Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

sexta-feira, maio 20, 2005

 

Homem-a-dias - 20 Maio

Enquanto inúmeras organizações conspiram para nos enxovalhar, em Viseu evoca-se a origem dos gays, um charro no Dubai acende trilhos para a diplomacia e, na ONU, um menino corre atrás dos seus sonhos.

Dia 12, QUINTA-FEIRA
Um estudo da competitividade feito pelo IMD coloca Portugal em 45.° lugar, num conjunto de 60 economias. Nos últimos dois anos, descemos 13 luga­res, e já conseguimos olhar de baixo para a Jordânia. Vale que estamos à frente da Gré­cia e da Itália, numa demonstração de que a Antiguidade Clássica não foi grande estágio para o capitalismo.
A boa notícia é que, de acordo com um dos critérios em análise, somos os melhores do mundo no número de alunos por professor (apenas 8,3). A má notícia é que isso serve de pouco: a julgar por outro estudo recente, este da OCDE, temos os alunos de matemática mais pelintras. Uma duvidosa compensação: os cá­bulas não ficam impunes, já que um terceiro estudo, da UNICEF, prova que em nenhum país industrializado há crianças que levem tanta porrada quanto as portuguesas.
Este bombardeamento de estatísticas des­tinadas a embaraçar-nos no contexto inter­nacional não é novo. O que espanta é a inér­cia dos sucessivos governos face ao proble­ma. Embora não seja da sua competência aumentar a eficácia empresarial, ensinar os petizes a fazer contas e impedir os pais de os espancar, há uma solução óbvia: proibir a di­vulgação dos estudos ou, o que seria prefe­rível, a participação nacional neles.
Uma coisa é sermos fraquinhos. Outra é ex­pormos a miséria. Para nos relembrar desas­tres, já possuímos o Banco de Portugal, que ao menos guarda a vergonha dentro de por­tas. O Banco de Portugal e, é claro, a vidinha.

Dia 15, DOMINGO
Em Viseu, a manifestação contra a "homofobia", organizada pela Opus Gay e pelas inúmeras ramificações do BE,juntou largas dezenas de pessoas. Umas eram favoráveis à causa; outras, nem tanto. Estas últimas enriqueceram o ajuntamento com gritos de "Havia de ser no tempo do Sa-lazar!", o que só abona a favor dos seus co­nhecimentos históricos.
Como é sabido, no tempo de Salazar não havia homossexualidade. Nem podia haver. À época, a mulher portuguesa média pare­cia, de facto, mulher, e ninguém vislumbra­va qualquer motivo racional para a trocar pelo galego da mercearia. A atracção de al­guns homens pêlos machos da espécie co­meçou justamente após a revolução de 1974, quando, por acção das feministas, a imagem feminina dominante desceu a profundidades insondáveis: cabelo desgrenhado, roupas do Exército de Salvação e higiene rejeitada a tí­tulo de "burguesa". Pior: a "mulher" de Abril abria exclusivamente a boca para berrar so­bre a contracepção, o divórcio ou Lenine. Muitos homens não estavam para aturar isto, donde se tenham voltado para a alternativa possível: as fardas do MFA, então omnipre­sentes nas ruas, nas fábricas, nos campos, na televisão. Mal por mal, o capitão Duran Clemente era mais apresentável que Isabel do Carmo e, dado que não dizia nada de per­ceptível, era também mais suportável.
Depois, aos poucos a mulher portugue­sa média regressou ao banho e aos cabelei­reiros, o que consolou a minha geração. Mas, sobretudo para certos nichos da es­querda, em que para cúmulo subsistiram réplicas das feministas originais, foi tarde: o bichinho já lá estava. Da homossexualida­de não se sai. No máximo, sai-se do armá­rio. E irrompe-se em Viseu, sob vaias de malucos.

DIA 16, SEGUNDA-FEIRA
Grandes homens são os que descobrem oportunidades onde elas menos se adivinham. Veja-se o embai­xador António Monteiro, que foi ao Dubai suplicar pelo cineasta Ivo Ferreira e, de ca­minho, conseguiu estreitar os laços com os Emirados Árabes Unidos. Se, como vem no Expresso, um reles charro aproximou assim dois Estados, está definido o radioso futuro da diplomacia portuguesa.
Primeiro, há que enviar às sete partidas do mundo heroinómanos, dependentes de crack e os tradicionais bêbados. Depois, basta esperar que eles sejam detidos para que os nossos embaixadores intervenham, rogando clemência em público e sedimen­tando contactos na sombra. Aliás, julgo que o método já está a ser copiado por outros países: o turco hoje preso em Cascais com 28 quilos de estupefacientes será somente um pretexto para que representantes da Turquia venham cá discutir e aprofundar a adesão à UE. E não estaremos longe do tempo em que os próprios conflitos arma­dos serão um anacronismo, graças à in­fluência dos narcóticos na paz mundial. Brilhante ideia, ainda por cima nossa. Bem diz o povo que as Necessidades são as mães da invenção.

DIA 17, TERÇA-FEIRA
Todas as crianças ambicionam as mes­mas profissões: bombeiro, jogador de futebol, astronauta ou alto comis­sário das Nações Unidas para os Refugia­dos. Infelizmente, quase nenhuma realiza o sonho e poucas chegam perto.
António Guterres constitui uma ventu­rosa excepção. Por estes dias, decorre na ONU o processo decisivo de selecção e o en­genheiro é um dos finalistas. Em princípio, já ganhou: que eu saiba, os restantes can­didatos ao comissariado jamais sentiram na pele o drama dos refugiados. Guterres, pelo contrário, tem experiência na matéria desde 2001, quando fugiu de um pântano ingrato. Que o pântano, agora, se retracte apoiando a candidatura dele para qualquer posto longínquo, é o mínimo que se pode exigir.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 20 de Maio de 2005



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