Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

quarta-feira, maio 25, 2005

 

Homem-a-dias - 25 de Maio

As mulheres do PS não se querem ver domesticadas. A "rua árabe" não quer ver os seus ex-tiranos em roupa interior. E, ao que consta, os europeus não querem ver o seu cinema, de que tanto se orgulham.

Dia 19, QUINTA-FEIRA
Eu não sei o que é o Departamento Nacional de Mulheres Socialistas (DNMS). Talvez seja um lóbi de minorias, como o Departamento Nacional de Dia­béticos Socialistas ou o Departamento Na­cional de Apicultores Socialistas. Também não sei exactamente para que serve. Presu­mo que as senhoras procurem emprego, or­ganizem excursões ao cabeleireiro e leiam Natália Correia em animados saraus. Certo é que, à semelhança de algum mulherio, fa­zem muito barulho. No início de Junho, ha­verá eleições para a presidência do DNMS e associas andam engalfinhadas. De um lado, está a alegada candidatura do aparelho; do outro, a candidatura contra a candidatura do aparelho, contra o aparelho e contra, pê­los vistos, José Sócrates, a quem acusam de possuir uma "cabeça misógina".
Pobre Sócrates. De acordo com a facção feminista, o engenheiro quer um DNMS dócil, e elas acham mal. A mim, parece-me uma ambição mais do que legítima, embo­ra de difícil concretização. Eu despacho dia­riamente com a Associação Nacional de Es­posas do Alberto Gonçalves, formada por um único elemento, e não tenho obtido grandes resultados. Porém, aconselho ao engenheiro paciência: a história está repleta de mulheres indomáveis cujo desígnio inconfesso é esperar pelo esposo em casa, com o tacho ao lume e um conhaque prontinho na mão. De resto, se as senhoras do PS fossem tão insubmissas e independen­tes, não estavam no PS. Nem em partido nenhum, diga-se.

Dia 20, SEXTA-FEIRA
O The Sun publicou umas fotografias indiscretas de Saddam Hussein e a indignação instalou-se (a indignação é dada a instalar-se). As imagens esclare­cem-nos sobre o cativeiro do psicopata, que habita uma cela minúscula, mobilada com secretária, cama e uma cadeira de plástico cor-de-rosa. Além disso, mostram-no a la­varas próprias meias e, num instantâneo as­saz polémico, a passear-se em cuecas.
No meio do chinfrim, a minha primeira reacção consistiu em averiguar o estado das cuecas. Há poucos meses, soube-se que Ali, o Químico, interrompeu diversas ses­sões de interrogatório devido a incontinên­cia (juro!), e que mesmo assim se recusa a usar fraldas em nome da honra e do res­peito por regras tribais. Presumindo que a honra e as regras são comuns à chusma de tarados que mandava no Iraque, era legí­timo questionar se Saddam não deveria la­var outra peça de vestuário que não as meias.
Felizmente, a acreditar nas fotos o ho­mem parecia limpinho, donde logo de se­guida pude perceber e partilhar o descon­forto da opinião pública, que por sua vez percebe e partilha a revolta da "rua árabe", que por sua vez está em pagode permanen­te. Episódios como este abalam a legitimi­dade das autoridades dos EUA e, como al­guém disse, rebaixam-nas ao nível dos cri­minosos em causa.
Eu acho até que as rebaixam um bocadi­nho mais. Saddam pode ter chacinado cen­tenas de milhares de curdos, mas nunca os forçou a actos de lavandaria. Saddam pode ter encarcerado metade dos seus conterrâ­neos, mas não lhes decorou as Jaulas com cadeiras rosa. As valas comuns são achados diários por aquelas bandas, mas os repre­sentantes das ONG no terreno asseguram que os cadáveres se encontram dignamen­te vestidos.
A verdade é uma; Bush não é apenas a maior ameaça à paz mundial, mas também ao bom gosto. Se não o pararmos a tempo, quem sabe as desgraças que nos aguar­dam? Bin Laden em tingerie? O Mullah Omar a remendar ceroulas? Só de pensar ar­repia.

