Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

sexta-feira, abril 29, 2005

 

25 de Abril, às vezes!

Ai, que saudades. Em 2004, o 25 de Abril completou 30 anos, e a data redonda aju­dava à festa. Porém, nada contribuiu tanto para rea­vivar o espírito dos cravos quanto a cirurgia que o governo do dr. Du­rão Barroso operou à palavra "revolução", amputando-a do "r". Num instante, e ape­sar da ciática, a esquerda levantou-se, recu­perou o "r" do lixo e ergueu-o nos braços. Depois, vibrante e colérica como um plená­rio do MFA, exibiu-o nas ruas, em artigos de opinião e, no comovente caso de Manuel Alegre, nos versos de um poema épico. Nes­se dia, até o fatídico discurso de Jorge Sam­paio à nação saiu perceptível e correctamen­te indignado. Foi bonito, pá.
Agora, compare-se com o 25 de Abril da passada segunda-feira. E melhor não com­parar. Sampaio voltou a entaramelar-se nos "desafios do futuro". Os deputados adormeceram. Em Lisboa, um bando mis­teriosamente liderado pelo dr. Carrilho marchou do Marquês ao Rossio. E o povo, agradecido ao feriado mas ignorante do respectivo pretexto, marchou rumo aos shoppings. Por mim, confesso com pesar: estava em Trás-os-Montes, alienado entre um javali na brasa e um arroz de lebre. Um escândalo, pá.
O 25 de Abril não se fez para isto. Com cer­teza não se fez para que cada um ocupasse o aniversário do golpe de Estado da forma que entendesse, ostentando tiques pequeno-bur­gueses. Se calhar, nem sequer se fez para re­movera ditadura. Provavelmente, os tanques desceram de Santarém apenas para estabe­lecer uma nova classe política, uma casta de heróis repleta de experientes e instantâneos "antifascistas", que a ralé tomaria como exemplo e objecto de perpétua adoração. Os motivos do 25 de Abril esgotam-se na pró­pria existência do 25 de Abril, e talvez graças a esse sonho de eternidade a esquerda nun­ca o invoque sem acrescentar "sempre".
Por manifesta injustiça, o "sempre" du­rou 19 meses. Desde 1975, o "às vezes" ga­nhou prioridade e aos poucos a coisa re­sumiu-se a cerimónias oficiais, crescente­mente melancólicas, e a passeatas anuais, decrescentemente concorridas. A excep­ção, lá está, ocorreu em 2004, quando um governo de direita despertou as almas adormecidas e reacendeu o fogo revolu­cionário.
Daqui para a frente, acabou. Trinta e dois anos não servem para efeméride. Trinta e cinco também não. E em 2014 os protago­nistas do período revolucionário estarão en­terrados ou, mesmo os que ainda não o eram de origem, senis. A quatro décadas de
não foi muito mais relevante que a do dr. Carrilho.

A propósito, se o 25 de Abril se esvai da memória colectiva, não é por culpa ou mé­rito das televisões. Em cada aniversário, há dose reforçada de documentários sobre o golpe e o subsequente PREC. A ideia, presu­mo, é enaltecer a época. Os resultados são de uma enorme perversidade.
Por razões diversas, e que não devem ex­cluir a possibilidade de doença, tenho, em VHS ou DVD, umas duzentas horas de fil­magens do período, as quais vi e revi até ser ameaçado de divórcio. Donde consigo afirmar com razoável certeza que uns 98,6% do ma-
distância, não há comemorações: há mis­sas e exéquias. Sabemos no que consistem os festejos da implantação (tipo prótese) da República ou da Restauração (tipo mobília) de 1640. E, conforme se constata pêlos la­mentos na imprensa dos últimos dias, cus­ta submeter a herança de Salgueiro Maia a tamanho embaraço.
Para os verdadeiros "antifascistas", que no fundo somos todos, a única esperança é que a direita regresse ao poder, retire vá­rias letras ou sílabas inteiras à "revolução" e nos suscite novamente a vontade de gri­tar com raiva o nome de Abril, nas ruas, nas fábricas e nos demais lugares onde se gri­tam patetices assim. O problema é que, do modo que a direita está, é provável que o so­neto evocativo da praxe já só possa ser en­comendado ao bisneto de Manuel Alegre, cuja participação na gesta de 1974 decertoteria registado constituem, hoje e não ape­nas hoje, um constrangimento sem fim. As mudanças iniciadas no 25 de Abril deram-nos a liberdade de expressão, e eu nunca agra­decerei o suficiente por isso. Mas as circuns­tâncias dos anos revolucionários são uma comédia boçal, e só igual boçalidade permi­te imaginar que da sua repetida exibição saia uma impressão favorável daqueles tempos. Felizmente, os canais que mais insistem na cena da enxada na Herdade da Torre Bela ou no diálogo entre militares no 11 de Mar­ço (regra geral, a RTP2 e a SIC Notícias) assu­mem-se como serviço público, o que signifi­ca que pouco público os vê. Entretidos com o Panda ou o Sexy Hot, é possível que os jovens actuais cresçam sem os traumas que desgra­çaram a minha geração. E que um dia, lumi­noso e limpo País possa ser inteiramente ha­bitado por gente sem vergonha do País.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 29 de Abril de 2005

