Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

terça-feira, junho 07, 2005

 

Uma era de tolerância

As reacções da opinião publicada ao circo político movem-se por critérios peculiares. E, às vezes, surpreendentes. Para nos limitarmos à última semana, espantou, por exemplo, que a proposta do CDS para a criação do ‘Dia Mundial da Criança Por Nascer’ fosse recebida por uma discrição quase absoluta. No máximo, podemos presumir os motivos do silêncio: por um lado, entre dias internacionais da Biodiversidade, da Diabetes, do Trabalhador, do Teatro e do Meu Primo Lucas, começa a ser complicado arranjar datas disponíveis, embora esteja convencido de que uma inciativa do Bloco de Esquerda em dedicar um dia qualquer à luta das abortadeiras clandestinas encontrasse espaço e franco aplauso. Por outro lado, o CDS é, ao contrário da referida criança, um partido em Vias de Não o Ser, o que retira algum impacto aos seus murmúrios.

Mas já foi totalmente apropriado que a conferência do dr. Campos e Cunha tenha merecido uma aprovação respeitosa e, em certos casos, entusiasmada. Sumário: no sábado, o senhor ministro das Finanças convocou os jornalistas para esclarecer as notícias que o davam a acumular a reforma do Banco de Portugal com o salário de governante. Em minutos, sem direito a perguntas adicionais, o dr. Campos e Cunha confirmou a acumulação (que toda a gente já conhecia) e reafirmou a estrita legalidade da mesma (o que também não foi novidade). De brinde, justificou a “moralidade” subjacente (afinal, o único ponto em questão) com um argumento esmagador: ele e a esposa serão igualmente afectados pelas alterações em curso.

Eis um choque. No fundo, ninguém esperava que o dr. Campos e Cunha se submetesse, mais a sua pobre família, às restrições que vem exigindo ao cidadão comum. O que corria por aí é que os decretos-leis passariam a conter um artigo que isentava os membros do Executivo (e aparentados) do respectivo cumprimento. Vale que o altruísmo venceu, e que a maioria dos comentadores, mediante leal apoio, soube reconhecê-lo na pessoa do ministro das Finanças, um santo que apenas a costumeira inveja nacional ousaria pôr em causa. A exacta inveja que impediu o povo de sair à rua em festa, celebrando a sorte de Governo tão generoso.

Claro que, na TVI, Constança Cunha e Sá lembrou os velhos tempos de Santana, quando declarações como a do ministro das Finanças teriam posto a Imprensa em galhofa durante semanas, até as barrigas se queixarem de dor. Eu lembro à dra. Constança que, nessa época sinistra, os remédios para uso gástrico só se encontravam em farmácias. E lembro aos leitores que, felizmente, a dra. Constança não representa a classe hoje ordeira e dócil do nosso comentário político.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 7 de Junho de 2005



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