Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

terça-feira, maio 17, 2005

 

As virgens

O dr. Campos e Cunha meteu na cabeça que é prioritário reduzir o défice orçamental, aliás astronómico. E depois é vê-lo, em Lisboa ou no Luxemburgo, a desabafar às massas que “isto” vai mal, e que pior ficará se não se tomarem medidas urgentes. Com vasto descaramento, o homem chega ao ponto de enunciar as medidas: evitar o investimento público; aumentar os impostos; reduzir benefícios sociais.

Escandalosamente, o senhor ministro das Finanças pretende inclusive cortar na despesa do Estado com pessoal, a qual representa 15% do PIB e pertence à esfera do sagrado. De um ponto de vista “reaccionário”, estas trivialidades podem fazer sentido: não é descabido pedir sacrifícios, e, desde que se perceba o milagre, tentar subtrair, até 2008, quatro mil milhões de euros ao pandemónio dos gastos estatais. Do ponto de vista eleitoral, o dr. Campos e Cunha é maluco, donde o merecido sermão que o primeiro-ministro – para efeitos de protocolo “muito preocupado” com a penúria vigente – lhe administrou.

Notoriamente, o dr. Campos e Cunha ainda não conhece o Governo que integra e o País que governa. Tivesse ele ouvido as raras, e sublimadas, intervenções do eng. Sócrates, o sr. ministro perceberia que este particular Executivo não aumenta (confessadamente) os impostos, não reduz pessoal (cria 150 mil empregos) e não foge das grandes obras públicas (a acreditar no ministro Mário Lino, atira-se a elas com sofreguidão).

O problema não é novo, e vem com o cargo. Ao iniciar funções, certos titulares das Finanças convencem-se de que lhes compete endireitar as contas públicas. Abençoados sejam os pobres de espírito. Como qualquer sujeito lúcido sabe, a pasta das Finanças tem uma única finalidade: legitimar à tripa forra que reina nos ministérios vizinhos. Enquanto uns arrasam o que há e o que não há, convém existir quem pareça assegurar a seriedade do exercício, de forma a relaxar o povo. Em meio ao pagode, é de bom-tom simular “rigor” e “pragmatismo”.

Mas sem exageros. Às vezes, sobretudo quando as coisas dão para o torto, é mesmo aconselhável temperar o “rigor” com uma nota optimista. Em 1993, Braga de Macedo descobriu o “oásis” no exacto momento em que a nossa economia entrava em processo de desidratação. Hoje, o cenário é tão negro que um oásis não basta. Se quiser prestar um efectivo serviço à nação e manter o toque magrebino e alucinado das metáforas, o dr. Campos e Cunha devia usar o paraíso islâmico, com as setenta virgens da praxe. Ou, em nome do rigor e do pragmatismo, apenas umas trinta e cinco.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 17 de Maio de 2005



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