Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

quarta-feira, junho 01, 2005

 

O monstro continua à solta

Coitado do dr. Marques Mendes: os esforços para livrar o PSD de alguns embaraços autárquicos valeram-lhe o rosnar das ‘bases’ e zero agradecimentos. Já o eng. Sócrates, condena os socialistas que espatifaram a Câmara do Porto a salários absurdos e ninguém pia. Fernando Gomes ruma ao petróleo, pensou-se em Nuno Cardoso para as águas e não deve espantar que Narciso Miranda seja agraciado com qualquer outro recurso mineral. Provavelmente, o celebrado ‘estilo’ de Sócrates passa pela impunidade ou pela completa ausência de vergonha, e não é muito original.

O país político, porém, continua a fingir que sim. Durante o ‘estado de graça’, ao olho destreinado facilmente confundível com a apatia ou a sabujice, cada decisão do primeiro-ministro é analisada à luz da sua infinita singularidade e virtude. Sócrates escolhe o Governo em segredo? O homem é sensato. Sócrates vende aspirinas no ‘Jumbo’? O homem é bondoso. Sócrates jura que os impostos não subirão? O homem é coerente. Sócrates aumenta os impostos? O homem é corajoso.

Perdoem a impertinência: vai sendo tempo de reparar que Sócrates, perfeito exemplar do político ‘moderno’, foi como tal uma invenção do marketing, destinada a distinguir o produto em causa do produto anterior, chamado Santana. Onde Santana nos metralhava com rajadas de comunicados e contra-comunicados, de metáforas e desabafos sentimentais, Sócrates faz o boneco do sujeito distante, reflexivo, que decide de acordo com princípios rigorosos e verdades absolutas.

Por manifesto azar, o exercício exige um alheamento da realidade impossível de manter por mais que umas semanas. Aos poucos, a realidade irrompe e a frieza desliza fatalmente para o alvoroço e o descaramento. Nunca falha. Regra geral, a transição coincide com o início da caça ao ‘pai’ do défice, vulgo ‘monstro’. Este apreciado ritual decorre sempre que a miséria das contas públicas é revelada ao povo, momento aproveitado pelos diversos governos para imputarem aos anteriores a culpa pela mediocridade seguinte. No processo, a paternidade do ‘monstro’ torna-se difícil de determinar. Para Sócrates, o pai é Barroso. Para Barroso, o pai era Guterres. Para Guterres (e Cadilhe), o pai foi Cavaco. E por aí fora, até chegarmos à generosidade que o PREC espalhou pela Função Pública e suspeitarmos (cruz, credo) que Abril teve algumas desvantagens.

Curioso é que, enquanto se busca alegremente o pai do ‘monstro’, continua a não haver quem procure seriamente abater o ‘monstro’. Também nisso o ‘estilo’ de Sócrates é de uma banalidade aflitiva.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 31 de Maio de 2005



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