DIA 22, DOMINGO
Poucas vezes a Europa que somos se revela com a nitidez das reportagens do Festival de Cannes, transmitidas pelo exemplar EuroNews. De meia em meia hora, chegam-nos planos do tapete verme­lho, por onde desfilam as alegadas vedetas do cinema europeu, que ou não são vede­tas ou não são europeias. Há sempre uns americanos reconhecíveis, que o público recebe com gritinhos, e toneladas de fran­ceses ou espanhóis obscuros, que as câma­ras do EuroNews contemplam com reve­rência.
Ocasionalmente, o desfile dá lugar às conferências de imprensa, nos últimos anos dedicadas na íntegra a insultar Bush. No exercício, presumo que obrigatório, os ar­tistas dos EUA são participantes activos, por simpatia para com os anfitriões ou sincera estupidez, E é isto. Às escondidas, julgo que em Cannes se estreiam uns filmes, desde sucessos imperialistas (pagos por produ­tores sem escrúpulos e feitos para as mas­sas), aos produtos alternativos (pagos pê­los estados da UE e feitos para alimentar os parasitas do meio).
Podemos abominar o folclore de Hollywood, e não custa ignorar 99% da sua actual produção. Ainda assim, o cinemaé as­sunto deles. Deste lado do oceano, houve ar­remedos de fitas, de autores, de estrelas, que não por acaso coincidiram com o apo­geu de Cannes, há quarenta anos. Enterra­das a nouvelle vague, dois ou três talentos casuais (Buñuel, Bergman) e uns protóti­pos de stars (Bardot, Delon), o tapete verme­lho tornou-se uma paródia inadvertida da cerimónia dos Óscares, e o Festival uma ce­lebração do vazio. Não seria grave, se cele­brar o vazio não fosse hoje, na política, na cultura, na ciência, na economia e na vida, uma espécie de profissão de um continen­te irrelevante. Tão irrelevante que até para reagir à América precisa da América.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 25 de Maio de 2005

 

Um país no vermelho

Domingo à noite, um penálti esquisito e um golo da Académica decretaram o início da famosa retoma. Pois é, o Benfica ganhou o campeonato e, conforme inúmeros especialistas haviam previsto, o País entrou numa nova fase de prosperidade. Só o dr. Constâncio não notou, e ontem insistiu em mostrar ao Governo um défice grotesco e muitas preocupações. Nitidamente, o dr. Constâncio não vê televisão. Todos os canais disponíveis dedicaram uma madrugada inteira ao assunto, e, dado que não são dirigidos por malucos, com certeza não o fariam em nome de uma mera celebração futebolística.

Ainda assim, foi pena que os referidos especialistas se esquecessem de explicar os pormenores da transição, que permanecem um tanto nebulosos. Há a hipótese de os festejos contribuírem directamente para o crescimento económico, por exemplo reforçando a confiança dos consumidores. Sucede que os consumidores não precisam de confiança, precisam de dinheiro. Além disso, não me parece que a venda esporádica de cervejas, bifanas e cachecóis chineses sirva para reabilitar o nosso débil tecido industrial.

Também há sugestões de que o triunfo do ‘slb, slb, slb’ despoletou enfim o choque tecnológico que nos conduzirá ao Paraíso. Volto a hesitar: embora, na Avenida dos Aliados, a claque do Porto esboçou alguns choques frontais contra os adeptos benfiquistas, a tecnologia utilizada (paus, garrafas, sinais com o dedo médio) mostrou-se assaz rudimentar.

A redução do desemprego? Pouco provável. A julgar pela frequência com que os simpatizantes do Benfica garantiam que o dia seguinte seria feriado nacional, o mais certo é que o desemprego tenha até aumentado.

Talvez os especialistas aludissem apenas aos reflexos indirectos do triunfo. Os seis milhões de portugueses que há onze anos ruminavam melancolia adquiriram revigorado fôlego. E, segundo esta escola de pensamento, agora é esperar para vê-los, empenhadíssimos, elevar a produtividade e a eficácia empresariais aos níveis da Irlanda (e quem diz uma Irlanda diz uma Angola, onde a festa foi igualmente rija). Pode ser, mas eu tendo a duvidar do discernimento de indivíduos que saltam mal lhes apontam uma câmara, enquanto repetem à exaustão “somos campeões, somos campeões”. Os jogadores são campeões; os adeptos limitam-se a fazer barulho.

