Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

sexta-feira, abril 08, 2005

 

O paraíso reencontrado

Na noite em que cheguei, o primeiro livro que vi em Hay-on-Wye foi o Paradise Losi de Milton. Fraca premonição. Hay-on-Wye parece ficar longe de tudo, mas, mm paciência e um bom mapa, de per­dida não tem nada. E, sob certos critérios, constitui uma espécie de paraíso.
Hay (Wye é o nome do rio que atravessa a região) situa-se no centro do País de Gales, na fronteira com a Inglaterra. Ë uma cidadezinha com mi! e poucos habitantes, ro­deada por pastagens imensas e imensas ove­lhas. No fundo, à semelhança de qualquer pequena localidade britânica ou irlandesa. A diferença é que Hay vende livros. Mui­tos livros. A acreditar na publicidade, é mes­mo "a capital mundial do comércio de li­vros em segunda mão". Não duvido. Tem 30 e tal livrarias, entre as genéricas, enormes e de arrumação discutível, e as temáticas, es­pecializadas em romances policiais, jardi­nagem, línguas e dialectos, literatura infan­til, viagens ou apicultura. Na minha curta estadia, corri não sei quantas estantes e lom­badas de cabeça encostada ao ombro, a prin­cípio em busca do que queria e depois em busca do que calhasse. Tirando uma dor de pescoço que demorou a sarar, enchi três ma­las e fiquei saciado.
Julgo que os milhares de turistas que fre­quentam anualmente o lugarejo também não terão razões de queixa. Além da aluci­nante oferta livreira, Hay possui uma dúzia de restaurantes, do aceitável ao sublime (o Old Black Lion pertence à segunda categoria) e cada moradia é um bed&breakfast em potência. E há os costumes indígenas, que já não se usam, como as pessoas saudarem-nos na rua ou as portas das casas quererem-se permanentemente abertas. Antes de Hay, eu nunca vira um lugar tão próspero, civi­lizado e feliz.
O sucesso de Hay deve tudo à monarquia. Não me refiro à casa Windsor. Hay beneficia de uma dinastia à parte e, até ver, de um homem só. O homem chama-se Richard Booth e é o auto-proclamado rei da cidade, que declarou independente do Reino Uni­do. Foi ele quem, em 1961, abriu a livraria inicial e criou o fenómeno. Booth habita um castelo (em ruína parcial), escreveu uma vo­lumosa autobiografia, passeia-se de man­to e coroa, publica éditos e confere títulos de Cavaleiro aos cães que encontra.
Durante um quarto de hora, Sua Majes­tade interrompeu uma entrevista a um su­jeito da Nacional Geographic para conversar comigo e com dois amigos meus. Insultou Napoleão e a BBC e sugeriu a possibilidade de, tal como tem sucedido em diversas terrinhas por lodo o mundo, nos acompanhar na criação de uma "Hay" em Portugal, des­de que o Estado não incomodasse. Perante o nosso pasmo, chamou uma "serviçal" e marcou uma audiência connosco para o dia seguinte, no castelo. Nós não fomos. Ele, suspeito, também não. Em Portugal, não haveria mistura mais improvável do que li­vros, aversão ao Estado e a demência de um rei assim. Quer dizer, reizinhos locais não faltam, mas a loucura deles é perigosa, sub­sidiada e não dá de ler a ninguém.

Venhor por este meio convidar a comuni­dade homossexual de Viseu a mudar-se para Matosinhos. De acordo com a imprensa, os gays da Beira Alta vêem-se regularmente aborrecidos por energúmenos, que vigiam os locais de encontro e gozam mediante ameaças e insultos. Nas palavras de um dos
energúmenos, recolhidas de um sítio gay na Internet, tudo começou numa área de serviço do ll'5:"{..) entrou um gajo e come­çou a olhar para mim. Estava a fazer as mi­nhas necessidades e ele, sem mais nem me­nos, pôs-me a mão na coisa... Levou um malhão."
Ë curioso que a reacção tenha recorrido ao folclore. Uma coisa garanto: em Matosi­nhos, mais precisamente em Leça da Pal­meira, não há riscos de malhão, vira ou corridinho. No lado poente da Petrogal, a vas­ta zona entre a refinaria e a praia é, desde há uns dois ou três anos, o equivalente na­cional a São Francisco, se trocarmos a Golden Gate do cenário pela Casa de Chá do Siza Vieira.
Eu sei, porque é voz corrente e porque resido a escassos metros dali. Na berma da estrada, há dezenas de carros parados, per­tença dos cavalheiros que se aliviam na mata em redor, sem tabus nem, presumo, gran­de higiene. Às vezes, voltam ao automóvel ainda a subir as calças. E a tudo isto a popu­lação permanece indiferente, fruto de uma tolerância impossível na província. Ë ver­dade que a minha mulher não consegue ob­servar o espectáculo sem abanar a cabeça, mas, em última instância, ela é pacífica.Portanto, gays beirões: unam-se e percor­ram o 1P5 rumo ao litoral. Porém, se no ca­minho as necessidades os obrigarem a pa­rar nas áreas de serviço, evitem pôr a mão na coisa alheia e levar correspondente malhão. Chegados a Matosinhos, há tempo para outras danças.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 8 de Abril de 2005



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