Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

quarta-feira, maio 25, 2005

 

Homem-a-dias - 25 de Maio

As mulheres do PS não se querem ver domesticadas. A "rua árabe" não quer ver os seus ex-tiranos em roupa interior. E, ao que consta, os europeus não querem ver o seu cinema, de que tanto se orgulham.

Dia 19, QUINTA-FEIRA
Eu não sei o que é o Departamento Nacional de Mulheres Socialistas (DNMS). Talvez seja um lóbi de minorias, como o Departamento Nacional de Dia­béticos Socialistas ou o Departamento Na­cional de Apicultores Socialistas. Também não sei exactamente para que serve. Presu­mo que as senhoras procurem emprego, or­ganizem excursões ao cabeleireiro e leiam Natália Correia em animados saraus. Certo é que, à semelhança de algum mulherio, fa­zem muito barulho. No início de Junho, ha­verá eleições para a presidência do DNMS e associas andam engalfinhadas. De um lado, está a alegada candidatura do aparelho; do outro, a candidatura contra a candidatura do aparelho, contra o aparelho e contra, pê­los vistos, José Sócrates, a quem acusam de possuir uma "cabeça misógina".
Pobre Sócrates. De acordo com a facção feminista, o engenheiro quer um DNMS dócil, e elas acham mal. A mim, parece-me uma ambição mais do que legítima, embo­ra de difícil concretização. Eu despacho dia­riamente com a Associação Nacional de Es­posas do Alberto Gonçalves, formada por um único elemento, e não tenho obtido grandes resultados. Porém, aconselho ao engenheiro paciência: a história está repleta de mulheres indomáveis cujo desígnio inconfesso é esperar pelo esposo em casa, com o tacho ao lume e um conhaque prontinho na mão. De resto, se as senhoras do PS fossem tão insubmissas e independen­tes, não estavam no PS. Nem em partido nenhum, diga-se.

Dia 20, SEXTA-FEIRA
O The Sun publicou umas fotografias indiscretas de Saddam Hussein e a indignação instalou-se (a indignação é dada a instalar-se). As imagens esclare­cem-nos sobre o cativeiro do psicopata, que habita uma cela minúscula, mobilada com secretária, cama e uma cadeira de plástico cor-de-rosa. Além disso, mostram-no a la­varas próprias meias e, num instantâneo as­saz polémico, a passear-se em cuecas.
No meio do chinfrim, a minha primeira reacção consistiu em averiguar o estado das cuecas. Há poucos meses, soube-se que Ali, o Químico, interrompeu diversas ses­sões de interrogatório devido a incontinên­cia (juro!), e que mesmo assim se recusa a usar fraldas em nome da honra e do res­peito por regras tribais. Presumindo que a honra e as regras são comuns à chusma de tarados que mandava no Iraque, era legí­timo questionar se Saddam não deveria la­var outra peça de vestuário que não as meias.
Felizmente, a acreditar nas fotos o ho­mem parecia limpinho, donde logo de se­guida pude perceber e partilhar o descon­forto da opinião pública, que por sua vez percebe e partilha a revolta da "rua árabe", que por sua vez está em pagode permanen­te. Episódios como este abalam a legitimi­dade das autoridades dos EUA e, como al­guém disse, rebaixam-nas ao nível dos cri­minosos em causa.
Eu acho até que as rebaixam um bocadi­nho mais. Saddam pode ter chacinado cen­tenas de milhares de curdos, mas nunca os forçou a actos de lavandaria. Saddam pode ter encarcerado metade dos seus conterrâ­neos, mas não lhes decorou as Jaulas com cadeiras rosa. As valas comuns são achados diários por aquelas bandas, mas os repre­sentantes das ONG no terreno asseguram que os cadáveres se encontram dignamen­te vestidos.
A verdade é uma; Bush não é apenas a maior ameaça à paz mundial, mas também ao bom gosto. Se não o pararmos a tempo, quem sabe as desgraças que nos aguar­dam? Bin Laden em tingerie? O Mullah Omar a remendar ceroulas? Só de pensar ar­repia.

DIA 22, DOMINGO
Poucas vezes a Europa que somos se revela com a nitidez das reportagens do Festival de Cannes, transmitidas pelo exemplar EuroNews. De meia em meia hora, chegam-nos planos do tapete verme­lho, por onde desfilam as alegadas vedetas do cinema europeu, que ou não são vede­tas ou não são europeias. Há sempre uns americanos reconhecíveis, que o público recebe com gritinhos, e toneladas de fran­ceses ou espanhóis obscuros, que as câma­ras do EuroNews contemplam com reve­rência.
Ocasionalmente, o desfile dá lugar às conferências de imprensa, nos últimos anos dedicadas na íntegra a insultar Bush. No exercício, presumo que obrigatório, os ar­tistas dos EUA são participantes activos, por simpatia para com os anfitriões ou sincera estupidez, E é isto. Às escondidas, julgo que em Cannes se estreiam uns filmes, desde sucessos imperialistas (pagos por produ­tores sem escrúpulos e feitos para as mas­sas), aos produtos alternativos (pagos pê­los estados da UE e feitos para alimentar os parasitas do meio).
Podemos abominar o folclore de Hollywood, e não custa ignorar 99% da sua actual produção. Ainda assim, o cinemaé as­sunto deles. Deste lado do oceano, houve ar­remedos de fitas, de autores, de estrelas, que não por acaso coincidiram com o apo­geu de Cannes, há quarenta anos. Enterra­das a nouvelle vague, dois ou três talentos casuais (Buñuel, Bergman) e uns protóti­pos de stars (Bardot, Delon), o tapete verme­lho tornou-se uma paródia inadvertida da cerimónia dos Óscares, e o Festival uma ce­lebração do vazio. Não seria grave, se cele­brar o vazio não fosse hoje, na política, na cultura, na ciência, na economia e na vida, uma espécie de profissão de um continen­te irrelevante. Tão irrelevante que até para reagir à América precisa da América.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 25 de Maio de 2005



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