Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

sexta-feira, maio 13, 2005

 

Ir dentro lá fora

Na terça-feira foi libertado Ivo Ferreira, o português detido no Dubai por fumar haxixe. No domingo anterior, o se­nhor Ferreira fora ouvido em julgamento durante 30 segundos e sem advogado. A nossa diplo­macia garantiu o acompanhamento do caso, o futebolista Luís Figo deu uma palavrinha aos filhos do xeque local e uma petição com milhares de assinaturas seguiu para o pró­prio xeque, rogando clemência. Graças a es­tas mezinhas ou ao acaso, o senhor Ferrei­ra livrou-se da alhada. Embora não o conhe­cendo, fico satisfeito: acho grotesco que um acto tão banal, até infantil, seja merecedor de prisão. Só não percebo porque é que o sr. Ferreira insistiu em visitar um sitio onde a infantilidade dá cadeia.
Ë verdade que as agências de viagens têm promovido o Dubai como um paraíso balnear, com os seus hotéis de seis estre­las e condomínios de luxo. Também é ver­dade que o referido sr. Figo passou lá a lua-de-mel, o que entre nós parece constituir um atractivo suplementar. Nada disto im­pede que o Dubai, um dos sete Emirados Árabes Unidos, integre uma pocilga ditato­rial, em que a presidência e a chefia do go­verno são direito hereditário de duas famí­lias, cujos tribunais se regem amplamente pelo Corão, Se uma pessoa prefere os sub­valorizados mimos do Ocidente às peculia­ridades da barbárie, o Dubai está longe de ser o destino ideal.
Ao que consta, o sr. Ferreira, que é cineas­ta, encontrava-se por lá a realizar um docu­mentário. Fraca atenuante. Para quem não for correspondente de guerra e dispensar julgamentos sem defesa, castigos corporais, petições e maçadas afins, quatro quintos do mundo são rigorosamente a evitar. Bem sei que as linhas aéreas reduziram o planeta a uma dúzia de horas de distância e que o imaginado exotismo seduz. Porém, finda a excitação do folheto turístico, convém pensar melhor e trocar Cuba por Chicago, as praias da Jamaica pêlos lagos da Escócia, a China pela Austrália.
Ainda que o propósito da viagem não in­clua a degustação de narcóticos, há umas 130 nações infestadas de miséria, arbitra­riedade e violência, fenómenos que no mí­nimo perturbam a digestão de um lavagante à beira-mar e que, com frequência, trans­bordam sobre o viajante desprevenido. Para complicar, note-se que estas simpáticas ca­racterísticas não têm de andar agrupadas: Singapura é economicamente próspera, mas uma cerveja a mais pode conduzir ao chico­te; a República Dominicana diz-se uma de­mocracia representativa, mas os polícias afastam os pedintes com as coronhas das armas. Cuidado, portanto.
No Manifesto do Partido Comunista, Marx acusava os burgueses de construírem um mundo à sua imagem, subordinando os países atrasados ao modo de produção capita­lista, ou seja, àquilo que chamamos de civi­lização. Infelizmente, os receios do velho Karl não se realizaram tanto quanto gostaríamos. Tenhamos esperança. Talvez, um belo dia, os amanhãs cantem de facto, e os pedaços exóticos da Terra se convertam ao modo de produção e demais modos da burguesia.
Enquanto isso não se verifica, eu não po­nho lá os pés. E julgo que o sr. Ivo Ferreira, sabendo o que sabe hoje, adoptará igual princípio.
É certo que as habituais forças conspirati­vas absolveram Santana de uma segunda candidatura e que o Bloco de Esquerda per­guntou ao dr. Sá Fernandes se se deixava apoiar. Mas, no fundo, o único lema sério das "autárquicas" na capital são os cartazes do dr. Manuel Maria Carrilho. Num dos di­tos (que aliás embelezam a cidade), o busto do dr. Carrilho enverga um traje que ao olhar desarmado pode parecer um fato de treino. A confirmar-se, isto significaria que o conhe­cido filósofo, contra todas as expectativas, joga futebol nas manhãs de sábado, leva a esposa ao hipermercado e frequenta o snack da esquina, onde emborca umas cervejas com caracóis e amigos. Escândalo. Tragédia. Calamidade. Ou, no mínimo, a alienação do eleitorado potencial do dr. Carrilho.
Felizmente, encontro-me em condições de assegurar que o alegado fato de treino não o é. Trata-se de um mero blusão de tipo informal, de resto aprovado pela Société Française de Philosophie e já experimenta­do por Jack Lang. Que alívio: é um mito que se preserva. Em Portugal, pelo menos, inte­lectual não bebe cerveja, intelectual casa-se com apresentadora de variedades, negoceia o "exclusivo" do casamento e frequenta as páginas da Caras. Intelectual não engole ca­racóis: belisca acepipes. Intelectual não joga à bola: escreve na Imprensa uns artigos fraquinhos, que reúne sazonalmente em livros magríssimos. Se sobrar tempo, o intelec­tual actualiza o seu sítio na Net, repleto de ideias fascinantes e totalmente desprovidas de sentido.
Afinal, o que mais se espera que um in­telectual faça?

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 13 de Maio de 2005



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