Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

quarta-feira, maio 25, 2005

 

Um país no vermelho

Domingo à noite, um penálti esquisito e um golo da Académica decretaram o início da famosa retoma. Pois é, o Benfica ganhou o campeonato e, conforme inúmeros especialistas haviam previsto, o País entrou numa nova fase de prosperidade. Só o dr. Constâncio não notou, e ontem insistiu em mostrar ao Governo um défice grotesco e muitas preocupações. Nitidamente, o dr. Constâncio não vê televisão. Todos os canais disponíveis dedicaram uma madrugada inteira ao assunto, e, dado que não são dirigidos por malucos, com certeza não o fariam em nome de uma mera celebração futebolística.

Ainda assim, foi pena que os referidos especialistas se esquecessem de explicar os pormenores da transição, que permanecem um tanto nebulosos. Há a hipótese de os festejos contribuírem directamente para o crescimento económico, por exemplo reforçando a confiança dos consumidores. Sucede que os consumidores não precisam de confiança, precisam de dinheiro. Além disso, não me parece que a venda esporádica de cervejas, bifanas e cachecóis chineses sirva para reabilitar o nosso débil tecido industrial.

Também há sugestões de que o triunfo do ‘slb, slb, slb’ despoletou enfim o choque tecnológico que nos conduzirá ao Paraíso. Volto a hesitar: embora, na Avenida dos Aliados, a claque do Porto esboçou alguns choques frontais contra os adeptos benfiquistas, a tecnologia utilizada (paus, garrafas, sinais com o dedo médio) mostrou-se assaz rudimentar.

A redução do desemprego? Pouco provável. A julgar pela frequência com que os simpatizantes do Benfica garantiam que o dia seguinte seria feriado nacional, o mais certo é que o desemprego tenha até aumentado.

Talvez os especialistas aludissem apenas aos reflexos indirectos do triunfo. Os seis milhões de portugueses que há onze anos ruminavam melancolia adquiriram revigorado fôlego. E, segundo esta escola de pensamento, agora é esperar para vê-los, empenhadíssimos, elevar a produtividade e a eficácia empresariais aos níveis da Irlanda (e quem diz uma Irlanda diz uma Angola, onde a festa foi igualmente rija). Pode ser, mas eu tendo a duvidar do discernimento de indivíduos que saltam mal lhes apontam uma câmara, enquanto repetem à exaustão “somos campeões, somos campeões”. Os jogadores são campeões; os adeptos limitam-se a fazer barulho.

Como se vê, o nexo entre a vitória do Benfica e o fim da crise não é inteiramente perceptível. Não importa, já que nem o próprio Benfica percebe como é que foi campeão. O fundamental é que a retoma está aí: alguém avise o dr. Constâncio, se faz favor.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 24 de Maio de 2005



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