quarta-feira, abril 27, 2005

 

As regras de casa

A semana anterior começou bem, com a escolha do novo Papa. E continuou esplendorosa, com as reacções à escolha. Não sendo católico, ou sequer cristão, o assunto não me diz grande respeito. Mas é sempre agradável ver a esquerda estrebuchar com o “conservadorismo” de Ratzinger. Claro que apreciei a fúria de Soares e de Louçã. Claro que ri até às lágrimas quando Saramago, esse baluarte dos direitos humanos, anunciou o regresso da Inquisição. Se me permitem, porém, o momento alto aconteceu na TSF, que, ainda o fumo branco saía da chaminé, conseguiu pôr o ressuscitado Leonardo Boff em antena. A babar ódio.

Para os felizardos que não sabem e os abençoados que não se lembram, o (excomungado) padre Boff foi um dos expoentes brasileiros da “teologia da libertação”. E a “teologia da libertação” era uma espécie de Copcon em sotaina. Resultante de uma interpretação oportunista do Vaticano II, o movimento tinha os pés na América Latina, o coração em Havana e a cabeça em Moscovo. Em síntese, defendia que o reino dos Céus pertence exclusivamente aos pobres, na medida em que se mantenham pobres no reino da Terra. A julgar pelas referências políticas do sr. Boff & amigos, tal não seria tarefa complicada – se Ratzinger não tivesse entretanto desfalcado a seita, cujas sobras desde então lhe dedicam natural carinho.

O engraçado é que, nos últimos dias, a opinião de um alucinado como o sr. Boff fez escola. Indiferente às origens e ao absurdo da própria tese, a opinião dominante determinou que Ratzinger não é o Papa “ideal” para o tempo. O argumento mistura velhos sermões marxistas com as recentes expectativas sobre o programa de um Papa realmente “actual”: o casamento dos sacerdotes; a ordenação das mulheres; o aborto; a eutanásia; a homossexualidade; a contracepção. E com certeza só o desleixo tem impedido que se exija à Igreja o apoio às drogas leves e ao transformismo.

Os sábios ignoram que, ao contrário das ‘causas’ da opinião pública, os desígnios de uma religião instituída não mudam com o vento. Sobretudo, desculpem a graçola, não mudarão com este Bento. É grave? Nada: são as regras da casa, sem as quais a casa perderia a permanência e a identidade. O facto de Ratzinger também não estimar o capitalismo, o liberalismo ou, bem entendido, qualquer dos sintomas da ‘modernidade’ que eu prezo, não me ofende. Como a aversão do homem pelo relativismo, que eu moderadamente partilho, não me entusiasma (excepto, repito, enquanto factor de irritação da esquerda).

