Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

terça-feira, junho 28, 2005

 

A luta pela derrota

As dificuldades do dr. Carrilho em distinguir as esferas pública e privada suscitaram inúmeras comparações com o dr. Santana. Não está mal visto, embora as afinidades sejam muito mais profundas. Claro que ambos partilham a urgência em exibir a família, fazer as capas da Imprensa dita “social” e proferir disparates “íntimos”. Mas isto não os distingue do contemporâneo médio: qualquer concorrente ao “Big Brother” ou repositora de “stocks” em Alfragide revela as mesmíssimas ambições.

O que principalmente aproxima os drs. Carrilho e Santana é um bizarro desejo de arruinar os objectivos que definiram para si próprios. Na recente corrida a S. Bento, o dr. Santana fez o que pôde para que não o elegêssemos primeiro-ministro. As metáforas da incubadora e das facadas, o luto pela Irmã Lúcia e a suspensão dos comícios a pretexto do Carnaval não enganaram ninguém.

Por incrível que pareça, o dr. Carrilho tem levado a autodestruição ainda mais longe. A sua campanha à Câmara de Lisboa é o maior aglomerado de falhanços desde que Edward Kennedy celebrou as suas hipóteses presidenciais afogando uma rapariguinha num lago e fugindo de seguida.

Primeiro, foi o acordo com o PCP que se esvaiu. Depois, numa demonstração cabal da sua visão para a cidade, o dr. Carrilho produziu uma série de cartazes em que a imagem de Lisboa surge invertida. Corrigido o ligeiro erro, irrompeu nova vaga de cartazes, que por sua vez taparam fachadas de edifícios, esconderam semáforos e para cúmulo, motivaram uma cartinha da Entidade de Contas e Financiamentos Políticos, a pedir esclarecimento dos respectivos custos. No passado dia 7, o dr. Carrilho lançou oficialmente a campanha, com o lendário vídeo familiar, que alimenta há semanas o anedotário nacional, e que além de incluir esposa e filho, beneficia igualmente de promessas aos “cidadões” (sic).

Eu não acredito que o dr. Carrilho não saiba soletrar “cidadãos”. Eu não acredito que o dr. Carrilho pense que insultar jornalistas rende votos. Eu não acredito que o dr. Carrilho se isole em “reflexão” a fim de comover o povo. Eu acredito que o dr. Carrilho não só quer perder as eleições como faz questão de ser o principal responsável pela derrota. A bem do PS, o eng. Sócrates já removeu os autores da campanha do dr. Carrilho. Mas seria preciso, como de resto começa a constar, que removesse o dr. Carrilho.

À semelhança de Santana, o dr. Carrilho é na aparência uma personagem cómica, no sentido em que se presta à galhofa geral. À semelhança de Santana, o dr. Carrilho é na essência uma figura trágica. Enquanto a comédia nos divertir e a tragédia reverter sobre ele, não há nisso problema nenhum.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 28 de Junho de 2005

sexta-feira, junho 24, 2005

 

Homem-a-dias: 24 de Junho

O dr. Carrilho ameaça não abandonar esta coluna. A classe docente ameaça não abandonar o estado de greve. E os meus amigos ameaçam abandonar-me, se eu insistir na RTP Memória

DIA 18, SÁBADO
Ainda a propósito do famoso vídeo, prossegue a saga da família Carrilho contra o mundo. Em entrevis­ta ao Expresso, e decerto apetrechado com diagnósticos clínicos comprovativos, o dr. Carrilho declara os jornalistas débeis mentais. Que jornalistas? Todos ? Uma selecção aleatória? Os que não gostam do dr. Carrilho? Um medico meu conhecido, entretanto irradiado pela Ordem, acha que não gostar do dr. Carrilho é sintoma de grave perturbação, susceptível de internamento.
De qualquer modo, e dado que eu próprio terei algumas fraquezas de raciocínio, não aceitei à primeira que um filosofo desta dimensão perca tempo e verbo a insultar energúmenos. Aceitei a segunda. A menos que se seja Alberto João Jardim, em Portugal ofender os profissionais da imprensa é meio caminho andado para se beneficiar de uma imprensa favorável. Um exemplo? Não custa nada. Álvaro Cunhal abjurou durante décadas a liberdade dos media, apavorado com a circulação de opiniões distintas das vinculadas no Avante! ou no Pravda. Em troca, salvo ligeiras excepções, os media trataram-no sempre com imaculado respeito. E, na sua morte, certos locutores de telejornais vestiram gravata preta e ameaços de choro.
Se o dr. Carrilho não se ficar pelos distúrbios do foro psiquiátrico e alargar as injurias a outros âmbitos (sugestões: os jornalistas cheiram mal da boca; os jorna­listas têm mulheres feias; os jornalistas não possuem 38.760 caracteres de ideias para Lisboa), é quase garantido que, como se diz no jargão da bola, será levado ao colo até às autárquicas, que o nosso herói garante ir "ganhar folgadamente". Até por­que o seu adversário e sonso, no sentido que Michel Foucault deu à expressão, presume-se.
Só falta o povo aprender a distinguir o sonso do sábio e votar em massa neste ul­timo. O dr. Carrilho pode tentar insultar o povo a ver se resulta (o famoso vídeo já ofende bastante; a entrevista ofende mais). Mas é provável que o eleitorado não seja tão masoquista quanto a classe jornalística. Nem tão débil mental.

