Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

sexta-feira, abril 01, 2005

 

Paz e sossego

Nos EUA, o longo fim de Terri Schiavo tem ocupa­do as manchetes durante semanas. Sabemos os por­menores. Após a senhora passar 15 anos em estado vegetativo, o marido conseguiu aprovação para que se removesse o tubo alimentar. Os pais perderam sucessivos apelos na justiça para impedi-lo. O Presidente Bush assinou de urgência uma lei federal, absurdamente criada para aplacar uma das facções. De ca­minho, a América partiu-se ao meio, entre os defensores e os opositores mais ou me­nos instantâneos da eutanásia.
Longe da vista, aqui a história não atin­giu com o mesmo impacto o coração do povo. Salvo os blogues, que discutem tudo, e alguns artigos de opinião, a eutanásia ain­da não merece honras de drama social. É questão de tempo, até que um infeliz, se­questrado sem esperança pêlos avanços clí­nicos, peça nas televisões para morrer e suscite o "debate".
Por enquanto, no que toca a "questões fracturantes", contentámo-nos com o abor­to. E a discussão em volta do dito já mos­trou que estas "fracturas" atingem sobretu­do o bom senso. Seja qual for o tema ou o lado do combate, os assuntos da vida e da morte empurram milhares para a rua, cheios de cartazes, slôganes e certezas. Principal­mente certezas, e é no mínimo curioso que estas cresçam em proporção directa ao me­lindre da situação. Acerca do aborto, cada bando de exaltados detém uma ciência irre­dutível da propriedade a preservar: o ventre da grávida ou o respectivo conteúdo.
Na eutanásia, ainda menos prestável a doces simplificações, a simplificação é a re­gra. Por razões académicas, levei um ano inteirinho a estudar a morte assistida. Li a bibliografia disponível. Falei com médicos e doentes, teóricos e pragmáticos. Termi­nei mais confuso do que começara. Não sei o que decidiria se alguém próximo se encontrasse na condição da sra. Schiavo. Nem sei o que decidiria sobre mim próprio, as­sim eu pudesse.
Percebo que, historicamente, a medicina não se limita à preservação da vida: de Pla­tão e dos antigos celtas a Bacon ou More, a eutanásia, terapêutica ou não, era uma pos­sibilidade, pretensa ou realizada. Mas tam­bém suspeito que as utopias purificadoras servem a legitimação do eugenismo. Perce­bo o princípio da "boa morte", caseira, "an­tecipada", familiar. Mas não a imagino com­patível com uma sociedade tecnológica. Per­cebo que seja equívoco inventariar os modos "dignos" de falecer. Mas o culto do sacrifí­cio não me entusiasma.
A verdade? Ocorrem-me duas: i) apesar de tudo, à hora em que escrevo a sra. Schiavo está viva; 2) é triste que a vida assuma formas daquelas. Fazem falta outras verda­des: quem decide o instante da morte? E sob que critérios? Dizer que a matéria é delica­da é leviano. Compete ao legislador decidir em recato leis que nunca serão "exactas", ou sequer razoáveis. Serão as possíveis. O que ultrapassar isto pertence ao ofício cir­cense, com acrobacias vistosas em que os argumentos das partes se vão eliminando mutuamente: a "dignidade"; a "compaixão"; a "ética"; a "crença"; etc. Feitas as contas, fe­chadas as portas, algures numa ala hospi­talar resta, sob a histeria, a intransmissível tragédia de uma família, que nunca sere­mos capazes de compreender ou partilhar. E cuja exposição pública é sempre um atroz enxovalho.

Na semana passada, a rapaziada do Greenpeace invadiu o porto de Leixões, a fim de impedir um desembarque de madei­ra. Apesar do esforço das televisões, parece que a madeira acabou por desembarcar. In­satisfeito, na terça-feira o mesmo simpáti­co grupinho acorrentou-se à porta da Viçai-ma, uma fábrica do ramo, impedindo a en­trada dos funcionários e atraindo nova chusma de empolgados repórteres.
Ignoro se os feitos assinalam a efeméri­de. Certo é que, há quase cinco anos, tam­bém em Leixões, os moços do Greenpeace já se haviam amarrado ao mastro de um na­vio, em nome de "causa" idêntica. Na altu­ra, o Ministério do Ambiente levou-os a sério e a carga ficou retida no porto. Dias de­pois, testes provaram que as madeiras "protegidas" eram uns pauzinhos aborreci­damente legais. Quem pagou o prejuízo? Provavelmente, não os "ambientalistas", rá­pidos a provocar tumultos e menos lestos a abrir a carteira. Agora, os senhores da Vicaima exigem ressarcimento e eu sugiro-Ihes paciência.E nem é difícil abolir estas macacadas. Vis­to que as arruaças "ecológicas" exigem orien­tação de estrangeiros, basta que o SEF aten­te a quem entra no País. Se se desconfiar que aquele sujeito de barbicha ou aquela rapari­ga desgrenhada são membros de uma asso­ciação "verde", as autoridades devem ter ple­no direito de pedir a sua retenção na alfân­dega, até que testes pormenorizados revelem o contrário. Enquanto isso, podem acorren­tá-los a um canto. Eles gostam.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 1 de Abril de 2005



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