Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

quinta-feira, junho 09, 2005

 

Homem-a-dias: 9 de Junho

Era bom que os Portugueses ajudassem o eng. Sócrates a cumprir ao menos uma promessa. Era bom que os Portugueses pudessem comprar livros sem serem notícia. Nabokov é bom sinal.

DIA 5, DOMINGO
Os impostos sobem. A despesa do Estado ameaça o habitual desatino. O choque tecnológico esvaiu-se. O défice deixou de ser uma "questão ideológica" (sic) e transformou-se numa inesperada calamidade. 0 reformismo socrático fica um nadinha acanhado face as amplas reformas dos seus ministros. E o fim das pensões vitalícias dos políticos revelou-se apressado. São as famosas "excepções", que o Governo vai abrindo para deixar entrar o mundo real. De excepção em excepção, todas as promessas do eng. Sócrates falecem a uma rapidez curiosa em tão jovem líder. Menos uma.
Quando o eng. Socrates jurou dar trabalho a 150 mil criaturas, os cínicos tomaram a garantia por uma alucinação, fenómeno frequente em campanha. E riram-se. Ago­ra, que o Governo se aproxima dos três meses em funções e que o número de socialistas e afins designados para cargos públicos se aproxima dos 900, os cínicos riem com menor vigor. Como dizia em tempos o actual alto comissário Não Sei Bem Do Quê, é só fazer as contas. 900 nomeações em 90 dias, grosso modo, significam dez empregos diários. Considerando que o PS tem um mandato previsto de 1461 dias, a legislatura terminara com 14.610 cidadãos satisfeitos. Ou seja, um decimo da promes­sa inicial. É um esforço louvável. Mas não suficiente.
Para alcançar os 150 mil, número magico, há duas saídas. Uma exige que o Gover­no comece imediatamente a nomear 100 ociosos partidários por dia, o que talvez implicasse problemas logísticos. A outra obriga o eng. Sócrates a permanecer no poder durante 10 mandatos. Bem sei que o primeiro-ministro, do alto do seu altruísmo, se propôs limitar o exercício do cargo a 12 anos. Mas quem abriu tantas excepções não se negara ao sacrifício. E o eleitorado que o escolheu, em respeito pela própria capacidade de julgamento, de certo gostara de ver uma promessa cumprida. É pois altura de as pessoas se empregarem a fundo na eleição sucessiva e quase vitalícia do eng. Sócrates. Até porque, se não se em­pregarem nisso, e não forem próximas do PS, a prazo não se empregarão em mais lado nenhum.

DIA 6, SEGUNDA-FEIRA
Regresso à Feira do Livro (do Porto), após dois ou três anos de ausência. Nenhuma surpresa: algum público, dezenas de quiosques das editoras e, naturalmente, livros, uns bons, outros atrozes e uma maioria silenciosa de irrelevâncias. De resto, como em todas as coisas. O que nem todas as coisas parecem justificar é o circo que as feiras do livro regularmente atraem. Em cada edição das ditas, jornais, rádios e televisões empurram solícitos repórteres para o Eduardo VII e o Palácio de Cristal, a fim de cobrir o acontecimento: ali, atenção, anda gente que se prepara para adquirir livros.
Em países normais, as pessoas compram livros com o mesmo despreocupado prazer com que compram sapatos. E depois lêem os primeiros e calçam os segundos: ambos fazem parte da vida corrente, à semelhança do café com torradas e da mobília da sala. Em Portugal, o exercício é noticia, e envolve uma solenidade peculiar. Antes de mais, não há livros, assim no corriqueiro plural. As feiras são "do Livro". A tutela do "sector" está a cargo do Instituto "do Livro". E note--se que não falamos da Bíblia: certa vez, num telejornal, Adriano Moreira referia as "três religiões do Livro", para a apresentadora interromper logo, intrigada: "Qual livro, senhor professor?"
O tom eucarístico com que rodeamos "o Livro" praticamente nos impede de o ler.
Alias, "ler" é dos verbos que menos utilizamos para acompanhar um livro, perdão, Livro. O Livro devora-se, folheia-se, cheira-se, contempla-se. Lê-lo é uma maçada e, com franqueza, pode ate constituir blasfémia. Aos Portugueses, toldados por séculos de analfabetismo e décadas de iniciativas governamentais, o Livro surge como uma entidade una e divina, cuja intrínseca superioridade é venerada à distancia. É a forma, e não o conteúdo, que interessa. É indiferente tratar-se do Quixote ou do Mein Kampf, do Processo ou do Coisas Doces Sem Açúcar: todos os livros são dignos justamente por serem livros.
Típico terceiro mundo? Há pior. Na inevitável Franca, decorre uma pequena polémica sobre a venda de livros, CD e DVD jun­to com os jornais, a baixo preço. Ao que consta, a moda desvaloriza económica e psicologicamente (?) os "produtos culturais", que se querem sagrados e longínquos. Na cabeça dos franceses, há muito psicologicamente desvalorizada, "cultura" não é apenas tudo o que esta impresso em paginas encadernadas, mas também o que se enfia num disco digital. Acho óptimo. Mas qual disco, senhor professor?

DIA 7, TERÇA-FEIRA
A propósito do Livro, sugiro um: Opiniões Fortes. A edição, recentíssima, é da Assírio & Alvim, e reúne 22 entrevistas feitas a Vladimir Nabokov e 14 ensaios do próprio. Apesar das confissões, mais ou menos biográficas ou encenadas, o melhor da obra são precisamente as opiniões, nas quais o autor de Lolita arrasa com deleite as piscinas, a musica de fundo, o comunismo e dois terços do moderno cânone literário, incluindo Eliot, Hemingway, Faulkner, Conrad e Mann. Escusado será dizer que podemos, e devemos, discordar. O facto é que Nabokov, repito, é o autor de lolita. E nós não.

Alberto Gonçalves – Revista Sábado, 9 de Junho de 2005



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