Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

terça-feira, junho 28, 2005

 

A luta pela derrota

As dificuldades do dr. Carrilho em distinguir as esferas pública e privada suscitaram inúmeras comparações com o dr. Santana. Não está mal visto, embora as afinidades sejam muito mais profundas. Claro que ambos partilham a urgência em exibir a família, fazer as capas da Imprensa dita “social” e proferir disparates “íntimos”. Mas isto não os distingue do contemporâneo médio: qualquer concorrente ao “Big Brother” ou repositora de “stocks” em Alfragide revela as mesmíssimas ambições.

O que principalmente aproxima os drs. Carrilho e Santana é um bizarro desejo de arruinar os objectivos que definiram para si próprios. Na recente corrida a S. Bento, o dr. Santana fez o que pôde para que não o elegêssemos primeiro-ministro. As metáforas da incubadora e das facadas, o luto pela Irmã Lúcia e a suspensão dos comícios a pretexto do Carnaval não enganaram ninguém.

Por incrível que pareça, o dr. Carrilho tem levado a autodestruição ainda mais longe. A sua campanha à Câmara de Lisboa é o maior aglomerado de falhanços desde que Edward Kennedy celebrou as suas hipóteses presidenciais afogando uma rapariguinha num lago e fugindo de seguida.

Primeiro, foi o acordo com o PCP que se esvaiu. Depois, numa demonstração cabal da sua visão para a cidade, o dr. Carrilho produziu uma série de cartazes em que a imagem de Lisboa surge invertida. Corrigido o ligeiro erro, irrompeu nova vaga de cartazes, que por sua vez taparam fachadas de edifícios, esconderam semáforos e para cúmulo, motivaram uma cartinha da Entidade de Contas e Financiamentos Políticos, a pedir esclarecimento dos respectivos custos. No passado dia 7, o dr. Carrilho lançou oficialmente a campanha, com o lendário vídeo familiar, que alimenta há semanas o anedotário nacional, e que além de incluir esposa e filho, beneficia igualmente de promessas aos “cidadões” (sic).

Eu não acredito que o dr. Carrilho não saiba soletrar “cidadãos”. Eu não acredito que o dr. Carrilho pense que insultar jornalistas rende votos. Eu não acredito que o dr. Carrilho se isole em “reflexão” a fim de comover o povo. Eu acredito que o dr. Carrilho não só quer perder as eleições como faz questão de ser o principal responsável pela derrota. A bem do PS, o eng. Sócrates já removeu os autores da campanha do dr. Carrilho. Mas seria preciso, como de resto começa a constar, que removesse o dr. Carrilho.

À semelhança de Santana, o dr. Carrilho é na aparência uma personagem cómica, no sentido em que se presta à galhofa geral. À semelhança de Santana, o dr. Carrilho é na essência uma figura trágica. Enquanto a comédia nos divertir e a tragédia reverter sobre ele, não há nisso problema nenhum.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 28 de Junho de 2005



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