Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

quarta-feira, abril 27, 2005

 

As regras de casa

A semana anterior começou bem, com a escolha do novo Papa. E continuou esplendorosa, com as reacções à escolha. Não sendo católico, ou sequer cristão, o assunto não me diz grande respeito. Mas é sempre agradável ver a esquerda estrebuchar com o “conservadorismo” de Ratzinger. Claro que apreciei a fúria de Soares e de Louçã. Claro que ri até às lágrimas quando Saramago, esse baluarte dos direitos humanos, anunciou o regresso da Inquisição. Se me permitem, porém, o momento alto aconteceu na TSF, que, ainda o fumo branco saía da chaminé, conseguiu pôr o ressuscitado Leonardo Boff em antena. A babar ódio.

Para os felizardos que não sabem e os abençoados que não se lembram, o (excomungado) padre Boff foi um dos expoentes brasileiros da “teologia da libertação”. E a “teologia da libertação” era uma espécie de Copcon em sotaina. Resultante de uma interpretação oportunista do Vaticano II, o movimento tinha os pés na América Latina, o coração em Havana e a cabeça em Moscovo. Em síntese, defendia que o reino dos Céus pertence exclusivamente aos pobres, na medida em que se mantenham pobres no reino da Terra. A julgar pelas referências políticas do sr. Boff & amigos, tal não seria tarefa complicada – se Ratzinger não tivesse entretanto desfalcado a seita, cujas sobras desde então lhe dedicam natural carinho.

O engraçado é que, nos últimos dias, a opinião de um alucinado como o sr. Boff fez escola. Indiferente às origens e ao absurdo da própria tese, a opinião dominante determinou que Ratzinger não é o Papa “ideal” para o tempo. O argumento mistura velhos sermões marxistas com as recentes expectativas sobre o programa de um Papa realmente “actual”: o casamento dos sacerdotes; a ordenação das mulheres; o aborto; a eutanásia; a homossexualidade; a contracepção. E com certeza só o desleixo tem impedido que se exija à Igreja o apoio às drogas leves e ao transformismo.

Os sábios ignoram que, ao contrário das ‘causas’ da opinião pública, os desígnios de uma religião instituída não mudam com o vento. Sobretudo, desculpem a graçola, não mudarão com este Bento. É grave? Nada: são as regras da casa, sem as quais a casa perderia a permanência e a identidade. O facto de Ratzinger também não estimar o capitalismo, o liberalismo ou, bem entendido, qualquer dos sintomas da ‘modernidade’ que eu prezo, não me ofende. Como a aversão do homem pelo relativismo, que eu moderadamente partilho, não me entusiasma (excepto, repito, enquanto factor de irritação da esquerda).

Uma coisa é a doutrina da Igreja, outra a observância dos homens – duas instâncias que, no Ocidente, até andam cada vez mais separadas. Mas isso talvez seja outra história.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 26 de Abril de 2005



<< Home

Archives

Março 2005   Abril 2005   Maio 2005   Junho 2005   Julho 2005  

This page is powered by Blogger. Isn't yours?