, neste particular, reconheço agora que os turcos es­tão preparadíssimos para a Europa. Se ca­lhar, mais do que muitos europeus. Nos países da UE, os tops da venda de livros conti­nuam, há dois anos, atafulhados com o Código Da Vinci e seus sucedâneos. Na Tur­quia, o sucesso do momento chama-se Mein Kampf.Enquanto a Europa divaga em policiais anacrónicos, nos últimos meses a Lata do Adolfo vendeu 6o mil cópias da tradução lo­cal. E não se contam os milhões de turcos que vivem na Alemanha, os quais decerto preferem a edição original. Académicos expli­cam que o êxito se deve ao aumento do anti-americanismo e do anti-semitismo na Tur­quia. E então? Nojo dos EUA? Ódio aos ju­deus? Nada tão actual. Nada tão europeu. As manifestações da semana passada, as enésimas contra a invasão do Iraque e em favor dos lencinhos palestinianos, foram um ínfi­mo exemplo. Um êxito literário é uma au­têntica carta de recomendação. Eu deixei-me de dúvidas. A Turquia? União com ela. Logo que a adesão da Síria esteja encaminhada, claro.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 24 de Março de 2005

quarta-feira, março 23, 2005

 

Uma questão de acessibilidade

Eu sei que ninguém me encomendou este blogue. Muito menos o próprio Alberto Gonçalves, que espero que me perdoe o atrevimento. Mas como os jornais estão muito caros, e a sua leitura nem sempre apetecível, decidi criar este arquivo de crónicas e outros textos de Alberto Gonçalves, que fica disponível para todos os que, como eu, gostam da sua prosa, e independentemente de concordarem ou não com o conteúdo, não dispensam a sua consulta.

O alimentador do arquivo ficará anónimo para escapar às possíveis perseguições dos órgãos de origem destes textos. Alberto Gonçalves incluído.

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