Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

terça-feira, abril 05, 2005

 

A tanga e a panóplia

Encontro-me há vários dias fora de Portugal, nos vários sentidos da expressão. Por um lado, não tenho televisão, o telemóvel tem permanecido desligado e, salvo as inúmeras referências a José Mourinho, a Imprensa que circula no País de Gales dedica à nossa terrinha a mesma atenção que o CM costuma dedicar ao campeonato de andebol da Suazilândia (o qual, asseguro, é fascinante). Mas reconheço igualmente que não tencionei preencher estas férias com reflexões acerca do congresso do PSD, a possível candidatura de Manuel Alegre à presidência da República ou a já lendária caminhada do PP rumo à completa irrelevância.

Para cúmulo, e ainda que eu quisesse actualizar-me, as conversas com os nativos não ajudam muito. Sempre que esclarecidos sobre a minha proveniência (questão por aqui obrigatória), acrescentam logo: “Oh, óptimo clima. E belas praias.” ou “Excelente, bons vinhos”. Para os galeses (e os estrangeiros em geral), nós somos uma nação de bêbados estendidos ao sol, e dada a inveja que esta imagem lhes parece suscitar, evito contrariá-los.

O problema, para quem aspira a distância e sossego, é a internet. Estando num lugarejo com míseras centenas de habitantes, julgava-me livre dos avanços tecnológicos. Ontem, porém, vi uma loja pequenina que oferecia vinte minutos na “rede” em troca de uma libra. E não resisti. Foi assim que soube das reacções à morte de João Paulo II. E foi assim que soube que, entretanto, Portugal se tornara um país rico. Quem o afirmou foi Jerónimo de Sousa, o campeão das últimas “legislativas” nas categorias simpatia e honestidade. E se Jerónimo o diz, só um louco ou um bandido arriscariam duvidar. Os argumentos do homem, aliás, são de uma simplicidade devastadora: dado que as empresas cotadas na bolsa lucraram, em 2004, 900 milhões de euros, é apenas graças a uma “panóplia de comentadores” (sic), que teima em esconder o facto dos trabalhadores, que se perpetua o discurso da “tanga” e se convence os pobres à aceitação de uma escusada pobreza. Peço desculpa ao sr. Jerónimo, mas enquanto comentador acho ofensivo ver-me incluído nessa “panóplia” de biltres. E juro: durante as próximas semanas, esta humilde coluna invectivará sem descanso o eng. Sócrates a proceder à justa repartição das mais-valias capitalistas pelo povo. Depois, logo que tenha cumprido a minha missão, levanto os 90 euros que me cabem (e a cada um dos 10 milhões de portugueses), compro um chalé em Barbados e, por ínvios atalhos, realizo enfim o imaginário dos galeses, levando a vida ao sol, entre rum gelado e mar ameno. E, literalmente, de tanga.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 5 de Abril de 2005



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