Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

sexta-feira, junho 24, 2005

 

Homem-a-dias: 24 de Junho

O dr. Carrilho ameaça não abandonar esta coluna. A classe docente ameaça não abandonar o estado de greve. E os meus amigos ameaçam abandonar-me, se eu insistir na RTP Memória

DIA 18, SÁBADO
Ainda a propósito do famoso vídeo, prossegue a saga da família Carrilho contra o mundo. Em entrevis­ta ao Expresso, e decerto apetrechado com diagnósticos clínicos comprovativos, o dr. Carrilho declara os jornalistas débeis mentais. Que jornalistas? Todos ? Uma selecção aleatória? Os que não gostam do dr. Carrilho? Um medico meu conhecido, entretanto irradiado pela Ordem, acha que não gostar do dr. Carrilho é sintoma de grave perturbação, susceptível de internamento.
De qualquer modo, e dado que eu próprio terei algumas fraquezas de raciocínio, não aceitei à primeira que um filosofo desta dimensão perca tempo e verbo a insultar energúmenos. Aceitei a segunda. A menos que se seja Alberto João Jardim, em Portugal ofender os profissionais da imprensa é meio caminho andado para se beneficiar de uma imprensa favorável. Um exemplo? Não custa nada. Álvaro Cunhal abjurou durante décadas a liberdade dos media, apavorado com a circulação de opiniões distintas das vinculadas no Avante! ou no Pravda. Em troca, salvo ligeiras excepções, os media trataram-no sempre com imaculado respeito. E, na sua morte, certos locutores de telejornais vestiram gravata preta e ameaços de choro.
Se o dr. Carrilho não se ficar pelos distúrbios do foro psiquiátrico e alargar as injurias a outros âmbitos (sugestões: os jornalistas cheiram mal da boca; os jorna­listas têm mulheres feias; os jornalistas não possuem 38.760 caracteres de ideias para Lisboa), é quase garantido que, como se diz no jargão da bola, será levado ao colo até às autárquicas, que o nosso herói garante ir "ganhar folgadamente". Até por­que o seu adversário e sonso, no sentido que Michel Foucault deu à expressão, presume-se.
Só falta o povo aprender a distinguir o sonso do sábio e votar em massa neste ul­timo. O dr. Carrilho pode tentar insultar o povo a ver se resulta (o famoso vídeo já ofende bastante; a entrevista ofende mais). Mas é provável que o eleitorado não seja tão masoquista quanto a classe jornalística. Nem tão débil mental.

DIA 20, SEGUNDA-FEIRA
Para garantir os exames do 9° ano, o ministério da Educação obrigou os professores à prestação de serviços mínimos. No Fórum Mulher da TSF (não confundir com o Fórum Chinês, o Fórum Operador de Alfaia Agrícola ou o Fórum Bebé Proveta, na mesma estação), uma profissional do ramo espumava-se: "Este Governo é fascista!" Apesar das definições mais restritas constantes dos manuais de política, é sabido que o cognome fascista se aplica a qualquer badameco que nos faca sair da cama de manhã, a fim de realizar actos absurdos como, por exemplo, trabalhar. Visto que, sempre que não esta em greve, de férias ou de baixa, boa parte dos professores do ensino publico se levanta a horas impróprias, é fácil admitir que todos os governos foram, são e serão fascistas.
Que os docentes persistam em servir tão infame patrão é, para alguns, um mistério. Alternativas não faltam: podiam emigrar, descer à clandestinidade, mudar-se para o sector privado. Ao invés, eles incompreensivelmente teimam em manter o vinculo a um Estado que os maltrata.
Incompreensivelmente, virgula. A mim, ninguém me convence de que os "setôres" não querem combater por dentro, destruindo o malvado regime desde o seu âmago. Aliás, basta olhar de esguelha o panorama da Educação, e, já agora, os exa­mes do 9.° ano, para se concluir que a luta tem sido um sucesso.

DIA 21, TERÇA-FEIRA
Agora que as manifestações estão de novo em voga, temo que nem cem mil populares entusiasmados no Rossio possam agradecer devidamente à RTP Memória o serviço que presta aos cidadãos, sem distinção de classe, raça ou tara. Para quem sente um desejo súbito de varar a noite na contemplação do Boavista-Belenenses de 1992/1993, a RTP Memória ajuda. Para quem suspira por Manuela Bravo em 1982, a RTP Memória consola. Para quem falhou o telejornal de 12 de Outubro de 1977, a RTP Memória providencia. Para quem consegue rever a entrevista de "mestre" Almada ao Zip-Zip sem cortar os pulsos, a RTP Memória transmite.
Eu prefiro os musicais. A programação geral, embora magnifica de um perverso modo, não é particularmente saudosista: excepto pelos telefones portáteis e o parque automóvel, o pais mudou menos de 1980 para cá do que às vezes se pretende. Mas nas rubricas (ai, essa palavra tão RTPiana) de música há uma tristeza pessoal e muito nossa, a que não sou capaz de resistir. Podem ser aquelas coisas anódinas, em que um artista interpreta dez cantigas em meia hora, ou os espaços utilizados por Represas, Simone ou Paco Bandeira para apresentar as putativas revelações do meio.As revelações são invariavelmente jovens, vazios de talento e repletos de ambição. Vão levar o álbum para a estrada, vencer no mercado internacional, chegar longe. E depois uma pessoa olha o canto superior do televisor, lê "1988" e percebe que eles não levaram, não venceram, não chegaram. Hoje são bancários, que graças à RTP Memória revêem as ilusões no sofá, e provavelmente choram. E eu, um senti­mental, só não choro com eles porque os programas em causa me dão uma vontade danada de rir

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 24 de Junho de 2005



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