Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

sábado, junho 04, 2005

 

Homem-a-dias - 3 de Junho

Quando entregamos a nossa saúde à Comissão Europeia, o destino da Europa à França e a solução da pobreza ao sr. Bob Geldof, sabemos que este mundo está perdido. E outro mundo e impossível.

DIA 27, SEXTA-FEIRA
A Comissão Europeia (CE) apresen­tou 42 fotografias para enfeitar os maços de tabaco nos países da União. O divertido portefólio, que visa retratar as opções dos fumadores, inclui um tumor na garganta, um pulmão destruído e uma boca em decomposição. Dado que os anteriores textos preventivos se torna­ram irrelevantes graças ao analfabetismo da populaça, eu acho muito pedagógico que a CE esclareça visualmente a popula­ça sobre dois factos que a populaça teima em ignorar: 1) o tabaco faz mal; 2) as pes­soas adoecem. Parece-me é que este cari­nho, de tão sincero, não pode limitar-se aos cigarros e afins: estou convencido de que os senhores da CE se preparam para cobrir os automóveis com imagens de aci­dentados e os cidadãos que rejeitarem a Constituição de vergonha.
Por cá, ainda não se sabe quando é que os tumores ilustrarão os produtos da Ta­baqueira. No nosso particular caso, seria simpático que, além de indicar aos fuma­dores as possíveis consequências dos seus hábitos, o Governo também lhes mostras­se o verdadeiro destino dos respectivos impostos, os quais deveriam financiar um sistema de saúde e não a anedota que te­mos. O pormenor talvez não mudasse os hábitos dos fumadores mas, mal por mal, convenceria muitos a mudar de país.

DIA 29, DOMINGO
Assim à primeira vista, desconfio que os defensores do "Sim" exageraram um bocadinho. Afinal, passaram-se algumas horas desde que os franceses recusaram o Tratado Constitucional Euro­peu e não há sinais do Apocalipse. Pelo menos a parcela da Europa perceptível aqui da minha varanda não sofreu abalos. Pre­sumo que o cenário seja pior de outras varandas: na televisão, sucedem-se estadistas em tom sombrio, a pedir calma ou a pedir pânico.
É caso para tanto? Por dever profissional, achei que devia ler o Tratado, Ao fim de 70 páginas (aí pelo Artigo I-53-°), sentia-me disposto a abandonar a profissão. Nin­guém, excepto os sujeitos que conceberam o texto e o ocasional pervertido, consegue suportar aquilo. Sucede que, em França, o conteúdo do Tratado até teve pouquíssi­mo a ver com o respectivo debate. E dizer "debate" é uma liberdade poética. É verda­de que o "Não" agrupou os fascistas dos dois lados e o "Sim" a vulgar bazófia nacio­nalista. Mas os principais motivos de am­bas as partes, basicamente o ódio ao liberalismo e aos EUA, são velhos, idênticos e não se recomendam. C’est la France, que da guilhotina a Vichy, de De Gaulle a Le Pen não cessa de se humilhar e de nos cansar. Isto merece o nosso cuidado? Não merece. Agora que a França rejeitou a Europa, não haverá maneira de a Europa rejeitar a Fran­ça? Para quando o referendo?

DIA 31, TERÇA-FEIRA
A cruzada antiglobalização ganhou novo fôlego. Habitualmente, cada cimeira do G8 atraía a peregrina­ção de milhares de pelintras, que em nome dos excluídos torravam fortunas em via­gens, lenços palestinianos e bombas artesanais. A fim de desafiar os poderosos da Terra, os pelintras bloqueavam estradas, pilhavam a cidade anfitriã, reviravam uns carros e deixavam um rastro de pandemónio geral. Com sorte, um vadio levava dois tiros da polícia e a causa ganhava um már­tir. Porém, bem espremido, o "protesto" não maçava nadinha os estadistas, reuni­dos a uma distância segura das arruaças e do odor dos "activistas".
Deve ter sido por isso que os "activis­tas" alteraram a estratégia. Conforme
anunciou hoje com a pompa dos dema­gogos, o sr. Bob Geldof está a organizar uma série de concertos coincidentes com o próximo encontro do G8, em Julho na Escócia. Recentemente, o sr. Geldof foi notícia por promover a venda de umas pulseiras contra a pobreza (é remédio san­to), e sobretudo pela descoberta de que as ditas pulseiras são produzidas na China, em regime de semiescravatura. Se tiver­mos a imprudência de escavar na memó­ria, lembrar-nos-emos de que o sr. Gel­dof é aquela criatura que há 20 anos con­cebeu o Live Aid, a maratona musical que pretendia acabar com a fome em África. Na altura, a fome em África continuou intac­ta, já que o dinheiro angariado foi devida­mente investido nos exércitos locais e em despesas de representação de ditadores avulsos. Mas, depois do Live Aid, a maio­ria dos "artistas" presentes passou certa­mente a comer muito melhor. E inúme­ros espectadores desprevenidos, entre os quais eu próprio, perderam o apetite du­rante dias.Não era para menos: do público consu­midor aos "artistas", o Live Aid original condensou o que o Ocidente possui de mais ordinário em matéria de arrogância, boçalidade, manha publicitária, incapaci­dade critica e total ausência de talento. O Live Aid versão 2005, denominado Live 8 (notável a alusão à cimeira), promete re­petir a dose, e não duvido que o sr. Geldof seja menino para a agravar. Por enquan­to, os beneméritos confirmados incluem Sting (o redentor da Amazónia), Madon-na, Eminem, Elton John e Mariah Carey (a que afirmou invejar a elegância dos re­fugiados etíopes). E, claro,os fatídicos U2. U2 contra G8, portanto. A táctica é sim­ples: ou os países ricos ajudam os pobre­zinhos ou eles cantam. Os ricos que se pre­parem: se o capitalismo dito selvagem não recuar perante tamanha selvajaria, não vejo o que o possa segurar.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 3 de Junho de 2005



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