DIA 20, SEGUNDA-FEIRA
Para garantir os exames do 9° ano, o ministério da Educação obrigou os professores à prestação de serviços mínimos. No Fórum Mulher da TSF (não confundir com o Fórum Chinês, o Fórum Operador de Alfaia Agrícola ou o Fórum Bebé Proveta, na mesma estação), uma profissional do ramo espumava-se: "Este Governo é fascista!" Apesar das definições mais restritas constantes dos manuais de política, é sabido que o cognome fascista se aplica a qualquer badameco que nos faca sair da cama de manhã, a fim de realizar actos absurdos como, por exemplo, trabalhar. Visto que, sempre que não esta em greve, de férias ou de baixa, boa parte dos professores do ensino publico se levanta a horas impróprias, é fácil admitir que todos os governos foram, são e serão fascistas.
Que os docentes persistam em servir tão infame patrão é, para alguns, um mistério. Alternativas não faltam: podiam emigrar, descer à clandestinidade, mudar-se para o sector privado. Ao invés, eles incompreensivelmente teimam em manter o vinculo a um Estado que os maltrata.
Incompreensivelmente, virgula. A mim, ninguém me convence de que os "setôres" não querem combater por dentro, destruindo o malvado regime desde o seu âmago. Aliás, basta olhar de esguelha o panorama da Educação, e, já agora, os exa­mes do 9.° ano, para se concluir que a luta tem sido um sucesso.

DIA 21, TERÇA-FEIRA
Agora que as manifestações estão de novo em voga, temo que nem cem mil populares entusiasmados no Rossio possam agradecer devidamente à RTP Memória o serviço que presta aos cidadãos, sem distinção de classe, raça ou tara. Para quem sente um desejo súbito de varar a noite na contemplação do Boavista-Belenenses de 1992/1993, a RTP Memória ajuda. Para quem suspira por Manuela Bravo em 1982, a RTP Memória consola. Para quem falhou o telejornal de 12 de Outubro de 1977, a RTP Memória providencia. Para quem consegue rever a entrevista de "mestre" Almada ao Zip-Zip sem cortar os pulsos, a RTP Memória transmite.
Eu prefiro os musicais. A programação geral, embora magnifica de um perverso modo, não é particularmente saudosista: excepto pelos telefones portáteis e o parque automóvel, o pais mudou menos de 1980 para cá do que às vezes se pretende. Mas nas rubricas (ai, essa palavra tão RTPiana) de música há uma tristeza pessoal e muito nossa, a que não sou capaz de resistir. Podem ser aquelas coisas anódinas, em que um artista interpreta dez cantigas em meia hora, ou os espaços utilizados por Represas, Simone ou Paco Bandeira para apresentar as putativas revelações do meio.As revelações são invariavelmente jovens, vazios de talento e repletos de ambição. Vão levar o álbum para a estrada, vencer no mercado internacional, chegar longe. E depois uma pessoa olha o canto superior do televisor, lê "1988" e percebe que eles não levaram, não venceram, não chegaram. Hoje são bancários, que graças à RTP Memória revêem as ilusões no sofá, e provavelmente choram. E eu, um senti­mental, só não choro com eles porque os programas em causa me dão uma vontade danada de rir

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 24 de Junho de 2005

terça-feira, junho 21, 2005

 

Um país a preto e branco

No 10 de Junho, 500 (ou 200? Ou 40?) moços, ao que consta de ascendência cabo-verdiana, juntaram-se na praia de Carcavelos e varreram a dita. De acordo com sociólogos e afins, isto constituiu um sinal de revolta, e uma afirmação “étnica” e “cultural”. Para os banhistas, foi um roubo, e um rebuliço desgraçado. Em consequência, no sábado, 400 (ou 200? Somos terríveis nas contas, não admira o défice) rapazes encontraram-se no Martim Moniz para se declararem “brancos”, reclamarem da criminalidade e, não fosse a polícia, cometerem ligeiros crimes.

