Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

terça-feira, abril 12, 2005

 

A lebre e as tartarugas

Sabem as ‘lebres’ do atletismo, aqueles rapazes obscuros que começam as corridas como galgos, a fim de espevitar o passo dos putativos campeões? Imaginem uma prova em que, por falta de comparência, coragem ou forma, os campeões não acompanham as ‘lebres’ e uma delas acaba mesmo por vencer. Nas olimpíadas, isso seria uma surpresa, e um feito arrebatador. Na política, foi o XXVII congresso nacional do PSD, e um aborrecimento pegado. Aborrecimento é favor. O encontro de Pombal foi tão previsível, certinho e comportado que não precisava de ter existido. Mendes ganhou. Menezes perdeu. Cavaco foi relutantemente “designado” para Belém. A famosa terceira via, fosse ela qual fosse, não chegou às urnas de facto. Para isto, uma reunião, privada e púdica, teria bastado. A estopada foi tamanha que a Imprensa, a fim de combater o sono, determinou que o equilíbrio da votação final constituía uma espécie de acontecimento. Estimulados por audiências que dificilmente poderiam descer mais, os repórteres televisivos varreram então a sala, inquirindo os congressistas sobre a possível “divisão” do partido.

Antes da eleição, o assunto (digamos assim) era o propagado carácter “provisório” dos candidatos, o qual se atirava, microfone espetado, à cara do infeliz mais a jeito. E em ambos os casos ouviram-se, dezenas de vezes, as respostas da norma: que não, que o líder designado era para valer e, Deus o permitisse, seria o primeiro--ministro em 2009; e que não, que o PSD não saíra nada dividido, e o equilíbrio dos resultados apenas reflectia a “dinâmica” (juro) e a “dialéctica” (eu seja ceguinho) do partido. Perguntas escusadas pedem respostas tontas. No centro político, as lideranças são estáveis e os partidos unidos em proporção à possibilidade e à proximidade do poder. Neste momento, e nos que seguem, o poder mora muito longe do PSD, donde a conivência numa inocente, e obrigatória, mentira. A bem dizer, os “apoiantes” de Marques Mendes designam-se com aspas, e a maioria deles não só não acredita que ele possa durar como, sobretudo, não quer que ele dure mais que a proverbial “travessia”. Eis porque o congresso foi, para os participantes, uma triste resignação, e, para todos nós, um embaraço.

O único toque gracioso ficou, como aliás não poderia deixar de ficar, por conta de Santana Lopes, que em cada discurso lega uma anedota à posteridade. Desta vez, foi a do “eu vou andar por aí”. Pois vai. E os restantes pretensos chefes do PSD também, embora atravessassem Pombal com discrição. Em tempo de choque tecnológico, os carros já vêm com a rodagem feita.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 12 de Abril de 2005



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