Como se vê, o nexo entre a vitória do Benfica e o fim da crise não é inteiramente perceptível. Não importa, já que nem o próprio Benfica percebe como é que foi campeão. O fundamental é que a retoma está aí: alguém avise o dr. Constâncio, se faz favor.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 24 de Maio de 2005

sexta-feira, maio 20, 2005

 

Homem-a-dias - 20 Maio

Enquanto inúmeras organizações conspiram para nos enxovalhar, em Viseu evoca-se a origem dos gays, um charro no Dubai acende trilhos para a diplomacia e, na ONU, um menino corre atrás dos seus sonhos.

Dia 12, QUINTA-FEIRA
Um estudo da competitividade feito pelo IMD coloca Portugal em 45.° lugar, num conjunto de 60 economias. Nos últimos dois anos, descemos 13 luga­res, e já conseguimos olhar de baixo para a Jordânia. Vale que estamos à frente da Gré­cia e da Itália, numa demonstração de que a Antiguidade Clássica não foi grande estágio para o capitalismo.
A boa notícia é que, de acordo com um dos critérios em análise, somos os melhores do mundo no número de alunos por professor (apenas 8,3). A má notícia é que isso serve de pouco: a julgar por outro estudo recente, este da OCDE, temos os alunos de matemática mais pelintras. Uma duvidosa compensação: os cá­bulas não ficam impunes, já que um terceiro estudo, da UNICEF, prova que em nenhum país industrializado há crianças que levem tanta porrada quanto as portuguesas.
Este bombardeamento de estatísticas des­tinadas a embaraçar-nos no contexto inter­nacional não é novo. O que espanta é a inér­cia dos sucessivos governos face ao proble­ma. Embora não seja da sua competência aumentar a eficácia empresarial, ensinar os petizes a fazer contas e impedir os pais de os espancar, há uma solução óbvia: proibir a di­vulgação dos estudos ou, o que seria prefe­rível, a participação nacional neles.
Uma coisa é sermos fraquinhos. Outra é ex­pormos a miséria. Para nos relembrar desas­tres, já possuímos o Banco de Portugal, que ao menos guarda a vergonha dentro de por­tas. O Banco de Portugal e, é claro, a vidinha.

Dia 15, DOMINGO
Em Viseu, a manifestação contra a "homofobia", organizada pela Opus Gay e pelas inúmeras ramificações do BE,juntou largas dezenas de pessoas. Umas eram favoráveis à causa; outras, nem tanto. Estas últimas enriqueceram o ajuntamento com gritos de "Havia de ser no tempo do Sa-lazar!", o que só abona a favor dos seus co­nhecimentos históricos.
Como é sabido, no tempo de Salazar não havia homossexualidade. Nem podia haver. À época, a mulher portuguesa média pare­cia, de facto, mulher, e ninguém vislumbra­va qualquer motivo racional para a trocar pelo galego da mercearia. A atracção de al­guns homens pêlos machos da espécie co­meçou justamente após a revolução de 1974, quando, por acção das feministas, a imagem feminina dominante desceu a profundidades insondáveis: cabelo desgrenhado, roupas do Exército de Salvação e higiene rejeitada a tí­tulo de "burguesa". Pior: a "mulher" de Abril abria exclusivamente a boca para berrar so­bre a contracepção, o divórcio ou Lenine. Muitos homens não estavam para aturar isto, donde se tenham voltado para a alternativa possível: as fardas do MFA, então omnipre­sentes nas ruas, nas fábricas, nos campos, na televisão. Mal por mal, o capitão Duran Clemente era mais apresentável que Isabel do Carmo e, dado que não dizia nada de per­ceptível, era também mais suportável.
Depois, aos poucos a mulher portugue­sa média regressou ao banho e aos cabelei­reiros, o que consolou a minha geração. Mas, sobretudo para certos nichos da es­querda, em que para cúmulo subsistiram réplicas das feministas originais, foi tarde: o bichinho já lá estava. Da homossexualida­de não se sai. No máximo, sai-se do armá­rio. E irrompe-se em Viseu, sob vaias de malucos.

