Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

terça-feira, julho 05, 2005

 

As obras, as ideias e o macho

O vice-presidente do PPM justifica a escolha de uma concorrente da “Quinta das Celebridades” para candidata à Câmara de Cascais com os argumentos de que a senhora “é uma mulher independente, que não precisa de macho, que se preocupa muito com as questões sociais e que é uma visitadora nata.”

Parecem-me critérios válidos. Pelo menos, são uma alternativa possível às razões que levam um benfazejo qualquer a sacrificar-se em em prol da “sua” câmara. Normalmente, os heróis das autárquicas candidatam-se pelos mesmos aborrecidos motivos: porque têm “ideias” ou porque têm “obra”. Não custa perceber a distinção, já que a rapaziada das ideias é composta pelos caloiros e o pessoal da obra reúne os veteranos do ramo.

Claro que os conceitos não devem ser tomados à letra. No jargão municipalista, “ter obra” significa que já se presidiu a um lugarejo tempo suficiente para arrasá-lo quase por completo. Quanto a “ter ideias”, quer dizer que o candidato estreante tem a ideia de que talvez fosse preferível ser ele próprio, e não o cacique do costume, a prosseguir o arraso.

O elevado grau de destruição de um município não diminui o apetite dos autarcas e dos desafiantes por tentar agravá-lo. Tirando a entulheira acabada do Marco de Canaveses, que lembra Nagasaki após a bomba, mas com pior saneamento e uma igreja do Siza Vieira, parece haver sempre lugar para nova miséria. Com jeitinho, cabe mais um “empreendimento-âncora”, um pólo “centralizador”, uma resma de “acessibilidades”. A este exercício de aniquilação contínua chama-se, naturalmente, “fazer cidade”. E quem a faz assim tem obra. Em certos casos, tem também um apreciável conjunto de bens em nome alheio e relativo prestígio entre os selvagens da paróquia.

Sendo tradicionalista, o povo prefere a obra às ideias. Regra geral, o coração do eleitorado inclina-se para os autarcas que já dispuseram de muitos anos a “fazer cidade” e a distribuir empregos. Questão de hábito, que não se deixa sequer influenciar pelo facto de o sujeito estar eventualmente indiciado por corrupção ou abuso de criancinhas. Como as sondagens têm demonstrado, aliás.

De Norte a Sul, os exemplos são célebres e não vale a pena citar nomes. Alguns são mulheres, alguns são independentes, uns tantos declaram imensas preocupações sociais, um anda há dois anos em visita ao Brasil e, que se saiba, poucos precisam de macho. Mas, ao contrário da senhora do PPM, nenhum reúne todos os predicados. Para cúmulo, a revelação monárquica não possui obra nem corre riscos de um dia vir a ter uma única ideia. Ai, se eu morasse em Cascais.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 5 de Julho de 2005



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