Uma coisa é a doutrina da Igreja, outra a observância dos homens – duas instâncias que, no Ocidente, até andam cada vez mais separadas. Mas isso talvez seja outra história.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 26 de Abril de 2005

sexta-feira, abril 15, 2005

 

As feiras cabisbaixas

Segundo os jornais espanhóis do passado fim-de-semana, que ci­tam o próprio, O eng. Sócrates avisou durante a campanha para as "legislativas" que a sua "pri­meira prioridade é Espanha, a se­gunda é Espanha e a terceira é Espanha". É engraçado, eu acompanhei a dita campa­nha e não dei por nada. Na altura, ficara con­vencido de que as prioridades do homem in­cidiam no avanço tecnológico, ou na criação de emprego, ou nas pensões dos velhinhos. E até acho ligeiramente improvável que se­melhante plataforma eleitoral permitisse uma vitória como a de 20 de Fevereiro: é complicado conquistar o eleitorado de um país quando se promete inteira (e tripla) dedicação ao país vizinho.
Certo é que o eng. Sócrates invadiu Ma­drid com um punhado de governantes, de­cidido a explicar aos espanhóis que não é saudável saírem a lucrar nas relações eco­nómicas mútuas. Em simultâneo, o dr. Sam­paio tomou Paris, levando na bagagem em­presários e, vejam bem, artistas, músicos e intelectuais. Quais são as três principais prioridades do PR? Com certeza a França, a França e a França.
Não sendo exclusivo português, estas vi­sitas de Estado com rancho atrás gozam de grande popularidade entre nós. Se calhar, re­presentam uma compensação pêlos hábitos da ditadura. Salazar amava tanto o País que, salvo um ou dois saltitos à fronteira, nun­ca o deixou. Além disso, era tão cioso dos produtos nacionais que fechava o mercado ao exterior e os intelectuais em cadeias, não fosse perdê-los.
Mas também há aqui cedência à globali­zação, que força a diplomacia dos fracos à venda a domicílio. De algum modo, as na­ções pouco prósperas julgam que entrar pela casa alheia com o estendal em riste se­duz os nativos ou, no mínimo, comove-os. Faz sentido, é sem dúvida comovente a con­vicção do eng. Sócrates, ao imaginar que a
"afinidade ideológica" (sic) que o une a Za­patero reverterá a balança comercial ibérica a nosso favor. E é sedutora a fé de Sampaio, crente de que basta agitar Lobo Antunes para subjugar os franceses ao "prestígio" de Portugal e da língua.
No mais, o exercício é quase cruel. Des­montada a feira, limpos os salões, tudo o que importa permanece intacto. Resta aos nossos representantes despirem a pose de estadistas e regressarem, taciturnos, a Por­tugal, Portugal, Portugal.

Nunca percebi os critérios pêlos quais o di­nheiro público repara os azares privados. Se o meu computador se eclipsar graças a um vírus, o Estado não me indemnizará pelo dano. Mas o Estado vai indemnizar os pro­dutores de cortiça cujos sobreiros arderam nos dois últimos Verões. Aparentemente, existe uma diferença qualitativa entre os ví­rus informáticos e os incêndios florestais. É uma diferença que me escapa: sempre jul­guei que ambos fossem obra de pelintras ou do desleixo. O primeiro factor é respon­sabilidade da polícia; o segundo, dos lesa­dos. Em qualquer dos casos, o papel dos subsídios é discutível.
E mais discutível é o respectivo valor: cada produtor receberá 8 euros por quinze qui­los de cortiça queimada, uma enormidade se atendermos aos padrões internacionais. No Rio de Janeiro, as famílias dos que, em 31 de Março, morreram às mãos de "vigilan­tes" (polícias militares, ao que consta), te­rão a haver uma pensão mínima de 77 euros. Ou seja, considerando o peso médio de um sujeito, de 1 euro por quilo, aproxima­damente. Apenas o dobro da quantia que o nosso Governo atribui à cortiça (no Brasil, a pensão será presumivelmente mensal, mas os supostos rendimentos dos falecidos também o eram, e a mesma cortiça só se vende uma vez).
Os apressados tenderão a conclusões sim­plistas, como a de que a vida humana é pou­co cotada no Terceiro Mundo. Eu acho é que sobrevalorizamos a cortiça, e vejo no epi­sódio um sinal das promessas de Lula, quan­do no dia do massacre afirmou, ao lado de Zapatero e Chávez: "O século XXI pertence­rá à América Latina." Na altura, toda a gente, Zapatero e Chávez excluídos, gargalhou com vontade, e a mim ainda me dói a bar­riga. A verdade é que o Brasil, a Venezuela, a Colômbia, o Uruguai e os demais países que caíram ou ameaçam cair na alçada de malucos "bolivarianos", ou "fidelistas", po­dem ter descoberto os trilhos do desenvol­vimento. Basta constatar as últimas tendên­cias da região: as chacinas combatem a sub­nutrição: as armas estimulam a economia paralela; os gangues atraem o investimen­to estrangeiro (drogas e terrorismo); os tos­tões que se poupam em indemnizações ser­vem o comércio de armamento.Entretanto, na sensível Europa debatem-se mariquices como a Constituição, e os orçamentos são delapidados em rolhas. Felizmen­te, Sócrates não dorme, e já deve ter estuda­do com o homólogo espanhol a alternativa la­tina ao modelo social europeu.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 15 de Abril de 2005