DIA 16, SEGUNDA-FEIRA
Grandes homens são os que descobrem oportunidades onde elas menos se adivinham. Veja-se o embai­xador António Monteiro, que foi ao Dubai suplicar pelo cineasta Ivo Ferreira e, de ca­minho, conseguiu estreitar os laços com os Emirados Árabes Unidos. Se, como vem no Expresso, um reles charro aproximou assim dois Estados, está definido o radioso futuro da diplomacia portuguesa.
Primeiro, há que enviar às sete partidas do mundo heroinómanos, dependentes de crack e os tradicionais bêbados. Depois, basta esperar que eles sejam detidos para que os nossos embaixadores intervenham, rogando clemência em público e sedimen­tando contactos na sombra. Aliás, julgo que o método já está a ser copiado por outros países: o turco hoje preso em Cascais com 28 quilos de estupefacientes será somente um pretexto para que representantes da Turquia venham cá discutir e aprofundar a adesão à UE. E não estaremos longe do tempo em que os próprios conflitos arma­dos serão um anacronismo, graças à in­fluência dos narcóticos na paz mundial. Brilhante ideia, ainda por cima nossa. Bem diz o povo que as Necessidades são as mães da invenção.

DIA 17, TERÇA-FEIRA
Todas as crianças ambicionam as mes­mas profissões: bombeiro, jogador de futebol, astronauta ou alto comis­sário das Nações Unidas para os Refugia­dos. Infelizmente, quase nenhuma realiza o sonho e poucas chegam perto.
António Guterres constitui uma ventu­rosa excepção. Por estes dias, decorre na ONU o processo decisivo de selecção e o en­genheiro é um dos finalistas. Em princípio, já ganhou: que eu saiba, os restantes can­didatos ao comissariado jamais sentiram na pele o drama dos refugiados. Guterres, pelo contrário, tem experiência na matéria desde 2001, quando fugiu de um pântano ingrato. Que o pântano, agora, se retracte apoiando a candidatura dele para qualquer posto longínquo, é o mínimo que se pode exigir.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 20 de Maio de 2005

terça-feira, maio 17, 2005

 

As virgens

O dr. Campos e Cunha meteu na cabeça que é prioritário reduzir o défice orçamental, aliás astronómico. E depois é vê-lo, em Lisboa ou no Luxemburgo, a desabafar às massas que “isto” vai mal, e que pior ficará se não se tomarem medidas urgentes. Com vasto descaramento, o homem chega ao ponto de enunciar as medidas: evitar o investimento público; aumentar os impostos; reduzir benefícios sociais.

Escandalosamente, o senhor ministro das Finanças pretende inclusive cortar na despesa do Estado com pessoal, a qual representa 15% do PIB e pertence à esfera do sagrado. De um ponto de vista “reaccionário”, estas trivialidades podem fazer sentido: não é descabido pedir sacrifícios, e, desde que se perceba o milagre, tentar subtrair, até 2008, quatro mil milhões de euros ao pandemónio dos gastos estatais. Do ponto de vista eleitoral, o dr. Campos e Cunha é maluco, donde o merecido sermão que o primeiro-ministro – para efeitos de protocolo “muito preocupado” com a penúria vigente – lhe administrou.

Notoriamente, o dr. Campos e Cunha ainda não conhece o Governo que integra e o País que governa. Tivesse ele ouvido as raras, e sublimadas, intervenções do eng. Sócrates, o sr. ministro perceberia que este particular Executivo não aumenta (confessadamente) os impostos, não reduz pessoal (cria 150 mil empregos) e não foge das grandes obras públicas (a acreditar no ministro Mário Lino, atira-se a elas com sofreguidão).

O problema não é novo, e vem com o cargo. Ao iniciar funções, certos titulares das Finanças convencem-se de que lhes compete endireitar as contas públicas. Abençoados sejam os pobres de espírito. Como qualquer sujeito lúcido sabe, a pasta das Finanças tem uma única finalidade: legitimar à tripa forra que reina nos ministérios vizinhos. Enquanto uns arrasam o que há e o que não há, convém existir quem pareça assegurar a seriedade do exercício, de forma a relaxar o povo. Em meio ao pagode, é de bom-tom simular “rigor” e “pragmatismo”.

