Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

sexta-feira, maio 06, 2005

 

Postos na linha

Desde o passado dia 24 de Abril é aparentemente proi­bido fumar nos comboios Alfa, que até aqui dispu­nham de uma carruagem para o efeito. Nada de espe­cial. Banir o tabaco é fácil. Na quase totali­dade do Ocidente, leis idênticas têm sido instituídas sem um esboço de reacção. Aos poucos, não sê pode fumar nos transpor­tes, nos locais de trabalho, nos restaurantes, nos cafés e, quando calha, nos domicílios. Era certas, e pioneiras, cidades dos EUA, já não se pode fumar em parte nenhuma.
Eu acho tudo muito bem, mas privar, sem mais, a horrenda matilha de fumadores do seu horrendo hábito parece-me sanção ex­cessivamente branda. Aos propósitos da saúde há que acrescentar um pedacinho de humilhação, sem a qual os higienistas não alcançam pleno gozo. Os aeroportos, por exemplo, tiveram o cuidado de reservar ao consumo de cigarros uma pequena área, que fazem questão de manter imunda e a pilo menos 800 metros da porta de embar­que mais próxima. Assim, é sempre um di­vertimento para o passageiro saudável ob­servar a correria dos viciados rumo à última chamada do voo, tresandando a suor e ao fumo produzido pela sua espécie.
A medida agora instaurada pela CP apro­veita este louvável princípio e, de brinde, oferece algumas subtilezas deliciosas. Ape­sar da interdição nas carruagens, existe de facto uma zona de fumadores, situada num dos átrios do veículo. "Átrio" é a designação oficiosa. Na realidade, estamos a falar de um espaço idêntico às casas de banho dos ditos comboios: um metro quadrado, com um cinzeiro, zero renovadores de ar e, regra ge­ral, cinco ou seis desgraçados em simultâ­neo, que absorvem o próprio cigarro junto com os cigarros dos desgraçados que os an­tecederam.
De manhã, a coisa passa. Ao fim da tarde, temos festa. O cinzeiro, que não foi limpo
durante o dia, transbordou centenas de bea­tas para o chão. E o fumo, que não foi expe­lido, converteu o "átrio" num centro de tes­tes à resistência do pulmão humano. O ce­nário é o de uma cabina prestes a irromper em chamas, onde através do nevoeiro se vis­lumbram meia dúzia de silhuetas curvadas pela tosse. Uma alegria, portanto, que infe­lizmente apenas os passageiros contíguos podem contemplar.
Para gáudio colectivo, era importante que cada frequentador da linha Lisboa-Porto ti­vesse acesso a isto. Aplicar ao "átrio" a por­tentosa tecnologia necessária à renovação do ar seria dinheiro mal gasto. Porém, uns tostões bastariam para se instalar uma câ­mara que transmitisse o espectáculo pêlos televisores do Alfa, que um desacordo com a S1C tem mantido desligados. Do depri­mente Malucos ao Riso ao enxovalho em di­recto dos fumadores vai uma distância apre­ciável. Até eu, entre dois cigarros, me riria com vontade.

Depois de um estudo da OCDE confir­mar, pela enésima vez, que as nossas crian­ças são um desastre a matemática, a senho­ra ministra da Educação anunciou logo o alargamento dos horários no i.° ciclo. Óp­timo; assim os meninos e as meninas terão renovado vagar para não aprender matemá­tica. E os professores terão outra disponi­bilidade para não ensinar coisa nenhuma. Excepto, talvez, pêlos maluquinhos que atravessam a tutela, toda a gente percebe que a quantidade de tempo gasto na escola é inversamente proporcional aos conhecimentos adquiridos. A pedagogia dita moderna, de resto, aboliu os conhecimentos e trocou-os por "apetências" e "competências", que é aquilo que as crianças fazem enquanto se ba­bam. Além disso, substituiu as reprovações pelas "retenções", o que sem dúvida identi­fica a natureza anal do arranjinho.
Na prática, isto celebra o confesso desí­gnio do ensino público: a igualdade. Dado que, na "primária", as "competências" mais complexas consistem em empilhar três cu­bos e em fixar quatro clichés sobre ecolo­gia, os filhos dos pobres não têm por que se envergonhar perante os meninos ricos (eu-jos progenitores, por desleixo ou crueldade, os inscreveram numa escola estatal).
Já o prolongamento, em duas horas, do expediente escolar, tende a alcançar uma inconfessada finalidade: a nacionalização dos petizes. Em casa, ocupada a exercitar as "competências" adquiridas, a canalha é um estorvo. Compete ao Estado providenciar armazéns onde o estorvo possa ser deposi­tado, de preferência sem prazo de recolha. O horário sugerido pela sra. ministra ainda é curto. Porém, constitui um primeiro pas­so para um sistema non stop, de acordo com o qual os alunos pudessem, idealmente, vi­ver na escola.
Os pais, pelo menos os pais que aparecem muito indignados nas televisões, aplaudem. E esses pais, à semelhança do dr. Louçã, sa­bem o que é o sorriso de uma criança. Não foi em vão que o aborto se tornou no gran­de debate nacional.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 6 de Maio de 2005



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