Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

sábado, junho 18, 2005

 

Homem-a-dias: 17 de Junho

Enquanto jovens negros resolvem o problema da limpeza das praias, o país pasma com a sensatez do jovem Dinis Maria e despede-se, com três décadas de atraso, dos dois "heróis" do PREC.

DIA 11, SÁBADO
Após o "arrastão" de ontem, que lhes deu uma excelente alternativa às comendas do dr. Sampaio, as televisões voltaram hoje a Cascais, para inquirirem os populares. Sentado numa esplanada, um popular sentenciou: "Ou (os pretos) se comportam, ou têm de voltar para a terra deles." Não percebi. Segundo todas as notícias, eles voltaram logo para a Amadora, E de comboio, ao que sei.

DIA 12, DOMINGO
Alguns despeitados da imprensa enxovalharam o dr. Carrilho, por cau­sa de um filme promocional da candidatura deste a Câmara de Lisboa. Para quem não sabe, o filme conta com a participação da esposa e do filho do candidato, capturados em amena conversa:
- Nós gostaríamos que o presidente da Câmara fosse o papá, não é, Dinis?
- Papá. Papá. Papá.
Tomando a resposta por um assentimento, a esposa revela a um público ávido que o jovem Dinis "tem sempre Lisboa a seus pés", um fenómeno bizarro, dado que "o Manel passeia pela cidade com o filho às costas". Depois, a esposa diz outras coisas, igualmente importantes ou, no mínimo, dignas de registo, e diversos conhecidos "do Manel" pronunciam-se acerca dele, curiosamente de modo favorável.
Certo é que os profissionais da inveja ficaram irritados e irritaram dois pacientes compinchas do candidato, Daniel Sampaio e Eduardo Prado Coelho. Este ultimo, prontamente, explica o rancor: a semelhança dos grandes homens, presume-se que inclua Hitler e aquele sr, Malato, o dr. Carri­lho "suscita grandes paixões. Ou se ama, ou se odeia." Toldado pela objectividade, o dr. Prado Coelho recusa a tese da "instrumentalização da família" e mantém que Carrilho continua em "melhores condições" para conseguir a eleição, graças ao "lado imaginativo das medidas avançadas" e respectiva "pertinência, ornamentação e exequibilidade".
É bem possível. Por palavras diferentes, estas em português de gente, a sra. Carri­lho também garante que o marido tem "carisma" e tem "ideias" ("boas" e "simples"). Tem, igualmente, um herdeiro a altura na pessoa do Dinis, que possui o "sorriso do pai, cumprimenta as pessoas, é muito simpático". Não tarda, anda por aí a suscitar grandes paixões.
O que nos leva ao ponto da questão. Como o dr. Carrilho recentemente descobriu, "Lisboa é a capital, temos que assumir o desígnio da capitalidade". E, se calhar, o "desígnio da capitalidade" não se contenta com um reles presidente da Câmara: exige toda uma dinastia. Enquanto não chega o seu tempo de assumir desígnios e de percorrer mercados, exibindo o sorriso, cumprimentando transeuntes e espalhando simpatia, o pequeno Dinis concorda sem restrições: "Papá. Papá, Papá." Até na simplicidade das ideias sai ao pai. João Soares, outro rebento célebre, não diria melhor.

DIA 14, TERÇA-FEIRA
Eu era criança, e lembro-me. Ao contrario do que era então habitual, a revolução de 1974 não transformou a minha família num bastião de velhos anti-fascistas, dos que evocavam por tudo e por nada um passado de luta e abnegação ante um regime hostil. Regra geral, o salazarismo não lhes fora agradável ou simpático. Permitiu-lhes, porém, levar as vidas da melhor maneira que puderam, e isso, para quem cresceu habituado as pequeníssimas glórias da classe media urbana, com razoável ascensão social pelo meio, era quase suficiente. Ainda assim, lembro-me do meu pai, por acaso amigo de Otelo, festejar o 25 de Abril de braços no ar, aos gritos de "liberdade". Uns dias passados, o meu pai assinalou o regresso de Álvaro Cunhal com gritos em sentido diverso. Em Julho, a partir do II Governo Provisório, liderado por um tal Vasco Gonçalves, a gritaria deu lugar ao murmúrio angustiado. Durante o "verão quente" de 1975, os meus pais e avos juntavam-se ao serão e comentavam os desenvolvimentos da situação, quer em Lisboa, quer nos respectivos empregos. O tom dos comentários não podia ser mais sombrio.
Certa ocasião, o nome do meu pai apareceu pintado numa parede de Matosinhos, acrescido de epítetos diversos, dos quais o menos ofensivo era "capitalista". Essa era uma pratica comum à época, com o fim elevado de denunciar à comunidade os inimigos do povo. À época, não se estranhava que um engenheiro técnico, assalariado de uma empresa pública e cujo solitário bem declarável era um automóvel pelintra, fosse "capitalista". A designação possuía carácter vago, e genericamente cobria todos os que, nos plenários ou na rua (era difícil distinguir), não se empenhavam na construção instantânea do socialismo.Desde esse episódio, percebi que alguma coisa tinha mudado decisivamente. Se possível, para pior. O meu léxico foi enriquecido com a palavra saneamento, uma das duas que entraram com fulgurante insistência nas conversas familiares. A outra palavra era Brasil. Entre tropelias várias, ambas só caíram em desuso meses depois, quando um desconhecido militar chamado Eanes retirou o medo lá de casa, retirando o país a Álvaro Cunhal e a Vasco Gon­çalves. Agora, com escassas horas de diferença, ambos partiram definitivamente e o pais político chora absurdas lágrimas. Mas para minha sorte, e para sorte de milhões de Portugueses, já ambos tinham partido há trinta anos. E não deixaram saudades.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 17 de Junho de 2005



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