terça-feira, abril 12, 2005

 

A lebre e as tartarugas

Sabem as ‘lebres’ do atletismo, aqueles rapazes obscuros que começam as corridas como galgos, a fim de espevitar o passo dos putativos campeões? Imaginem uma prova em que, por falta de comparência, coragem ou forma, os campeões não acompanham as ‘lebres’ e uma delas acaba mesmo por vencer. Nas olimpíadas, isso seria uma surpresa, e um feito arrebatador. Na política, foi o XXVII congresso nacional do PSD, e um aborrecimento pegado. Aborrecimento é favor. O encontro de Pombal foi tão previsível, certinho e comportado que não precisava de ter existido. Mendes ganhou. Menezes perdeu. Cavaco foi relutantemente “designado” para Belém. A famosa terceira via, fosse ela qual fosse, não chegou às urnas de facto. Para isto, uma reunião, privada e púdica, teria bastado. A estopada foi tamanha que a Imprensa, a fim de combater o sono, determinou que o equilíbrio da votação final constituía uma espécie de acontecimento. Estimulados por audiências que dificilmente poderiam descer mais, os repórteres televisivos varreram então a sala, inquirindo os congressistas sobre a possível “divisão” do partido.

Antes da eleição, o assunto (digamos assim) era o propagado carácter “provisório” dos candidatos, o qual se atirava, microfone espetado, à cara do infeliz mais a jeito. E em ambos os casos ouviram-se, dezenas de vezes, as respostas da norma: que não, que o líder designado era para valer e, Deus o permitisse, seria o primeiro--ministro em 2009; e que não, que o PSD não saíra nada dividido, e o equilíbrio dos resultados apenas reflectia a “dinâmica” (juro) e a “dialéctica” (eu seja ceguinho) do partido. Perguntas escusadas pedem respostas tontas. No centro político, as lideranças são estáveis e os partidos unidos em proporção à possibilidade e à proximidade do poder. Neste momento, e nos que seguem, o poder mora muito longe do PSD, donde a conivência numa inocente, e obrigatória, mentira. A bem dizer, os “apoiantes” de Marques Mendes designam-se com aspas, e a maioria deles não só não acredita que ele possa durar como, sobretudo, não quer que ele dure mais que a proverbial “travessia”. Eis porque o congresso foi, para os participantes, uma triste resignação, e, para todos nós, um embaraço.

O único toque gracioso ficou, como aliás não poderia deixar de ficar, por conta de Santana Lopes, que em cada discurso lega uma anedota à posteridade. Desta vez, foi a do “eu vou andar por aí”. Pois vai. E os restantes pretensos chefes do PSD também, embora atravessassem Pombal com discrição. Em tempo de choque tecnológico, os carros já vêm com a rodagem feita.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 12 de Abril de 2005

sexta-feira, abril 08, 2005

 

