Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

terça-feira, maio 03, 2005

 

Um presidente à paisana

Meses depois de inventar um governo desastroso e de o espatifar em seguida, o dr. Sampaio resolveu dedicar um bocadinho do seu tempo aos acidentes rodoviários. Desde que Soares enxotou um guarda que lhe fazia escolta, este tipo de acções dá sempre resultados notáveis. Só no dia inaugural, durante um passeio entre Lisboa e Santarém, o dr. Sampaio teve uma ideia e uma revelação, ambas limitadas a predestinados.

A ideia foi sugerir que os militares da Brigada de Trânsito deixem de usar farda, de modo a não serem detectados pelos condutores em infracção, que se comportam com decência logo que distinguem a autoridade. De facto, isto é inaceitável, e a proposta do dr. Sampaio tem de ser adoptada com urgência. Sem o uniforme ou qualquer elemento identificativo, a BT deixa de alertar o pre-varicador, permitindo que este continue a aterrorizar terceiros a 230 km/hora, até ser multado ou imobilizado em chamas contra um camião, conforme o que suceder primeiro.

A revelação é ainda mais espantosa e sábia. De repente, o dr. Sampaio percebeu que a guerra nas estradas nacionais é questão de civismo. Caso o seu mandato não estivesse a terminar, acho que ele iria a tempo de descobrir que a açorda se faz com pão.

Infelizmente, o “civismo” não explica tudo. Dou um exemplo: por que é que, em Agosto, os nossos emigrantes percorrem com primor dois mil quilómetros para regressar à aldeia, e apenas estraçalham o carro a vinte minutos desta? Perderam o “civismo” em Salamanca? Duvido. A qualidade das estradas? Volto a duvidar: na Europa há bem pior.

Os portugueses guiam como loucos porque odeiam os portugueses. No estrangeiro, somos modelos de comportamento. Mas mal nos encontramos rodeados por compatriotas, somos tomados por um impulso destrutivo, que nos impele a ziguezaguear pelo IP5 com o objectivo de abatermos tantos quantos pudermos. O sentimento, aliás, não se esgota no tráfego automóvel. Há um ano, José Mourinho brilhava no Porto e cinco sextos da população abominavam o homem. Agora, que repetiu o sucesso entre ingleses, Mourinho é uma unanimidade. Portugal não legitima ninguém. Apesar de vagos assomos patrióticos, no fundo julgámo-nos uns pelintras, incapazes de suscitar respeito, inclusive o nosso.

Talvez, como dizia o outro, não gostemos de um clube que nos aceite como membros. Nem do clube, nem dos restantes sócios, nem do respectivo presidente, que por acaso elegemos. É por isso que evito conduzir após cada discurso ou sermão do dr. Sampaio: nesses períodos, as estradas tornam-se particularmente perigosas. À semelhança da BT, o PR devia andar incógnito.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 3 de Maio de 2005



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