Mas sem exageros. Às vezes, sobretudo quando as coisas dão para o torto, é mesmo aconselhável temperar o “rigor” com uma nota optimista. Em 1993, Braga de Macedo descobriu o “oásis” no exacto momento em que a nossa economia entrava em processo de desidratação. Hoje, o cenário é tão negro que um oásis não basta. Se quiser prestar um efectivo serviço à nação e manter o toque magrebino e alucinado das metáforas, o dr. Campos e Cunha devia usar o paraíso islâmico, com as setenta virgens da praxe. Ou, em nome do rigor e do pragmatismo, apenas umas trinta e cinco.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 17 de Maio de 2005

sexta-feira, maio 13, 2005

 

Ir dentro lá fora

Na terça-feira foi libertado Ivo Ferreira, o português detido no Dubai por fumar haxixe. No domingo anterior, o se­nhor Ferreira fora ouvido em julgamento durante 30 segundos e sem advogado. A nossa diplo­macia garantiu o acompanhamento do caso, o futebolista Luís Figo deu uma palavrinha aos filhos do xeque local e uma petição com milhares de assinaturas seguiu para o pró­prio xeque, rogando clemência. Graças a es­tas mezinhas ou ao acaso, o senhor Ferrei­ra livrou-se da alhada. Embora não o conhe­cendo, fico satisfeito: acho grotesco que um acto tão banal, até infantil, seja merecedor de prisão. Só não percebo porque é que o sr. Ferreira insistiu em visitar um sitio onde a infantilidade dá cadeia.
Ë verdade que as agências de viagens têm promovido o Dubai como um paraíso balnear, com os seus hotéis de seis estre­las e condomínios de luxo. Também é ver­dade que o referido sr. Figo passou lá a lua-de-mel, o que entre nós parece constituir um atractivo suplementar. Nada disto im­pede que o Dubai, um dos sete Emirados Árabes Unidos, integre uma pocilga ditato­rial, em que a presidência e a chefia do go­verno são direito hereditário de duas famí­lias, cujos tribunais se regem amplamente pelo Corão, Se uma pessoa prefere os sub­valorizados mimos do Ocidente às peculia­ridades da barbárie, o Dubai está longe de ser o destino ideal.
Ao que consta, o sr. Ferreira, que é cineas­ta, encontrava-se por lá a realizar um docu­mentário. Fraca atenuante. Para quem não for correspondente de guerra e dispensar julgamentos sem defesa, castigos corporais, petições e maçadas afins, quatro quintos do mundo são rigorosamente a evitar. Bem sei que as linhas aéreas reduziram o planeta a uma dúzia de horas de distância e que o imaginado exotismo seduz. Porém, finda a excitação do folheto turístico, convém pensar melhor e trocar Cuba por Chicago, as praias da Jamaica pêlos lagos da Escócia, a China pela Austrália.
Ainda que o propósito da viagem não in­clua a degustação de narcóticos, há umas 130 nações infestadas de miséria, arbitra­riedade e violência, fenómenos que no mí­nimo perturbam a digestão de um lavagante à beira-mar e que, com frequência, trans­bordam sobre o viajante desprevenido. Para complicar, note-se que estas simpáticas ca­racterísticas não têm de andar agrupadas: Singapura é economicamente próspera, mas uma cerveja a mais pode conduzir ao chico­te; a República Dominicana diz-se uma de­mocracia representativa, mas os polícias afastam os pedintes com as coronhas das armas. Cuidado, portanto.
No Manifesto do Partido Comunista, Marx acusava os burgueses de construírem um mundo à sua imagem, subordinando os países atrasados ao modo de produção capita­lista, ou seja, àquilo que chamamos de civi­lização. Infelizmente, os receios do velho Karl não se realizaram tanto quanto gostaríamos. Tenhamos esperança. Talvez, um belo dia, os amanhãs cantem de facto, e os pedaços exóticos da Terra se convertam ao modo de produção e demais modos da burguesia.
Enquanto isso não se verifica, eu não po­nho lá os pés. E julgo que o sr. Ivo Ferreira, sabendo o que sabe hoje, adoptará igual princípio.
É certo que as habituais forças conspirati­vas absolveram Santana de uma segunda candidatura e que o Bloco de Esquerda per­guntou ao dr. Sá Fernandes se se deixava apoiar. Mas, no fundo, o único lema sério das "autárquicas" na capital são os cartazes do dr. Manuel Maria Carrilho. Num dos di­tos (que aliás embelezam a cidade), o busto do dr. Carrilho enverga um traje que ao olhar desarmado pode parecer um fato de treino. A confirmar-se, isto significaria que o conhe­cido filósofo, contra todas as expectativas, joga futebol nas manhãs de sábado, leva a esposa ao hipermercado e frequenta o snack da esquina, onde emborca umas cervejas com caracóis e amigos. Escândalo. Tragédia. Calamidade. Ou, no mínimo, a alienação do eleitorado potencial do dr. Carrilho.
Felizmente, encontro-me em condições de assegurar que o alegado fato de treino não o é. Trata-se de um mero blusão de tipo informal, de resto aprovado pela Société Française de Philosophie e já experimenta­do por Jack Lang. Que alívio: é um mito que se preserva. Em Portugal, pelo menos, inte­lectual não bebe cerveja, intelectual casa-se com apresentadora de variedades, negoceia o "exclusivo" do casamento e frequenta as páginas da Caras. Intelectual não engole ca­racóis: belisca acepipes. Intelectual não joga à bola: escreve na Imprensa uns artigos fraquinhos, que reúne sazonalmente em livros magríssimos. Se sobrar tempo, o intelec­tual actualiza o seu sítio na Net, repleto de ideias fascinantes e totalmente desprovidas de sentido.
Afinal, o que mais se espera que um in­telectual faça?