O paraíso reencontrado

Na noite em que cheguei, o primeiro livro que vi em Hay-on-Wye foi o Paradise Losi de Milton. Fraca premonição. Hay-on-Wye parece ficar longe de tudo, mas, mm paciência e um bom mapa, de per­dida não tem nada. E, sob certos critérios, constitui uma espécie de paraíso.
Hay (Wye é o nome do rio que atravessa a região) situa-se no centro do País de Gales, na fronteira com a Inglaterra. Ë uma cidadezinha com mi! e poucos habitantes, ro­deada por pastagens imensas e imensas ove­lhas. No fundo, à semelhança de qualquer pequena localidade britânica ou irlandesa. A diferença é que Hay vende livros. Mui­tos livros. A acreditar na publicidade, é mes­mo "a capital mundial do comércio de li­vros em segunda mão". Não duvido. Tem 30 e tal livrarias, entre as genéricas, enormes e de arrumação discutível, e as temáticas, es­pecializadas em romances policiais, jardi­nagem, línguas e dialectos, literatura infan­til, viagens ou apicultura. Na minha curta estadia, corri não sei quantas estantes e lom­badas de cabeça encostada ao ombro, a prin­cípio em busca do que queria e depois em busca do que calhasse. Tirando uma dor de pescoço que demorou a sarar, enchi três ma­las e fiquei saciado.
Julgo que os milhares de turistas que fre­quentam anualmente o lugarejo também não terão razões de queixa. Além da aluci­nante oferta livreira, Hay possui uma dúzia de restaurantes, do aceitável ao sublime (o Old Black Lion pertence à segunda categoria) e cada moradia é um bed&breakfast em potência. E há os costumes indígenas, que já não se usam, como as pessoas saudarem-nos na rua ou as portas das casas quererem-se permanentemente abertas. Antes de Hay, eu nunca vira um lugar tão próspero, civi­lizado e feliz.
O sucesso de Hay deve tudo à monarquia. Não me refiro à casa Windsor. Hay beneficia de uma dinastia à parte e, até ver, de um homem só. O homem chama-se Richard Booth e é o auto-proclamado rei da cidade, que declarou independente do Reino Uni­do. Foi ele quem, em 1961, abriu a livraria inicial e criou o fenómeno. Booth habita um castelo (em ruína parcial), escreveu uma vo­lumosa autobiografia, passeia-se de man­to e coroa, publica éditos e confere títulos de Cavaleiro aos cães que encontra.
Durante um quarto de hora, Sua Majes­tade interrompeu uma entrevista a um su­jeito da Nacional Geographic para conversar comigo e com dois amigos meus. Insultou Napoleão e a BBC e sugeriu a possibilidade de, tal como tem sucedido em diversas terrinhas por lodo o mundo, nos acompanhar na criação de uma "Hay" em Portugal, des­de que o Estado não incomodasse. Perante o nosso pasmo, chamou uma "serviçal" e marcou uma audiência connosco para o dia seguinte, no castelo. Nós não fomos. Ele, suspeito, também não. Em Portugal, não haveria mistura mais improvável do que li­vros, aversão ao Estado e a demência de um rei assim. Quer dizer, reizinhos locais não faltam, mas a loucura deles é perigosa, sub­sidiada e não dá de ler a ninguém.

Venhor por este meio convidar a comuni­dade homossexual de Viseu a mudar-se para Matosinhos. De acordo com a imprensa, os gays da Beira Alta vêem-se regularmente aborrecidos por energúmenos, que vigiam os locais de encontro e gozam mediante ameaças e insultos. Nas palavras de um dos
energúmenos, recolhidas de um sítio gay na Internet, tudo começou numa área de serviço do ll'5:"{..) entrou um gajo e come­çou a olhar para mim. Estava a fazer as mi­nhas necessidades e ele, sem mais nem me­nos, pôs-me a mão na coisa... Levou um malhão."
Ë curioso que a reacção tenha recorrido ao folclore. Uma coisa garanto: em Matosi­nhos, mais precisamente em Leça da Pal­meira, não há riscos de malhão, vira ou corridinho. No lado poente da Petrogal, a vas­ta zona entre a refinaria e a praia é, desde há uns dois ou três anos, o equivalente na­cional a São Francisco, se trocarmos a Golden Gate do cenário pela Casa de Chá do Siza Vieira.
Eu sei, porque é voz corrente e porque resido a escassos metros dali. Na berma da estrada, há dezenas de carros parados, per­tença dos cavalheiros que se aliviam na mata em redor, sem tabus nem, presumo, gran­de higiene. Às vezes, voltam ao automóvel ainda a subir as calças. E a tudo isto a popu­lação permanece indiferente, fruto de uma tolerância impossível na província. Ë ver­dade que a minha mulher não consegue ob­servar o espectáculo sem abanar a cabeça, mas, em última instância, ela é pacífica.Portanto, gays beirões: unam-se e percor­ram o 1P5 rumo ao litoral. Porém, se no ca­minho as necessidades os obrigarem a pa­rar nas áreas de serviço, evitem pôr a mão na coisa alheia e levar correspondente malhão. Chegados a Matosinhos, há tempo para outras danças.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 8 de Abril de 2005

terça-feira, abril 05, 2005

 