Eu agradeço aos céus por residir a muitos quilómetros de ambos os lugares. Não gosto de manifestações, protestos colectivos, “arrastões” ou ajuntamentos de qualquer espécie. Toda a actividade que necessita de ser realizada em bando revela a cretinice inata de cada um dos intervenientes, e aconselha distância às pessoas civilizadas.

O que não impede a questão: os pretos “revoltados” e os brancos “nacionalistas” não têm onde passar os feriados e os fins-de-semana? O ministério da Educação devia providenciar a esta gente um regime de ocupação dos tempos livres. Em simultâneo, daria uso à classe docente, que a julgar pelas revoltas em que também gasta os seus dias, anda excessivamente ociosa.

Mas, caso não sejam absolutamente analfabetos, o ideal seria os agitadores de Carcavelos e do Martim Moniz ficarem sossegados em casa, a ler um bom livro. Talvez aprendessem que a cor da pele é acidente, não motivo de orgulho. E quanto à afirmação “cultural”, não só duvido que se obtenha pela desordem pública, como convém lembrar que nem Cabo Verde nem Portugal possuem um património tão magnífico que apeteça sair à rua a celebrá-lo. As mornas e o fado não justificam tamanha vaidade.

Folclore à parte, é certo que existe um problema. Pior: existem vários, todos comuns às metrópoles ocidentais. O crescimento urbano. A imigração. Os guetos. O crime. A percepção do crime. O racismo. Aborrecido por estes azares, o dr. Sampaio condena “a xenofobia, o ostracismo e a demagogia mediática” e pede respeito pela lei. Palavras justas, tempo perdido. Perdoem a banalidade, mas não podemos desejar os benefícios do progresso sem pagar os respectivos custos. Quer dizer, poder podemos. Suspeito é que não adianta nada.

Por desfastio, nomeiam-se comissões, elaboram-se leis, apoiam-se “associações” e, se a ocasião permite, acontece o proverbial discurso regenerador. Entretenimento puro: enquanto se procura a solução do problema, esquece-se que há problemas sem solução. No máximo, há a polícia. Quando a polícia não se encontra revoltada.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 20 de Junho de 2005

sábado, junho 18, 2005

 

Homem-a-dias: 17 de Junho

Enquanto jovens negros resolvem o problema da limpeza das praias, o país pasma com a sensatez do jovem Dinis Maria e despede-se, com três décadas de atraso, dos dois "heróis" do PREC.

DIA 11, SÁBADO
Após o "arrastão" de ontem, que lhes deu uma excelente alternativa às comendas do dr. Sampaio, as televisões voltaram hoje a Cascais, para inquirirem os populares. Sentado numa esplanada, um popular sentenciou: "Ou (os pretos) se comportam, ou têm de voltar para a terra deles." Não percebi. Segundo todas as notícias, eles voltaram logo para a Amadora, E de comboio, ao que sei.

DIA 12, DOMINGO
Alguns despeitados da imprensa enxovalharam o dr. Carrilho, por cau­sa de um filme promocional da candidatura deste a Câmara de Lisboa. Para quem não sabe, o filme conta com a participação da esposa e do filho do candidato, capturados em amena conversa:
- Nós gostaríamos que o presidente da Câmara fosse o papá, não é, Dinis?
- Papá. Papá. Papá.
Tomando a resposta por um assentimento, a esposa revela a um público ávido que o jovem Dinis "tem sempre Lisboa a seus pés", um fenómeno bizarro, dado que "o Manel passeia pela cidade com o filho às costas". Depois, a esposa diz outras coisas, igualmente importantes ou, no mínimo, dignas de registo, e diversos conhecidos "do Manel" pronunciam-se acerca dele, curiosamente de modo favorável.
Certo é que os profissionais da inveja ficaram irritados e irritaram dois pacientes compinchas do candidato, Daniel Sampaio e Eduardo Prado Coelho. Este ultimo, prontamente, explica o rancor: a semelhança dos grandes homens, presume-se que inclua Hitler e aquele sr, Malato, o dr. Carri­lho "suscita grandes paixões. Ou se ama, ou se odeia." Toldado pela objectividade, o dr. Prado Coelho recusa a tese da "instrumentalização da família" e mantém que Carrilho continua em "melhores condições" para conseguir a eleição, graças ao "lado imaginativo das medidas avançadas" e respectiva "pertinência, ornamentação e exequibilidade".
É bem possível. Por palavras diferentes, estas em português de gente, a sra. Carri­lho também garante que o marido tem "carisma" e tem "ideias" ("boas" e "simples"). Tem, igualmente, um herdeiro a altura na pessoa do Dinis, que possui o "sorriso do pai, cumprimenta as pessoas, é muito simpático". Não tarda, anda por aí a suscitar grandes paixões.
O que nos leva ao ponto da questão. Como o dr. Carrilho recentemente descobriu, "Lisboa é a capital, temos que assumir o desígnio da capitalidade". E, se calhar, o "desígnio da capitalidade" não se contenta com um reles presidente da Câmara: exige toda uma dinastia. Enquanto não chega o seu tempo de assumir desígnios e de percorrer mercados, exibindo o sorriso, cumprimentando transeuntes e espalhando simpatia, o pequeno Dinis concorda sem restrições: "Papá. Papá, Papá." Até na simplicidade das ideias sai ao pai. João Soares, outro rebento célebre, não diria melhor.

