Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

quinta-feira, março 24, 2005

 

Não ir à bola

A sugestão de abolir o cam­peonato nacional de futebol, que, meio a sério, meio a brincar, aqui deixei há umas semanas, indignou pelo me­nos dois leitores, os quais decidiram insultar-me com elevação. Para esta significativa amostra dos meus detrac­tores, eu não passo de um pedante, desses que desprezam a bola porque: a) não perce­bem nada do assunto; e b) não toleram diver­timentos populares.
Falso e falso. Em primeiro lugar, eu até percebo "do assunto". Aliás, e com a excep­ção de José Mourinho, o equivalente terre­no de Nosso Senhor, não conheço quem sai­ba de futebol tanto quanto eu. Eu sei o nome de cada vencedor da Taça dos Campeões Eu­ropeus. Eu sei porque é que, no Mundial de 1958, Feola adiou para o terceiro jogo a titularidade de Pele e Garrincha. Eu sei a trá­gica história de Mathias Sindelar, o melhor jogador da década de 1930. Além disso, li todos os clássicos do género, de Mário Filho a Brian Glanville e, quando criança, assisti a todos os desafios a que era humanamente possível assistir.
Em segundo lugar, gosto muito das folias populares, desde o futebol abordoada públi­ca. Se deixei de acompanhara bola (mas não a bordoada), foi justamente a partir do ins­tante em que a dita desceu do povo para meios mal frequentados. O meu problema come­çou com os "debates" televisivos. Nos últi­mos anos, os canais de TV encheram-se de intermináveis lengalengas, nas quais alegados representantes dos "três grandes" (haja pa­ciência!) reproduzem paleio de café nas suas piores formas. E que, ainda por cima, conta­minam o resto: se nos media apenas se discu­te a "tomada de posição" do dirigente X ou as falhas do árbitro Y, por que razão os jogado­res haveriam de se esmerar na qualidade do jogo, insignificância a que, pêlos vistos, já ninguém presta atenção? Dez minutos do dr. Sea­ra bastariam para desmoralizar Cruyff.
E depois, confesso, não me entusiasmo com: claques (assustadoramente) organiza­das; jogadores que posam no relvado como posam para anúncios; conferências de im­prensa em que as mesmas banalidades se re­petem com intuitos sádicos; dirigentes des­portivos sem excepção; o pífio nacionalismo inerente, que obriga a que a "selecção" seja "de todos nós" e que o Real Madrid seja "de Luís Figo"; o jargão do ramo, onde cabem expressões do tipo "binómio espaço-tempo"; a doce subserviência dos políticos.
Do que eu gostava era dos tais 22 tipos que corriam atrás de uma bola. Hoje, entre o ruído, a bola escapa-se-lhes. E a mim tam­bém. Ë só isto.

No primeiro dia de Abril (sem piadas, s. f. f.), entrará em vigor o novo código penal tur­co, que visa adoçar a União Europeia (UE). A mim, confesso que o alargamento suscitava hesitações (e recentemente, num programa televisivo, mostrei-as com fartura). A Histó­ria tanto evidencia fundas disparidades como laços comuns. E é discutível se. no Ocidente que se pretende laico, as diferenças religio­sas devam ser um argumento sério. Além disso, a UE já vai em 25 membros e os "se­nadores" Mário Soares e Adriano Moreira in­vocam as raízes partilhadas para defender a inclusão de Cabo Verde, um precedente que, a prazo, faria a Europa coincidir com a Terra inteira.
A verdade é que a familiaridade da Tur­quia com os famosos "valores" europeus está a ser avaliada pêlos critérios errados. Recuar a Bizâncio ou à derrota dos otomanos em Viena não ajuda nem os simpatizantes nem os opositores da adesão. Também não va­mos lá com indicadores do tipo "Percenta­gem de casas com acesso à Internet": a Tur­quia ainda apresenta números fracotes, mas a popularidade da "rede" entre os animado­res de rua islâmicos não tardará a inverter a situação.
Um indicador fiável é a leitura. E, neste particular, reconheço agora que os turcos es­tão preparadíssimos para a Europa. Se ca­lhar, mais do que muitos europeus. Nos países da UE, os tops da venda de livros conti­nuam, há dois anos, atafulhados com o Código Da Vinci e seus sucedâneos. Na Tur­quia, o sucesso do momento chama-se Mein Kampf.Enquanto a Europa divaga em policiais anacrónicos, nos últimos meses a Lata do Adolfo vendeu 6o mil cópias da tradução lo­cal. E não se contam os milhões de turcos que vivem na Alemanha, os quais decerto preferem a edição original. Académicos expli­cam que o êxito se deve ao aumento do anti-americanismo e do anti-semitismo na Tur­quia. E então? Nojo dos EUA? Ódio aos ju­deus? Nada tão actual. Nada tão europeu. As manifestações da semana passada, as enésimas contra a invasão do Iraque e em favor dos lencinhos palestinianos, foram um ínfi­mo exemplo. Um êxito literário é uma au­têntica carta de recomendação. Eu deixei-me de dúvidas. A Turquia? União com ela. Logo que a adesão da Síria esteja encaminhada, claro.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 24 de Março de 2005



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