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 13 de Maio de 2005

quarta-feira, maio 11, 2005

 

Crise de fé

Depois não me acusem de má vontade. Logo que, na própria tomada de posse, o eng. Sócrates encaminhou todas as prioridades para a recuperação económica, eu acreditei nele, mesmo que a “recuperação” não passasse de uma variante da velha “retoma”, que faleceu sem regressar. Eu até já acreditara nas promessas de campanha, como o choque/plano tecnológico (que nunca percebi) e a milagrosa criação de milhares (ou milhões, tanto faz) de empregos.

Mais recentemente, continuei a acreditar nas garantias do jovem Governo em funções. O eng. Sócrates jurava o controlo do défice e eu agradecia aos céus a dádiva de um chefe assim. O eng. Sócrates assegurava que os impostos não subiriam e eu colocava o retrato dele na parede da sala, emoldurado a banho de ouro e com uma velinha por baixo. O eng. Sócrates decretava medidas para “prevenir” o endividamento das famílias e eu acendia a velinha.

Toldado por uma devoção genuína, não me importava que os economistas declarassem, por este andar, o défice mais ou menos incontrolável. Nem que umas remodelações discretas da fiscalidade substituíssem, na prática, o aumento dos impostos. Nem que, com dívidas equivalentes a 117% do rendimento, as famílias já se encontrassem penhoradas com galhardia. Eu tinha fé, e a fé não se explica.

Infelizmente, a fé perde-se. A minha levou sumiço quando li no CM que o eng. Sócrates comprou, há quatro anos, 500 acções do Benfica. Foi um golpe. Eu julgava que elegêramos um feiticeiro da prosperidade económica e surge-me pela frente um sujeito que compra acções do Benfica, adquiridas pelo valor nominal de cinco euros e hoje ao preço do tremoço. Pior: o engenheiro não possui outras aplicações financeiras ou investimentos. A bem dizer, e além de casa e carros, ele não possui nada. Excepto as fatídicas 500 acções.

De início, tentei compensar o choque (não tecnológico) com uma explicação racional. Consegui duas explicações irracionais. Talvez os 2500 euros fossem uma esmola ao pobre clube, que à semelhança dos demais anda em declínio material e simbólico. Nesse caso, Sócrates revelaria o seu lado humano, consciencioso, “social”. A segunda hipótese: ele meteu-se no negócio (?) convencido de que ia encher os bolsos.