DIA 14, TERÇA-FEIRA
Eu era criança, e lembro-me. Ao contrario do que era então habitual, a revolução de 1974 não transformou a minha família num bastião de velhos anti-fascistas, dos que evocavam por tudo e por nada um passado de luta e abnegação ante um regime hostil. Regra geral, o salazarismo não lhes fora agradável ou simpático. Permitiu-lhes, porém, levar as vidas da melhor maneira que puderam, e isso, para quem cresceu habituado as pequeníssimas glórias da classe media urbana, com razoável ascensão social pelo meio, era quase suficiente. Ainda assim, lembro-me do meu pai, por acaso amigo de Otelo, festejar o 25 de Abril de braços no ar, aos gritos de "liberdade". Uns dias passados, o meu pai assinalou o regresso de Álvaro Cunhal com gritos em sentido diverso. Em Julho, a partir do II Governo Provisório, liderado por um tal Vasco Gonçalves, a gritaria deu lugar ao murmúrio angustiado. Durante o "verão quente" de 1975, os meus pais e avos juntavam-se ao serão e comentavam os desenvolvimentos da situação, quer em Lisboa, quer nos respectivos empregos. O tom dos comentários não podia ser mais sombrio.
Certa ocasião, o nome do meu pai apareceu pintado numa parede de Matosinhos, acrescido de epítetos diversos, dos quais o menos ofensivo era "capitalista". Essa era uma pratica comum à época, com o fim elevado de denunciar à comunidade os inimigos do povo. À época, não se estranhava que um engenheiro técnico, assalariado de uma empresa pública e cujo solitário bem declarável era um automóvel pelintra, fosse "capitalista". A designação possuía carácter vago, e genericamente cobria todos os que, nos plenários ou na rua (era difícil distinguir), não se empenhavam na construção instantânea do socialismo.Desde esse episódio, percebi que alguma coisa tinha mudado decisivamente. Se possível, para pior. O meu léxico foi enriquecido com a palavra saneamento, uma das duas que entraram com fulgurante insistência nas conversas familiares. A outra palavra era Brasil. Entre tropelias várias, ambas só caíram em desuso meses depois, quando um desconhecido militar chamado Eanes retirou o medo lá de casa, retirando o país a Álvaro Cunhal e a Vasco Gon­çalves. Agora, com escassas horas de diferença, ambos partiram definitivamente e o pais político chora absurdas lágrimas. Mas para minha sorte, e para sorte de milhões de Portugueses, já ambos tinham partido há trinta anos. E não deixaram saudades.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 17 de Junho de 2005

terça-feira, junho 14, 2005

 

Elogios fúnebres

Com ou sem luto nacional, nas mortes de Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal a ladainha foi praticamente unânime e deliciosamente grotesca. Pelos vistos, ambos contribuíram imenso (”à sua maneira”) para o País. Ambos (pese as “naturais divergências políticas”) partem cobradores da nossa gratidão. Sobretudo, ambos eram pessoas de firmes “convicções” e inabalável “coerência”. Sem dúvida. Os falecidos deixam-nos sempre legados assim fascinantes. E, dada a solenidade da hora, convém respeitá-los.

Infelizmente, não estou para aí virado. Desde logo, e por muito que me esforce, não consigo encontrar a coerência do Companheiro Vasco, que serviu fielmente uma ditadura de direita e depois fez tudo para implantar uma barbárie de esquerda. Também me custa perceber de que modo a convicção, no sentido cego que lhe atribuiu Cunhal, não é a mais repugnante das virtudes.

Já sobre o contributo destes dois vultos para o País, guardo de facto uma vaga ideia. No tempo de acção e na influência, não se pode compará-los. Ainda assim, e se não me engano, um e outro contribuíram com inegável empenho para que isto se transformasse numa Cuba, ou numa Albânia (aqui, as opiniões dividiam-se), mas com certeza num altar de devoção aos prodígios do totalitarismo soviético. Se alguma coisa lhes devemos, é o fracasso dos seus intentos. E, a menos que sejamos comunistas, malucos ou masoquistas, é a alegria desse fracasso que devemos agora evocar.