A tanga e a panóplia

Encontro-me há vários dias fora de Portugal, nos vários sentidos da expressão. Por um lado, não tenho televisão, o telemóvel tem permanecido desligado e, salvo as inúmeras referências a José Mourinho, a Imprensa que circula no País de Gales dedica à nossa terrinha a mesma atenção que o CM costuma dedicar ao campeonato de andebol da Suazilândia (o qual, asseguro, é fascinante). Mas reconheço igualmente que não tencionei preencher estas férias com reflexões acerca do congresso do PSD, a possível candidatura de Manuel Alegre à presidência da República ou a já lendária caminhada do PP rumo à completa irrelevância.

Para cúmulo, e ainda que eu quisesse actualizar-me, as conversas com os nativos não ajudam muito. Sempre que esclarecidos sobre a minha proveniência (questão por aqui obrigatória), acrescentam logo: “Oh, óptimo clima. E belas praias.” ou “Excelente, bons vinhos”. Para os galeses (e os estrangeiros em geral), nós somos uma nação de bêbados estendidos ao sol, e dada a inveja que esta imagem lhes parece suscitar, evito contrariá-los.

O problema, para quem aspira a distância e sossego, é a internet. Estando num lugarejo com míseras centenas de habitantes, julgava-me livre dos avanços tecnológicos. Ontem, porém, vi uma loja pequenina que oferecia vinte minutos na “rede” em troca de uma libra. E não resisti. Foi assim que soube das reacções à morte de João Paulo II. E foi assim que soube que, entretanto, Portugal se tornara um país rico. Quem o afirmou foi Jerónimo de Sousa, o campeão das últimas “legislativas” nas categorias simpatia e honestidade. E se Jerónimo o diz, só um louco ou um bandido arriscariam duvidar. Os argumentos do homem, aliás, são de uma simplicidade devastadora: dado que as empresas cotadas na bolsa lucraram, em 2004, 900 milhões de euros, é apenas graças a uma “panóplia de comentadores” (sic), que teima em esconder o facto dos trabalhadores, que se perpetua o discurso da “tanga” e se convence os pobres à aceitação de uma escusada pobreza. Peço desculpa ao sr. Jerónimo, mas enquanto comentador acho ofensivo ver-me incluído nessa “panóplia” de biltres. E juro: durante as próximas semanas, esta humilde coluna invectivará sem descanso o eng. Sócrates a proceder à justa repartição das mais-valias capitalistas pelo povo. Depois, logo que tenha cumprido a minha missão, levanto os 90 euros que me cabem (e a cada um dos 10 milhões de portugueses), compro um chalé em Barbados e, por ínvios atalhos, realizo enfim o imaginário dos galeses, levando a vida ao sol, entre rum gelado e mar ameno. E, literalmente, de tanga.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 5 de Abril de 2005

sexta-feira, abril 01, 2005

 