Qualquer das possibilidades assusta, uma pela irresponsabilidade, a outra pela ingenuidade. Uma coisa é certa: alguém acredita que um homem que concentra todos os seus investimentos pessoais em acções do Benfica é o primeiro-ministro que vai salvar a nação da bancarrota? Eu não acredito. A fé pode ser vesga, mas não tem de ser cega.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 10 de Maio de 2005

sexta-feira, maio 06, 2005

 

Postos na linha

Desde o passado dia 24 de Abril é aparentemente proi­bido fumar nos comboios Alfa, que até aqui dispu­nham de uma carruagem para o efeito. Nada de espe­cial. Banir o tabaco é fácil. Na quase totali­dade do Ocidente, leis idênticas têm sido instituídas sem um esboço de reacção. Aos poucos, não sê pode fumar nos transpor­tes, nos locais de trabalho, nos restaurantes, nos cafés e, quando calha, nos domicílios. Era certas, e pioneiras, cidades dos EUA, já não se pode fumar em parte nenhuma.
Eu acho tudo muito bem, mas privar, sem mais, a horrenda matilha de fumadores do seu horrendo hábito parece-me sanção ex­cessivamente branda. Aos propósitos da saúde há que acrescentar um pedacinho de humilhação, sem a qual os higienistas não alcançam pleno gozo. Os aeroportos, por exemplo, tiveram o cuidado de reservar ao consumo de cigarros uma pequena área, que fazem questão de manter imunda e a pilo menos 800 metros da porta de embar­que mais próxima. Assim, é sempre um di­vertimento para o passageiro saudável ob­servar a correria dos viciados rumo à última chamada do voo, tresandando a suor e ao fumo produzido pela sua espécie.
A medida agora instaurada pela CP apro­veita este louvável princípio e, de brinde, oferece algumas subtilezas deliciosas. Ape­sar da interdição nas carruagens, existe de facto uma zona de fumadores, situada num dos átrios do veículo. "Átrio" é a designação oficiosa. Na realidade, estamos a falar de um espaço idêntico às casas de banho dos ditos comboios: um metro quadrado, com um cinzeiro, zero renovadores de ar e, regra ge­ral, cinco ou seis desgraçados em simultâ­neo, que absorvem o próprio cigarro junto com os cigarros dos desgraçados que os an­tecederam.
De manhã, a coisa passa. Ao fim da tarde, temos festa. O cinzeiro, que não foi limpo
durante o dia, transbordou centenas de bea­tas para o chão. E o fumo, que não foi expe­lido, converteu o "átrio" num centro de tes­tes à resistência do pulmão humano. O ce­nário é o de uma cabina prestes a irromper em chamas, onde através do nevoeiro se vis­lumbram meia dúzia de silhuetas curvadas pela tosse. Uma alegria, portanto, que infe­lizmente apenas os passageiros contíguos podem contemplar.
Para gáudio colectivo, era importante que cada frequentador da linha Lisboa-Porto ti­vesse acesso a isto. Aplicar ao "átrio" a por­tentosa tecnologia necessária à renovação do ar seria dinheiro mal gasto. Porém, uns tostões bastariam para se instalar uma câ­mara que transmitisse o espectáculo pêlos televisores do Alfa, que um desacordo com a S1C tem mantido desligados. Do depri­mente Malucos ao Riso ao enxovalho em di­recto dos fumadores vai uma distância apre­ciável. Até eu, entre dois cigarros, me riria com vontade.