Claro que “alegria” não significa abrir garrafas de champanhe, como a queda de um determinado avião em Camarate abriu. Ou sequer esboçar o proverbial sorriso de troça quando se evoca a queda, mais subtil e igualmente decisiva, de uma particular cadeira. Trata-se apenas de reconhecer que, mesmo com défice, atraso, corrupção e a geral pelintrice pátria, habitamos um mundo incomparavelmente melhor do que o previsto pelas convicções e pela coerência dos senhores do PREC. Volto atrás e retiro “alegria”: talvez a palavra correcta seja “alívio”.

De resto, as minhas sinceras condolências às famílias, caso as aceitem. Até por uma questão de basilar humanidade, o respeito que sentimos por Álvaro Cunhal e Vasco Gonçalves no momento das respectivas mortes é certamente maior que a consideração deles pelo assassínio de milhões, que a coberto do dogma ignoraram, ou legitimaram, ou, se formos justos, defenderam. Mas do mero respeito à homenagem vai um passo enorme, a enormidade que é ver uma democracia homenagear os seus principais inimigos.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 14 de Junho de 2005

quinta-feira, junho 09, 2005

 

Homem-a-dias: 9 de Junho

Era bom que os Portugueses ajudassem o eng. Sócrates a cumprir ao menos uma promessa. Era bom que os Portugueses pudessem comprar livros sem serem notícia. Nabokov é bom sinal.

DIA 5, DOMINGO
Os impostos sobem. A despesa do Estado ameaça o habitual desatino. O choque tecnológico esvaiu-se. O défice deixou de ser uma "questão ideológica" (sic) e transformou-se numa inesperada calamidade. 0 reformismo socrático fica um nadinha acanhado face as amplas reformas dos seus ministros. E o fim das pensões vitalícias dos políticos revelou-se apressado. São as famosas "excepções", que o Governo vai abrindo para deixar entrar o mundo real. De excepção em excepção, todas as promessas do eng. Sócrates falecem a uma rapidez curiosa em tão jovem líder. Menos uma.
Quando o eng. Socrates jurou dar trabalho a 150 mil criaturas, os cínicos tomaram a garantia por uma alucinação, fenómeno frequente em campanha. E riram-se. Ago­ra, que o Governo se aproxima dos três meses em funções e que o número de socialistas e afins designados para cargos públicos se aproxima dos 900, os cínicos riem com menor vigor. Como dizia em tempos o actual alto comissário Não Sei Bem Do Quê, é só fazer as contas. 900 nomeações em 90 dias, grosso modo, significam dez empregos diários. Considerando que o PS tem um mandato previsto de 1461 dias, a legislatura terminara com 14.610 cidadãos satisfeitos. Ou seja, um decimo da promes­sa inicial. É um esforço louvável. Mas não suficiente.
Para alcançar os 150 mil, número magico, há duas saídas. Uma exige que o Gover­no comece imediatamente a nomear 100 ociosos partidários por dia, o que talvez implicasse problemas logísticos. A outra obriga o eng. Sócrates a permanecer no poder durante 10 mandatos. Bem sei que o primeiro-ministro, do alto do seu altruísmo, se propôs limitar o exercício do cargo a 12 anos. Mas quem abriu tantas excepções não se negara ao sacrifício. E o eleitorado que o escolheu, em respeito pela própria capacidade de julgamento, de certo gostara de ver uma promessa cumprida. É pois altura de as pessoas se empregarem a fundo na eleição sucessiva e quase vitalícia do eng. Sócrates. Até porque, se não se em­pregarem nisso, e não forem próximas do PS, a prazo não se empregarão em mais lado nenhum.

