Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

quarta-feira, maio 11, 2005

 

Crise de fé

Depois não me acusem de má vontade. Logo que, na própria tomada de posse, o eng. Sócrates encaminhou todas as prioridades para a recuperação económica, eu acreditei nele, mesmo que a “recuperação” não passasse de uma variante da velha “retoma”, que faleceu sem regressar. Eu até já acreditara nas promessas de campanha, como o choque/plano tecnológico (que nunca percebi) e a milagrosa criação de milhares (ou milhões, tanto faz) de empregos.

Mais recentemente, continuei a acreditar nas garantias do jovem Governo em funções. O eng. Sócrates jurava o controlo do défice e eu agradecia aos céus a dádiva de um chefe assim. O eng. Sócrates assegurava que os impostos não subiriam e eu colocava o retrato dele na parede da sala, emoldurado a banho de ouro e com uma velinha por baixo. O eng. Sócrates decretava medidas para “prevenir” o endividamento das famílias e eu acendia a velinha.

Toldado por uma devoção genuína, não me importava que os economistas declarassem, por este andar, o défice mais ou menos incontrolável. Nem que umas remodelações discretas da fiscalidade substituíssem, na prática, o aumento dos impostos. Nem que, com dívidas equivalentes a 117% do rendimento, as famílias já se encontrassem penhoradas com galhardia. Eu tinha fé, e a fé não se explica.

Infelizmente, a fé perde-se. A minha levou sumiço quando li no CM que o eng. Sócrates comprou, há quatro anos, 500 acções do Benfica. Foi um golpe. Eu julgava que elegêramos um feiticeiro da prosperidade económica e surge-me pela frente um sujeito que compra acções do Benfica, adquiridas pelo valor nominal de cinco euros e hoje ao preço do tremoço. Pior: o engenheiro não possui outras aplicações financeiras ou investimentos. A bem dizer, e além de casa e carros, ele não possui nada. Excepto as fatídicas 500 acções.

De início, tentei compensar o choque (não tecnológico) com uma explicação racional. Consegui duas explicações irracionais. Talvez os 2500 euros fossem uma esmola ao pobre clube, que à semelhança dos demais anda em declínio material e simbólico. Nesse caso, Sócrates revelaria o seu lado humano, consciencioso, “social”. A segunda hipótese: ele meteu-se no negócio (?) convencido de que ia encher os bolsos.

Qualquer das possibilidades assusta, uma pela irresponsabilidade, a outra pela ingenuidade. Uma coisa é certa: alguém acredita que um homem que concentra todos os seus investimentos pessoais em acções do Benfica é o primeiro-ministro que vai salvar a nação da bancarrota? Eu não acredito. A fé pode ser vesga, mas não tem de ser cega.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 10 de Maio de 2005



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