Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

domingo, julho 03, 2005

 

Homem-a-dias: 1 de Julho

O Bloco resiste à opressão vigente no meio de rebanhos e pastores. Os gays resistem à discriminação entre sedas e silicone. O português médio não resiste aos coletes reflectores, por acaso bem bonitos.

DIA 21, SEXTA-FEIRA
Através de visões apocalípticas ou 11 invocações do "contexto social", não houve criatura que não tentasse explicar o arrastão de 10 de Junho. Não houve explicação tão interessante, diga-mos, quanto a da dra. Ana Drago, deputada da nação e do Bloco de Esquerda. Para a dra. Drago, o arrastão não existiu. Sucedeu apenas que a rapaziada entrou praia adentro em fuga de "uma carga policial indiscriminada". A ser verdade, eu gostaria de perceber como é que uma carga po­licial sobre centenas de pretos numa área repleta de brancos consegue, ainda assim, manter-se indiscriminada.
Provavelmente, não merece a pena o esforço. Estamos no sinuoso terreno dos desejos íntimos. A dra. Drago limitou-se a imaginar os arruaceiros de Carcavelos numa situação que ambiciona para ela própria, inspirada nos mitos de uma infância bloquista que, pelos vistos, demora a passar. Com as devidas variantes, o caso aproxima-se da neurose de transferencia, definida por Freud. Parece que ha cura.
Até que a cura chegue, a dra. Drago continuará a suspirar por investidas da polícia, interrogatórios, censura e todo o entulho ditatorial que legitima, por oposição, o verdadeiro resistente. Convenhamos: ser trotskista em democracia não tem grande piada. Ser trotskista e deputado de um parlamento eleito deve ser uma angústia. É chato protestar contra a globalização e conduzir um Toyota. É chato fingir marginalidade e ter acesso solto à imprensa. É chato combater o sistema e usufruir das respectivas mordomias. É chato provocar e não ofender vivalma.
Felizmente, a esta gente não custa trocar a realidade pela alucinação. É por isso que, no fim do mês, o Acampamento dos Jovens do Bloco promoverá um workshop sobre Desobediência Civil na Serra da Estrela. Não sei se a dra. Drago participará como docente ou aluna. Sei que, entre montanhas, ribeiros e cabritos, o bando resistira estoicamente a fascismos e torturas imaginários. Alguns audazes poderão mesmo baixar à clandestinidade na Covilhã ou adquirir um queijinho proibido. não há dúvida de que um outro mundo e possível, embora o mundo em questão se resolvesse melhor com um internamento no Júlio de Matos do que com umas ferias na Beira Alta.

DIA 25, SÁBADO
Ausente de Lisboa e pouco versado em marchas populares, venho por este sossegado meio solidarizar-me com a marcha do Orgulho Lésbico, Gay, Bissexual e Transgenero (LGBT), que hoje se realizou. E não vejo melhor maneira de o fazer senão confessando profunda vergonha da minha heterossexual idade. A todos os orgulhosos LGBT peço, portanto, desculpa.

DIA 27, SEGUNDA-FEIRA
Começa hoje a obrigatoriedade dos coletes reflectores nos automóveis. Talvez não acabe hoje a carnificina nas estradas. De alguma forma, especialistas apuraram que a sinistralidade rodoviária está intimamente ligada ao vestuário dos condutores, que teimam em vestir tons morrinhentos, como o beije, o azul-marinho e, nos casos mais irresponsáveis, o cinzento. Confundindo-se com a paisagem envolvente, sobretudo se houver nevoeiro ou se circularem perto dos subúrbios, os baços automobilistas tornam-se presas fáceis para a concorrência. Dai a nova fardamenta, garrida e vistosa. Infelizmente, a modernice sé terá influência na redução dos acidentes em que nos encontramos no exterior do veículo. Para os restantes azares, em que o pessoal se espatifa no interior e que constituem uns 99,47% dos desastres totais, é provável que a União Europeia prepare em breve outra linha de pronto-a-vestir.
Certo é que os Portugueses adoraram a medida. A portaria que regulamenta a lei do colete foi publicada há três meses, e há três meses que milhares de coletes embelezam os assentos dianteiros de milhares de carros. Ou seja, aos cidadãos não bastou comprar o produto com antecedência, tiveram que mostrá-lo a olho nu, para que não restassem dúvidas do seu entusiasmo.
Curioso. Não vamos longe naquilo que importa. Não somos excessivamente produtivos, organizados, asseados ou pontuais. E, mesmo sem frequentarmos o workshop do Bloco de Esquerda, não so­mos nada cumpridores das leis convencionais e sensatas. Mas temos um talento inato para acatarmos com contagiante zelo determinadas regras, escritas ou tácitas, desde que desprovidas de sentido.
A irracionalidade parece ser, de facto, o critério principal. Não é o único. Após laboriosos estudos, conclui que os portugueses só apreciam normas que, alem de ridículas, impliquem a exibição pública de objectos, de preferência susceptíveis de serem pendurados. Se o Governo ou um SMS em cadeia decretassem para Outubro o uso forçado de tamancos (graças aos céus, por enquanto não decretou), muitos de nós passariam o Verão com os tamancos ao pescoço, em demonstração prévia de brio.
No ano passado foram as bandeiras. Em 1999, os lençóis por Timor. Este é o ano dos coletes: quem não os possuir arrisca multa; quem não os desfraldar ante a comunidade incorre em casmurrice e, quiçá, falta de patriotismo. Escusado é alimentarmos esperanças sobre os demais aspectos do comportamento ao volante. O limite de velocidade não é fácil de pendurar.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 1 de Julho de 2005



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