DIA 6, SEGUNDA-FEIRA
Regresso à Feira do Livro (do Porto), após dois ou três anos de ausência. Nenhuma surpresa: algum público, dezenas de quiosques das editoras e, naturalmente, livros, uns bons, outros atrozes e uma maioria silenciosa de irrelevâncias. De resto, como em todas as coisas. O que nem todas as coisas parecem justificar é o circo que as feiras do livro regularmente atraem. Em cada edição das ditas, jornais, rádios e televisões empurram solícitos repórteres para o Eduardo VII e o Palácio de Cristal, a fim de cobrir o acontecimento: ali, atenção, anda gente que se prepara para adquirir livros.
Em países normais, as pessoas compram livros com o mesmo despreocupado prazer com que compram sapatos. E depois lêem os primeiros e calçam os segundos: ambos fazem parte da vida corrente, à semelhança do café com torradas e da mobília da sala. Em Portugal, o exercício é noticia, e envolve uma solenidade peculiar. Antes de mais, não há livros, assim no corriqueiro plural. As feiras são "do Livro". A tutela do "sector" está a cargo do Instituto "do Livro". E note--se que não falamos da Bíblia: certa vez, num telejornal, Adriano Moreira referia as "três religiões do Livro", para a apresentadora interromper logo, intrigada: "Qual livro, senhor professor?"
O tom eucarístico com que rodeamos "o Livro" praticamente nos impede de o ler.
Alias, "ler" é dos verbos que menos utilizamos para acompanhar um livro, perdão, Livro. O Livro devora-se, folheia-se, cheira-se, contempla-se. Lê-lo é uma maçada e, com franqueza, pode ate constituir blasfémia. Aos Portugueses, toldados por séculos de analfabetismo e décadas de iniciativas governamentais, o Livro surge como uma entidade una e divina, cuja intrínseca superioridade é venerada à distancia. É a forma, e não o conteúdo, que interessa. É indiferente tratar-se do Quixote ou do Mein Kampf, do Processo ou do Coisas Doces Sem Açúcar: todos os livros são dignos justamente por serem livros.
Típico terceiro mundo? Há pior. Na inevitável Franca, decorre uma pequena polémica sobre a venda de livros, CD e DVD jun­to com os jornais, a baixo preço. Ao que consta, a moda desvaloriza económica e psicologicamente (?) os "produtos culturais", que se querem sagrados e longínquos. Na cabeça dos franceses, há muito psicologicamente desvalorizada, "cultura" não é apenas tudo o que esta impresso em paginas encadernadas, mas também o que se enfia num disco digital. Acho óptimo. Mas qual disco, senhor professor?

DIA 7, TERÇA-FEIRA
A propósito do Livro, sugiro um: Opiniões Fortes. A edição, recentíssima, é da Assírio & Alvim, e reúne 22 entrevistas feitas a Vladimir Nabokov e 14 ensaios do próprio. Apesar das confissões, mais ou menos biográficas ou encenadas, o melhor da obra são precisamente as opiniões, nas quais o autor de Lolita arrasa com deleite as piscinas, a musica de fundo, o comunismo e dois terços do moderno cânone literário, incluindo Eliot, Hemingway, Faulkner, Conrad e Mann. Escusado será dizer que podemos, e devemos, discordar. O facto é que Nabokov, repito, é o autor de lolita. E nós não.

Alberto Gonçalves – Revista Sábado, 9 de Junho de 2005

terça-feira, junho 07, 2005

 

Uma era de tolerância

As reacções da opinião publicada ao circo político movem-se por critérios peculiares. E, às vezes, surpreendentes. Para nos limitarmos à última semana, espantou, por exemplo, que a proposta do CDS para a criação do ‘Dia Mundial da Criança Por Nascer’ fosse recebida por uma discrição quase absoluta. No máximo, podemos presumir os motivos do silêncio: por um lado, entre dias internacionais da Biodiversidade, da Diabetes, do Trabalhador, do Teatro e do Meu Primo Lucas, começa a ser complicado arranjar datas disponíveis, embora esteja convencido de que uma inciativa do Bloco de Esquerda em dedicar um dia qualquer à luta das abortadeiras clandestinas encontrasse espaço e franco aplauso. Por outro lado, o CDS é, ao contrário da referida criança, um partido em Vias de Não o Ser, o que retira algum impacto aos seus murmúrios.

Mas já foi totalmente apropriado que a conferência do dr. Campos e Cunha tenha merecido uma aprovação respeitosa e, em certos casos, entusiasmada. Sumário: no sábado, o senhor ministro das Finanças convocou os jornalistas para esclarecer as notícias que o davam a acumular a reforma do Banco de Portugal com o salário de governante. Em minutos, sem direito a perguntas adicionais, o dr. Campos e Cunha confirmou a acumulação (que toda a gente já conhecia) e reafirmou a estrita legalidade da mesma (o que também não foi novidade). De brinde, justificou a “moralidade” subjacente (afinal, o único ponto em questão) com um argumento esmagador: ele e a esposa serão igualmente afectados pelas alterações em curso.

Eis um choque. No fundo, ninguém esperava que o dr. Campos e Cunha se submetesse, mais a sua pobre família, às restrições que vem exigindo ao cidadão comum. O que corria por aí é que os decretos-leis passariam a conter um artigo que isentava os membros do Executivo (e aparentados) do respectivo cumprimento. Vale que o altruísmo venceu, e que a maioria dos comentadores, mediante leal apoio, soube reconhecê-lo na pessoa do ministro das Finanças, um santo que apenas a costumeira inveja nacional ousaria pôr em causa. A exacta inveja que impediu o povo de sair à rua em festa, celebrando a sorte de Governo tão generoso.

