Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

domingo, julho 17, 2005

 

Homem-a-dias: 15 de Julho

Afinal, parece que os cidadãos de Londres ficaram histéricos com os atentados. O sr. Blair é que censurou a informação. E o resto é crónica feminina: quotas, abortos e perseguições de importância diversa.

Dia 7, QUINTA-FEIRA
Há quem se divirta com os comentários do dr. Mário Soares acerca do terrorismo. Eu acho-os espirituosos, mas repetitivos. A graçola do “diálogo” com os senhores da al-Qaeda já está estafada. Em matéria de alucinações, prefiro a cobertura televisiva caseira, que estrebuchou perante a calma dos londrinos. Na Tvi, as reportagens dos atentados corriam sobre um dístico: “Pânico e Caos”. Na Sic, um senhor Ribas qualquer clamava contra a “censura” noticiosa imposta pelo governo britânico, e contra os “média” locais que a aceitaram. Teoricamente, o jornalismo deveria informar o público dos acontecimentos do mundo. O “jornalismo” dos nossos noticiários conta-nos o mundo de quem os faz. E é um mundo repelente, profundamente boçal e, no fundo, muito triste.

Dia 8, SEXTA-FEIRA
Cancelei vários compromissos para ler, com vagar, a entrevista de Sónia Fertuzinhos ao “Público”. Quem é Sónia Fertuzinhos? Excelente pergunta, cuja resposta ignoro. Apenas sei que pertence a uma família com humor patronímico e que é deputada do PS. De resto, não importa o que ela é: importa o que ela pensa. E a dra. Fertuzinhos pensa que as mulheres devem ocupar 33% da Assembleia da República.
Será um bocadinho estranho que, em pleno século XXI (como se costuma dizer), ainda haja gente que trata o mulherio enquanto produto alfandegário e pretende atribuir-lhes quotas. Por mim, óptimo. Não só não resisto a atitudes saudosistas como o instinto me recomenda que a presença das mulheres é sempre preferível à respectiva ausência. Seja no Parlamento, no restaurante, no organograma da CP ou na sala de estar cá de casa.
Entusiasmado com a entrevista, dispus-me a participar em qualquer acção em prol da intervenção feminina. Roubei uma dúzia de soutiens à minha própria mulher (para queimar ou dar às pobres) e preparava-me para descer à rua quando olhei o “Público” de esguelha e reparei que, em pequena caixa anexa, a dra. Fertuzinhos também defende o casamento de homossexuais. Larguei os soutiens e prostrei-me no sofá, em conjecturas negras sobre a humanidade. Que feminismo é este? Como é que uma pessoa que exige uma quota de mulheres nas mais extravagantes actividades só as acha facultativas na união sexual? O casamento entre “gays” é-me indiferente. Mas a incoerência irrita-me.

Dia 11, SEGUNDA-FEIRA
Foi bonito o ajuntamento à porta do Tribunal de Setúbal, onde duas senhoras eram julgadas por aborto. Felizmente, nos eventos assim nunca faltam as delegações dos partidos e os grupos activistas de inúmeras tendências não partidárias (todos dependentes do Bloco de Esquerda). Conhecida a sentença, as arguidas, que possivelmente preferiam ter atravessado o processo em ambiente mais discreto, foram mandadas em liberdade. Depois, em pose para os “telejornais”, a maralha contestatária fez vistosa festa e jurou continuar a lutar pelo fim da “perseguição às mulheres”.
Parece-me que a festa é exagerada e que a luta decorre nos lugares indevidos. Que eu saiba, os julgamentos deste género terminam fatalmente na absolvição. Mesmo que haja algum enxovalho, palpita-me que existem mulheres a sofrerem violências maiores.
Veja-se o mundo muçulmano. Veja-se, a título de exemplo, a Turquia, só nas últimas semanas. Veja-se Birgul Isik, baleada pelo filho após se queixar do marido num programa televisivo. Veja-se Ayse Aydin, encontrada morta e sexualmente mutilada (os familiares falaram em suicídio). Veja-se Rodja, forçada a casar aos 13 anos com o homem que a violou (um hábito apreciado na região) e cujo padrasto lhe amputou o nariz por motivos certamente compreensíveis.
Embora a imprensa internacional ferva com episódios semelhantes, estes não comovem os nossos activistas da causa feminina. Se calhar, o respeito pela soberania alheia impede-os de fazer baderna no estrangeiro, mesmo que não tenha impedido muitos deles de emporcalhar Edimburgo a propósito do G8. Também não haverá obstáculos económicos: comparada com os preços de Istambul, uma estadia na Escócia sai caríssima. Pelos vistos, há perseguições e perseguições, mulheres e mulheres. É pena. Talvez as turcas apreciassem o apoio de manifestantes portugueses. Ou, pensando bem, talvez não. As desgraçadas já amargam o suficiente.

Dia 12, TERÇA-FElRA
Depois de a polícia encontrar um carro suspeito, a estação ferroviária de Luton foi hoje evacuada. Nos últimos dias, idêntica medida foi tomada em Birmingham e em diferentes pontos de Londres (Whitehall, King’s Cross). Dadas as circunstâncias, percebe-se a cautela. Certo é que a cautela, levada a estes extremos, não pode continuar para sempre. E mais horrível é imaginar que pode, que o medo de agora permanecerá intacto daqui a um, cinco, vinte anos. Em Inglaterra, políticos e populares reagiram aos atentados com louvável decência. Mas garantir que o terror não vencerá não o impede de vencer. Este particular terror, irracional no exacto sentido de que não negoceia nem exige, tem poucas possibilidades de fracassar. Pessimismo à parte, há que tentar encontrá-las. De preferência, dispensando o diálogo e o dr. Soares.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 15 de Julho de 2005



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