Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

sexta-feira, abril 15, 2005

 

As feiras cabisbaixas

Segundo os jornais espanhóis do passado fim-de-semana, que ci­tam o próprio, O eng. Sócrates avisou durante a campanha para as "legislativas" que a sua "pri­meira prioridade é Espanha, a se­gunda é Espanha e a terceira é Espanha". É engraçado, eu acompanhei a dita campa­nha e não dei por nada. Na altura, ficara con­vencido de que as prioridades do homem in­cidiam no avanço tecnológico, ou na criação de emprego, ou nas pensões dos velhinhos. E até acho ligeiramente improvável que se­melhante plataforma eleitoral permitisse uma vitória como a de 20 de Fevereiro: é complicado conquistar o eleitorado de um país quando se promete inteira (e tripla) dedicação ao país vizinho.
Certo é que o eng. Sócrates invadiu Ma­drid com um punhado de governantes, de­cidido a explicar aos espanhóis que não é saudável saírem a lucrar nas relações eco­nómicas mútuas. Em simultâneo, o dr. Sam­paio tomou Paris, levando na bagagem em­presários e, vejam bem, artistas, músicos e intelectuais. Quais são as três principais prioridades do PR? Com certeza a França, a França e a França.
Não sendo exclusivo português, estas vi­sitas de Estado com rancho atrás gozam de grande popularidade entre nós. Se calhar, re­presentam uma compensação pêlos hábitos da ditadura. Salazar amava tanto o País que, salvo um ou dois saltitos à fronteira, nun­ca o deixou. Além disso, era tão cioso dos produtos nacionais que fechava o mercado ao exterior e os intelectuais em cadeias, não fosse perdê-los.
Mas também há aqui cedência à globali­zação, que força a diplomacia dos fracos à venda a domicílio. De algum modo, as na­ções pouco prósperas julgam que entrar pela casa alheia com o estendal em riste se­duz os nativos ou, no mínimo, comove-os. Faz sentido, é sem dúvida comovente a con­vicção do eng. Sócrates, ao imaginar que a
"afinidade ideológica" (sic) que o une a Za­patero reverterá a balança comercial ibérica a nosso favor. E é sedutora a fé de Sampaio, crente de que basta agitar Lobo Antunes para subjugar os franceses ao "prestígio" de Portugal e da língua.
No mais, o exercício é quase cruel. Des­montada a feira, limpos os salões, tudo o que importa permanece intacto. Resta aos nossos representantes despirem a pose de estadistas e regressarem, taciturnos, a Por­tugal, Portugal, Portugal.

Nunca percebi os critérios pêlos quais o di­nheiro público repara os azares privados. Se o meu computador se eclipsar graças a um vírus, o Estado não me indemnizará pelo dano. Mas o Estado vai indemnizar os pro­dutores de cortiça cujos sobreiros arderam nos dois últimos Verões. Aparentemente, existe uma diferença qualitativa entre os ví­rus informáticos e os incêndios florestais. É uma diferença que me escapa: sempre jul­guei que ambos fossem obra de pelintras ou do desleixo. O primeiro factor é respon­sabilidade da polícia; o segundo, dos lesa­dos. Em qualquer dos casos, o papel dos subsídios é discutível.
E mais discutível é o respectivo valor: cada produtor receberá 8 euros por quinze qui­los de cortiça queimada, uma enormidade se atendermos aos padrões internacionais. No Rio de Janeiro, as famílias dos que, em 31 de Março, morreram às mãos de "vigilan­tes" (polícias militares, ao que consta), te­rão a haver uma pensão mínima de 77 euros. Ou seja, considerando o peso médio de um sujeito, de 1 euro por quilo, aproxima­damente. Apenas o dobro da quantia que o nosso Governo atribui à cortiça (no Brasil, a pensão será presumivelmente mensal, mas os supostos rendimentos dos falecidos também o eram, e a mesma cortiça só se vende uma vez).
Os apressados tenderão a conclusões sim­plistas, como a de que a vida humana é pou­co cotada no Terceiro Mundo. Eu acho é que sobrevalorizamos a cortiça, e vejo no epi­sódio um sinal das promessas de Lula, quan­do no dia do massacre afirmou, ao lado de Zapatero e Chávez: "O século XXI pertence­rá à América Latina." Na altura, toda a gente, Zapatero e Chávez excluídos, gargalhou com vontade, e a mim ainda me dói a bar­riga. A verdade é que o Brasil, a Venezuela, a Colômbia, o Uruguai e os demais países que caíram ou ameaçam cair na alçada de malucos "bolivarianos", ou "fidelistas", po­dem ter descoberto os trilhos do desenvol­vimento. Basta constatar as últimas tendên­cias da região: as chacinas combatem a sub­nutrição: as armas estimulam a economia paralela; os gangues atraem o investimen­to estrangeiro (drogas e terrorismo); os tos­tões que se poupam em indemnizações ser­vem o comércio de armamento.Entretanto, na sensível Europa debatem-se mariquices como a Constituição, e os orçamentos são delapidados em rolhas. Felizmen­te, Sócrates não dorme, e já deve ter estuda­do com o homólogo espanhol a alternativa la­tina ao modelo social europeu.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 15 de Abril de 2005



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