Claro que, na TVI, Constança Cunha e Sá lembrou os velhos tempos de Santana, quando declarações como a do ministro das Finanças teriam posto a Imprensa em galhofa durante semanas, até as barrigas se queixarem de dor. Eu lembro à dra. Constança que, nessa época sinistra, os remédios para uso gástrico só se encontravam em farmácias. E lembro aos leitores que, felizmente, a dra. Constança não representa a classe hoje ordeira e dócil do nosso comentário político.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 7 de Junho de 2005

sábado, junho 04, 2005

 

Homem-a-dias - 3 de Junho

Quando entregamos a nossa saúde à Comissão Europeia, o destino da Europa à França e a solução da pobreza ao sr. Bob Geldof, sabemos que este mundo está perdido. E outro mundo e impossível.

DIA 27, SEXTA-FEIRA
A Comissão Europeia (CE) apresen­tou 42 fotografias para enfeitar os maços de tabaco nos países da União. O divertido portefólio, que visa retratar as opções dos fumadores, inclui um tumor na garganta, um pulmão destruído e uma boca em decomposição. Dado que os anteriores textos preventivos se torna­ram irrelevantes graças ao analfabetismo da populaça, eu acho muito pedagógico que a CE esclareça visualmente a popula­ça sobre dois factos que a populaça teima em ignorar: 1) o tabaco faz mal; 2) as pes­soas adoecem. Parece-me é que este cari­nho, de tão sincero, não pode limitar-se aos cigarros e afins: estou convencido de que os senhores da CE se preparam para cobrir os automóveis com imagens de aci­dentados e os cidadãos que rejeitarem a Constituição de vergonha.
Por cá, ainda não se sabe quando é que os tumores ilustrarão os produtos da Ta­baqueira. No nosso particular caso, seria simpático que, além de indicar aos fuma­dores as possíveis consequências dos seus hábitos, o Governo também lhes mostras­se o verdadeiro destino dos respectivos impostos, os quais deveriam financiar um sistema de saúde e não a anedota que te­mos. O pormenor talvez não mudasse os hábitos dos fumadores mas, mal por mal, convenceria muitos a mudar de país.

DIA 29, DOMINGO
Assim à primeira vista, desconfio que os defensores do "Sim" exageraram um bocadinho. Afinal, passaram-se algumas horas desde que os franceses recusaram o Tratado Constitucional Euro­peu e não há sinais do Apocalipse. Pelo menos a parcela da Europa perceptível aqui da minha varanda não sofreu abalos. Pre­sumo que o cenário seja pior de outras varandas: na televisão, sucedem-se estadistas em tom sombrio, a pedir calma ou a pedir pânico.
É caso para tanto? Por dever profissional, achei que devia ler o Tratado, Ao fim de 70 páginas (aí pelo Artigo I-53-°), sentia-me disposto a abandonar a profissão. Nin­guém, excepto os sujeitos que conceberam o texto e o ocasional pervertido, consegue suportar aquilo. Sucede que, em França, o conteúdo do Tratado até teve pouquíssi­mo a ver com o respectivo debate. E dizer "debate" é uma liberdade poética. É verda­de que o "Não" agrupou os fascistas dos dois lados e o "Sim" a vulgar bazófia nacio­nalista. Mas os principais motivos de am­bas as partes, basicamente o ódio ao liberalismo e aos EUA, são velhos, idênticos e não se recomendam. C’est la France, que da guilhotina a Vichy, de De Gaulle a Le Pen não cessa de se humilhar e de nos cansar. Isto merece o nosso cuidado? Não merece. Agora que a França rejeitou a Europa, não haverá maneira de a Europa rejeitar a Fran­ça? Para quando o referendo?

