Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

terça-feira, junho 14, 2005

 

Elogios fúnebres

Com ou sem luto nacional, nas mortes de Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal a ladainha foi praticamente unânime e deliciosamente grotesca. Pelos vistos, ambos contribuíram imenso (”à sua maneira”) para o País. Ambos (pese as “naturais divergências políticas”) partem cobradores da nossa gratidão. Sobretudo, ambos eram pessoas de firmes “convicções” e inabalável “coerência”. Sem dúvida. Os falecidos deixam-nos sempre legados assim fascinantes. E, dada a solenidade da hora, convém respeitá-los.

Infelizmente, não estou para aí virado. Desde logo, e por muito que me esforce, não consigo encontrar a coerência do Companheiro Vasco, que serviu fielmente uma ditadura de direita e depois fez tudo para implantar uma barbárie de esquerda. Também me custa perceber de que modo a convicção, no sentido cego que lhe atribuiu Cunhal, não é a mais repugnante das virtudes.

Já sobre o contributo destes dois vultos para o País, guardo de facto uma vaga ideia. No tempo de acção e na influência, não se pode compará-los. Ainda assim, e se não me engano, um e outro contribuíram com inegável empenho para que isto se transformasse numa Cuba, ou numa Albânia (aqui, as opiniões dividiam-se), mas com certeza num altar de devoção aos prodígios do totalitarismo soviético. Se alguma coisa lhes devemos, é o fracasso dos seus intentos. E, a menos que sejamos comunistas, malucos ou masoquistas, é a alegria desse fracasso que devemos agora evocar.

Claro que “alegria” não significa abrir garrafas de champanhe, como a queda de um determinado avião em Camarate abriu. Ou sequer esboçar o proverbial sorriso de troça quando se evoca a queda, mais subtil e igualmente decisiva, de uma particular cadeira. Trata-se apenas de reconhecer que, mesmo com défice, atraso, corrupção e a geral pelintrice pátria, habitamos um mundo incomparavelmente melhor do que o previsto pelas convicções e pela coerência dos senhores do PREC. Volto atrás e retiro “alegria”: talvez a palavra correcta seja “alívio”.

De resto, as minhas sinceras condolências às famílias, caso as aceitem. Até por uma questão de basilar humanidade, o respeito que sentimos por Álvaro Cunhal e Vasco Gonçalves no momento das respectivas mortes é certamente maior que a consideração deles pelo assassínio de milhões, que a coberto do dogma ignoraram, ou legitimaram, ou, se formos justos, defenderam. Mas do mero respeito à homenagem vai um passo enorme, a enormidade que é ver uma democracia homenagear os seus principais inimigos.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 14 de Junho de 2005



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