Paz e sossego

Nos EUA, o longo fim de Terri Schiavo tem ocupa­do as manchetes durante semanas. Sabemos os por­menores. Após a senhora passar 15 anos em estado vegetativo, o marido conseguiu aprovação para que se removesse o tubo alimentar. Os pais perderam sucessivos apelos na justiça para impedi-lo. O Presidente Bush assinou de urgência uma lei federal, absurdamente criada para aplacar uma das facções. De ca­minho, a América partiu-se ao meio, entre os defensores e os opositores mais ou me­nos instantâneos da eutanásia.
Longe da vista, aqui a história não atin­giu com o mesmo impacto o coração do povo. Salvo os blogues, que discutem tudo, e alguns artigos de opinião, a eutanásia ain­da não merece honras de drama social. É questão de tempo, até que um infeliz, se­questrado sem esperança pêlos avanços clí­nicos, peça nas televisões para morrer e suscite o "debate".
Por enquanto, no que toca a "questões fracturantes", contentámo-nos com o abor­to. E a discussão em volta do dito já mos­trou que estas "fracturas" atingem sobretu­do o bom senso. Seja qual for o tema ou o lado do combate, os assuntos da vida e da morte empurram milhares para a rua, cheios de cartazes, slôganes e certezas. Principal­mente certezas, e é no mínimo curioso que estas cresçam em proporção directa ao me­lindre da situação. Acerca do aborto, cada bando de exaltados detém uma ciência irre­dutível da propriedade a preservar: o ventre da grávida ou o respectivo conteúdo.
Na eutanásia, ainda menos prestável a doces simplificações, a simplificação é a re­gra. Por razões académicas, levei um ano inteirinho a estudar a morte assistida. Li a bibliografia disponível. Falei com médicos e doentes, teóricos e pragmáticos. Termi­nei mais confuso do que começara. Não sei o que decidiria se alguém próximo se encontrasse na condição da sra. Schiavo. Nem sei o que decidiria sobre mim próprio, as­sim eu pudesse.
Percebo que, historicamente, a medicina não se limita à preservação da vida: de Pla­tão e dos antigos celtas a Bacon ou More, a eutanásia, terapêutica ou não, era uma pos­sibilidade, pretensa ou realizada. Mas tam­bém suspeito que as utopias purificadoras servem a legitimação do eugenismo. Perce­bo o princípio da "boa morte", caseira, "an­tecipada", familiar. Mas não a imagino com­patível com uma sociedade tecnológica. Per­cebo que seja equívoco inventariar os modos "dignos" de falecer. Mas o culto do sacrifí­cio não me entusiasma.
A verdade? Ocorrem-me duas: i) apesar de tudo, à hora em que escrevo a sra. Schiavo está viva; 2) é triste que a vida assuma formas daquelas. Fazem falta outras verda­des: quem decide o instante da morte? E sob que critérios? Dizer que a matéria é delica­da é leviano. Compete ao legislador decidir em recato leis que nunca serão "exactas", ou sequer razoáveis. Serão as possíveis. O que ultrapassar isto pertence ao ofício cir­cense, com acrobacias vistosas em que os argumentos das partes se vão eliminando mutuamente: a "dignidade"; a "compaixão"; a "ética"; a "crença"; etc. Feitas as contas, fe­chadas as portas, algures numa ala hospi­talar resta, sob a histeria, a intransmissível tragédia de uma família, que nunca sere­mos capazes de compreender ou partilhar. E cuja exposição pública é sempre um atroz enxovalho.

Na semana passada, a rapaziada do Greenpeace invadiu o porto de Leixões, a fim de impedir um desembarque de madei­ra. Apesar do esforço das televisões, parece que a madeira acabou por desembarcar. In­satisfeito, na terça-feira o mesmo simpáti­co grupinho acorrentou-se à porta da Viçai-ma, uma fábrica do ramo, impedindo a en­trada dos funcionários e atraindo nova chusma de empolgados repórteres.
Ignoro se os feitos assinalam a efeméri­de. Certo é que, há quase cinco anos, tam­bém em Leixões, os moços do Greenpeace já se haviam amarrado ao mastro de um na­vio, em nome de "causa" idêntica. Na altu­ra, o Ministério do Ambiente levou-os a sério e a carga ficou retida no porto. Dias de­pois, testes provaram que as madeiras "protegidas" eram uns pauzinhos aborreci­damente legais. Quem pagou o prejuízo? Provavelmente, não os "ambientalistas", rá­pidos a provocar tumultos e menos lestos a abrir a carteira. Agora, os senhores da Vicaima exigem ressarcimento e eu sugiro-Ihes paciência.E nem é difícil abolir estas macacadas. Vis­to que as arruaças "ecológicas" exigem orien­tação de estrangeiros, basta que o SEF aten­te a quem entra no País. Se se desconfiar que aquele sujeito de barbicha ou aquela rapari­ga desgrenhada são membros de uma asso­ciação "verde", as autoridades devem ter ple­no direito de pedir a sua retenção na alfân­dega, até que testes pormenorizados revelem o contrário. Enquanto isso, podem acorren­tá-los a um canto. Eles gostam.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 1 de Abril de 2005

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