DIA 31, TERÇA-FEIRA
A cruzada antiglobalização ganhou novo fôlego. Habitualmente, cada cimeira do G8 atraía a peregrina­ção de milhares de pelintras, que em nome dos excluídos torravam fortunas em via­gens, lenços palestinianos e bombas artesanais. A fim de desafiar os poderosos da Terra, os pelintras bloqueavam estradas, pilhavam a cidade anfitriã, reviravam uns carros e deixavam um rastro de pandemónio geral. Com sorte, um vadio levava dois tiros da polícia e a causa ganhava um már­tir. Porém, bem espremido, o "protesto" não maçava nadinha os estadistas, reuni­dos a uma distância segura das arruaças e do odor dos "activistas".
Deve ter sido por isso que os "activis­tas" alteraram a estratégia. Conforme
anunciou hoje com a pompa dos dema­gogos, o sr. Bob Geldof está a organizar uma série de concertos coincidentes com o próximo encontro do G8, em Julho na Escócia. Recentemente, o sr. Geldof foi notícia por promover a venda de umas pulseiras contra a pobreza (é remédio san­to), e sobretudo pela descoberta de que as ditas pulseiras são produzidas na China, em regime de semiescravatura. Se tiver­mos a imprudência de escavar na memó­ria, lembrar-nos-emos de que o sr. Gel­dof é aquela criatura que há 20 anos con­cebeu o Live Aid, a maratona musical que pretendia acabar com a fome em África. Na altura, a fome em África continuou intac­ta, já que o dinheiro angariado foi devida­mente investido nos exércitos locais e em despesas de representação de ditadores avulsos. Mas, depois do Live Aid, a maio­ria dos "artistas" presentes passou certa­mente a comer muito melhor. E inúme­ros espectadores desprevenidos, entre os quais eu próprio, perderam o apetite du­rante dias.Não era para menos: do público consu­midor aos "artistas", o Live Aid original condensou o que o Ocidente possui de mais ordinário em matéria de arrogância, boçalidade, manha publicitária, incapaci­dade critica e total ausência de talento. O Live Aid versão 2005, denominado Live 8 (notável a alusão à cimeira), promete re­petir a dose, e não duvido que o sr. Geldof seja menino para a agravar. Por enquan­to, os beneméritos confirmados incluem Sting (o redentor da Amazónia), Madon-na, Eminem, Elton John e Mariah Carey (a que afirmou invejar a elegância dos re­fugiados etíopes). E, claro,os fatídicos U2. U2 contra G8, portanto. A táctica é sim­ples: ou os países ricos ajudam os pobre­zinhos ou eles cantam. Os ricos que se pre­parem: se o capitalismo dito selvagem não recuar perante tamanha selvajaria, não vejo o que o possa segurar.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 3 de Junho de 2005

quarta-feira, junho 01, 2005

 

O monstro continua à solta

Coitado do dr. Marques Mendes: os esforços para livrar o PSD de alguns embaraços autárquicos valeram-lhe o rosnar das ‘bases’ e zero agradecimentos. Já o eng. Sócrates, condena os socialistas que espatifaram a Câmara do Porto a salários absurdos e ninguém pia. Fernando Gomes ruma ao petróleo, pensou-se em Nuno Cardoso para as águas e não deve espantar que Narciso Miranda seja agraciado com qualquer outro recurso mineral. Provavelmente, o celebrado ‘estilo’ de Sócrates passa pela impunidade ou pela completa ausência de vergonha, e não é muito original.

O país político, porém, continua a fingir que sim. Durante o ‘estado de graça’, ao olho destreinado facilmente confundível com a apatia ou a sabujice, cada decisão do primeiro-ministro é analisada à luz da sua infinita singularidade e virtude. Sócrates escolhe o Governo em segredo? O homem é sensato. Sócrates vende aspirinas no ‘Jumbo’? O homem é bondoso. Sócrates jura que os impostos não subirão? O homem é coerente. Sócrates aumenta os impostos? O homem é corajoso.

Perdoem a impertinência: vai sendo tempo de reparar que Sócrates, perfeito exemplar do político ‘moderno’, foi como tal uma invenção do marketing, destinada a distinguir o produto em causa do produto anterior, chamado Santana. Onde Santana nos metralhava com rajadas de comunicados e contra-comunicados, de metáforas e desabafos sentimentais, Sócrates faz o boneco do sujeito distante, reflexivo, que decide de acordo com princípios rigorosos e verdades absolutas.

Por manifesto azar, o exercício exige um alheamento da realidade impossível de manter por mais que umas semanas. Aos poucos, a realidade irrompe e a frieza desliza fatalmente para o alvoroço e o descaramento. Nunca falha. Regra geral, a transição coincide com o início da caça ao ‘pai’ do défice, vulgo ‘monstro’. Este apreciado ritual decorre sempre que a miséria das contas públicas é revelada ao povo, momento aproveitado pelos diversos governos para imputarem aos anteriores a culpa pela mediocridade seguinte. No processo, a paternidade do ‘monstro’ torna-se difícil de determinar. Para Sócrates, o pai é Barroso. Para Barroso, o pai era Guterres. Para Guterres (e Cadilhe), o pai foi Cavaco. E por aí fora, até chegarmos à generosidade que o PREC espalhou pela Função Pública e suspeitarmos (cruz, credo) que Abril teve algumas desvantagens.

Curioso é que, enquanto se busca alegremente o pai do ‘monstro’, continua a não haver quem procure seriamente abater o ‘monstro’. Também nisso o ‘estilo’ de Sócrates é de uma banalidade aflitiva.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 31 de Maio de 2005

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