Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

terça-feira, junho 21, 2005

 

Um país a preto e branco

No 10 de Junho, 500 (ou 200? Ou 40?) moços, ao que consta de ascendência cabo-verdiana, juntaram-se na praia de Carcavelos e varreram a dita. De acordo com sociólogos e afins, isto constituiu um sinal de revolta, e uma afirmação “étnica” e “cultural”. Para os banhistas, foi um roubo, e um rebuliço desgraçado. Em consequência, no sábado, 400 (ou 200? Somos terríveis nas contas, não admira o défice) rapazes encontraram-se no Martim Moniz para se declararem “brancos”, reclamarem da criminalidade e, não fosse a polícia, cometerem ligeiros crimes.

Eu agradeço aos céus por residir a muitos quilómetros de ambos os lugares. Não gosto de manifestações, protestos colectivos, “arrastões” ou ajuntamentos de qualquer espécie. Toda a actividade que necessita de ser realizada em bando revela a cretinice inata de cada um dos intervenientes, e aconselha distância às pessoas civilizadas.

O que não impede a questão: os pretos “revoltados” e os brancos “nacionalistas” não têm onde passar os feriados e os fins-de-semana? O ministério da Educação devia providenciar a esta gente um regime de ocupação dos tempos livres. Em simultâneo, daria uso à classe docente, que a julgar pelas revoltas em que também gasta os seus dias, anda excessivamente ociosa.

Mas, caso não sejam absolutamente analfabetos, o ideal seria os agitadores de Carcavelos e do Martim Moniz ficarem sossegados em casa, a ler um bom livro. Talvez aprendessem que a cor da pele é acidente, não motivo de orgulho. E quanto à afirmação “cultural”, não só duvido que se obtenha pela desordem pública, como convém lembrar que nem Cabo Verde nem Portugal possuem um património tão magnífico que apeteça sair à rua a celebrá-lo. As mornas e o fado não justificam tamanha vaidade.

Folclore à parte, é certo que existe um problema. Pior: existem vários, todos comuns às metrópoles ocidentais. O crescimento urbano. A imigração. Os guetos. O crime. A percepção do crime. O racismo. Aborrecido por estes azares, o dr. Sampaio condena “a xenofobia, o ostracismo e a demagogia mediática” e pede respeito pela lei. Palavras justas, tempo perdido. Perdoem a banalidade, mas não podemos desejar os benefícios do progresso sem pagar os respectivos custos. Quer dizer, poder podemos. Suspeito é que não adianta nada.

Por desfastio, nomeiam-se comissões, elaboram-se leis, apoiam-se “associações” e, se a ocasião permite, acontece o proverbial discurso regenerador. Entretenimento puro: enquanto se procura a solução do problema, esquece-se que há problemas sem solução. No máximo, há a polícia. Quando a polícia não se encontra revoltada.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 20 de Junho de 2005



<< Home

Archives

Março 2005   Abril 2005   Maio 2005   Junho 2005   Julho 2005  

This page is powered by Blogger. Isn't yours?