Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

sexta-feira, abril 29, 2005

 

25 de Abril, às vezes!

Ai, que saudades. Em 2004, o 25 de Abril completou 30 anos, e a data redonda aju­dava à festa. Porém, nada contribuiu tanto para rea­vivar o espírito dos cravos quanto a cirurgia que o governo do dr. Du­rão Barroso operou à palavra "revolução", amputando-a do "r". Num instante, e ape­sar da ciática, a esquerda levantou-se, recu­perou o "r" do lixo e ergueu-o nos braços. Depois, vibrante e colérica como um plená­rio do MFA, exibiu-o nas ruas, em artigos de opinião e, no comovente caso de Manuel Alegre, nos versos de um poema épico. Nes­se dia, até o fatídico discurso de Jorge Sam­paio à nação saiu perceptível e correctamen­te indignado. Foi bonito, pá.
Agora, compare-se com o 25 de Abril da passada segunda-feira. E melhor não com­parar. Sampaio voltou a entaramelar-se nos "desafios do futuro". Os deputados adormeceram. Em Lisboa, um bando mis­teriosamente liderado pelo dr. Carrilho marchou do Marquês ao Rossio. E o povo, agradecido ao feriado mas ignorante do respectivo pretexto, marchou rumo aos shoppings. Por mim, confesso com pesar: estava em Trás-os-Montes, alienado entre um javali na brasa e um arroz de lebre. Um escândalo, pá.
O 25 de Abril não se fez para isto. Com cer­teza não se fez para que cada um ocupasse o aniversário do golpe de Estado da forma que entendesse, ostentando tiques pequeno-bur­gueses. Se calhar, nem sequer se fez para re­movera ditadura. Provavelmente, os tanques desceram de Santarém apenas para estabe­lecer uma nova classe política, uma casta de heróis repleta de experientes e instantâneos "antifascistas", que a ralé tomaria como exemplo e objecto de perpétua adoração. Os motivos do 25 de Abril esgotam-se na pró­pria existência do 25 de Abril, e talvez graças a esse sonho de eternidade a esquerda nun­ca o invoque sem acrescentar "sempre".
Por manifesta injustiça, o "sempre" du­rou 19 meses. Desde 1975, o "às vezes" ga­nhou prioridade e aos poucos a coisa re­sumiu-se a cerimónias oficiais, crescente­mente melancólicas, e a passeatas anuais, decrescentemente concorridas. A excep­ção, lá está, ocorreu em 2004, quando um governo de direita despertou as almas adormecidas e reacendeu o fogo revolu­cionário.
Daqui para a frente, acabou. Trinta e dois anos não servem para efeméride. Trinta e cinco também não. E em 2014 os protago­nistas do período revolucionário estarão en­terrados ou, mesmo os que ainda não o eram de origem, senis. A quatro décadas de
não foi muito mais relevante que a do dr. Carrilho.

A propósito, se o 25 de Abril se esvai da memória colectiva, não é por culpa ou mé­rito das televisões. Em cada aniversário, há dose reforçada de documentários sobre o golpe e o subsequente PREC. A ideia, presu­mo, é enaltecer a época. Os resultados são de uma enorme perversidade.
Por razões diversas, e que não devem ex­cluir a possibilidade de doença, tenho, em VHS ou DVD, umas duzentas horas de fil­magens do período, as quais vi e revi até ser ameaçado de divórcio. Donde consigo afirmar com razoável certeza que uns 98,6% do ma-
distância, não há comemorações: há mis­sas e exéquias. Sabemos no que consistem os festejos da implantação (tipo prótese) da República ou da Restauração (tipo mobília) de 1640. E, conforme se constata pêlos la­mentos na imprensa dos últimos dias, cus­ta submeter a herança de Salgueiro Maia a tamanho embaraço.
Para os verdadeiros "antifascistas", que no fundo somos todos, a única esperança é que a direita regresse ao poder, retire vá­rias letras ou sílabas inteiras à "revolução" e nos suscite novamente a vontade de gri­tar com raiva o nome de Abril, nas ruas, nas fábricas e nos demais lugares onde se gri­tam patetices assim. O problema é que, do modo que a direita está, é provável que o so­neto evocativo da praxe já só possa ser en­comendado ao bisneto de Manuel Alegre, cuja participação na gesta de 1974 decertoteria registado constituem, hoje e não ape­nas hoje, um constrangimento sem fim. As mudanças iniciadas no 25 de Abril deram-nos a liberdade de expressão, e eu nunca agra­decerei o suficiente por isso. Mas as circuns­tâncias dos anos revolucionários são uma comédia boçal, e só igual boçalidade permi­te imaginar que da sua repetida exibição saia uma impressão favorável daqueles tempos. Felizmente, os canais que mais insistem na cena da enxada na Herdade da Torre Bela ou no diálogo entre militares no 11 de Mar­ço (regra geral, a RTP2 e a SIC Notícias) assu­mem-se como serviço público, o que signifi­ca que pouco público os vê. Entretidos com o Panda ou o Sexy Hot, é possível que os jovens actuais cresçam sem os traumas que desgra­çaram a minha geração. E que um dia, lumi­noso e limpo País possa ser inteiramente ha­bitado por gente sem vergonha do País.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 29 de Abril de 2005



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