Depois de um estudo da OCDE confir­mar, pela enésima vez, que as nossas crian­ças são um desastre a matemática, a senho­ra ministra da Educação anunciou logo o alargamento dos horários no i.° ciclo. Óp­timo; assim os meninos e as meninas terão renovado vagar para não aprender matemá­tica. E os professores terão outra disponi­bilidade para não ensinar coisa nenhuma. Excepto, talvez, pêlos maluquinhos que atravessam a tutela, toda a gente percebe que a quantidade de tempo gasto na escola é inversamente proporcional aos conhecimentos adquiridos. A pedagogia dita moderna, de resto, aboliu os conhecimentos e trocou-os por "apetências" e "competências", que é aquilo que as crianças fazem enquanto se ba­bam. Além disso, substituiu as reprovações pelas "retenções", o que sem dúvida identi­fica a natureza anal do arranjinho.
Na prática, isto celebra o confesso desí­gnio do ensino público: a igualdade. Dado que, na "primária", as "competências" mais complexas consistem em empilhar três cu­bos e em fixar quatro clichés sobre ecolo­gia, os filhos dos pobres não têm por que se envergonhar perante os meninos ricos (eu-jos progenitores, por desleixo ou crueldade, os inscreveram numa escola estatal).
Já o prolongamento, em duas horas, do expediente escolar, tende a alcançar uma inconfessada finalidade: a nacionalização dos petizes. Em casa, ocupada a exercitar as "competências" adquiridas, a canalha é um estorvo. Compete ao Estado providenciar armazéns onde o estorvo possa ser deposi­tado, de preferência sem prazo de recolha. O horário sugerido pela sra. ministra ainda é curto. Porém, constitui um primeiro pas­so para um sistema non stop, de acordo com o qual os alunos pudessem, idealmente, vi­ver na escola.
Os pais, pelo menos os pais que aparecem muito indignados nas televisões, aplaudem. E esses pais, à semelhança do dr. Louçã, sa­bem o que é o sorriso de uma criança. Não foi em vão que o aborto se tornou no gran­de debate nacional.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 6 de Maio de 2005

terça-feira, maio 03, 2005

 

Um presidente à paisana

Meses depois de inventar um governo desastroso e de o espatifar em seguida, o dr. Sampaio resolveu dedicar um bocadinho do seu tempo aos acidentes rodoviários. Desde que Soares enxotou um guarda que lhe fazia escolta, este tipo de acções dá sempre resultados notáveis. Só no dia inaugural, durante um passeio entre Lisboa e Santarém, o dr. Sampaio teve uma ideia e uma revelação, ambas limitadas a predestinados.

A ideia foi sugerir que os militares da Brigada de Trânsito deixem de usar farda, de modo a não serem detectados pelos condutores em infracção, que se comportam com decência logo que distinguem a autoridade. De facto, isto é inaceitável, e a proposta do dr. Sampaio tem de ser adoptada com urgência. Sem o uniforme ou qualquer elemento identificativo, a BT deixa de alertar o pre-varicador, permitindo que este continue a aterrorizar terceiros a 230 km/hora, até ser multado ou imobilizado em chamas contra um camião, conforme o que suceder primeiro.

A revelação é ainda mais espantosa e sábia. De repente, o dr. Sampaio percebeu que a guerra nas estradas nacionais é questão de civismo. Caso o seu mandato não estivesse a terminar, acho que ele iria a tempo de descobrir que a açorda se faz com pão.

Infelizmente, o “civismo” não explica tudo. Dou um exemplo: por que é que, em Agosto, os nossos emigrantes percorrem com primor dois mil quilómetros para regressar à aldeia, e apenas estraçalham o carro a vinte minutos desta? Perderam o “civismo” em Salamanca? Duvido. A qualidade das estradas? Volto a duvidar: na Europa há bem pior.

Os portugueses guiam como loucos porque odeiam os portugueses. No estrangeiro, somos modelos de comportamento. Mas mal nos encontramos rodeados por compatriotas, somos tomados por um impulso destrutivo, que nos impele a ziguezaguear pelo IP5 com o objectivo de abatermos tantos quantos pudermos. O sentimento, aliás, não se esgota no tráfego automóvel. Há um ano, José Mourinho brilhava no Porto e cinco sextos da população abominavam o homem. Agora, que repetiu o sucesso entre ingleses, Mourinho é uma unanimidade. Portugal não legitima ninguém. Apesar de vagos assomos patrióticos, no fundo julgámo-nos uns pelintras, incapazes de suscitar respeito, inclusive o nosso.

Talvez, como dizia o outro, não gostemos de um clube que nos aceite como membros. Nem do clube, nem dos restantes sócios, nem do respectivo presidente, que por acaso elegemos. É por isso que evito conduzir após cada discurso ou sermão do dr. Sampaio: nesses períodos, as estradas tornam-se particularmente perigosas. À semelhança da BT, o PR devia andar incógnito.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 3 de Maio de 2005

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