Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

sábado, julho 09, 2005

 

Homem-a-dias: 9 de Julho

Quem descobrir o nexo entre uma cançoneta da Madonna e a extinção da pobreza ganha o Nobel da Economia. Quem desco­brir a hospitalidade pátria ganha um fim-de-semana na Madeira. Quem descobrir Machado de Assis ganha.

DIA 2, SÁBADO
A miséria alheia é a sorte de Bob Geldof. Em 1984, o cavalheiro viu um programa sobre a fome na Etiópia e, em vez de mudar de canal, decidiu chamar a atenção dos media através de uma cantiga. A cantiga, que reuniu todo o esterco da pop britânica, foi lançada em Dezembro e lamentava que os infelizes etíopes não soubessem que estávamos no Na­tal. Visto que os infelizes etíopes são maioritariamente muçulmanos on animistas, era como dedicar o Ser Benfiquista à claque do Porto. Ninguém se importou: Do They Know It's Christmas? vendeu imenso e convenceu Bob Geldof de que tinha uma missão a desempenhar,
A missão consistia em nutrir milhões de africanos e em massacrar, com refugo vagamente "musical", milhões de ocidentais. 0 Live Aid, realizado em 1985, cumpriu a segunda tarefa. Embora Bob Geldof tenha assegurado que os lucros dos concertos foram inteirinhos "para as pessoas que precisam", não se notou muito que a pessoa mais precisada se chamava Mengistu Hai-le Mariam, o ditador local, a quem o dinheiro veio a calhar para fortalecer as tropas. Excepto pelos soldados, que passaram a comer indiscutivelmente melhor, o etíope médio não sentiu grandes abalos na dieta. Quer dizer, na verdade, sentiu: a fome, que é um instrumento usado na região para conter eventuais rebeliões, aumentou, graças a um exercito mais capaz de a implementar. Graças ao Live Aid.
Vinte anos passados, a manutenção do drama africano e as prováveis debilidades na sua conta bancaria levam Bob Geldof a reincidir. O Live 8 é o Live Aid que, em lugar de recolher fundos, procura motivar os "países ricos" a perdoar a divida dos "países pobres". Mas a essência da caridade mantém-se, e terminara fatalmente no reforço bélico dos dementes que mandam em África.
Ao contrario daquilo em que Bob Gel­dof finge acreditar (e em que alguns tontos acreditam de facto), o problema de África não passa pela escassez alimentar: passa pela escassez democrática. Removido o socialismo despótico que é regra de Angola ao Zimbabwe, a coisa só poderá progredir. Troque-se Madonna pela privatização da propriedade, os U2 pela liberalização do comércio, a Mariza pela abolição dos obstáculos fiscais à iniciativa particular, os Pink Floyd pelo fim das guerras civis. Bob Geldof por eleições justas e pronto.
O engraçado é que o circo do Live 8 continua a culpar as democracias, o poder do mercado e a globalização, justamente o que África não tem e necessita. E tudo isto ante a complacência de Blair, Bush e restantes senhores do mundo livre. Aliás, excessivamente livre: há pelo menos 20 anos que o sr. Geldof devia estar preso.

DIA 5, TERÇA-FElRA
O dr. Sampaio sugeriu que Portugal repensasse a oferta turística. Segundo o Presidente da Republica, parece que o nosso "produto sazonal de sol e praia" perde em comparação com os países mediterrânicos e já não entusiasma ninguém. Nada a opor. A questão é: retirados o sol e a praia, que "produtos" podemos oferecer?
0 campo é uma vastidão sem vivalma, que ainda por cima tem o tique de irromper em chamas no Verão. O património, historicamente muito inferior ao padrão europeu, foi varrido a expensas da "modernidade". A gastronomia? Seria uma hipótese, se a própria Agência de Segurança Alimentar não tivesse anunciado esta semana que um número indeterminado de restaurantes é entreposto certo para os cuida dos intensivos.
Sobra a hospitalidade, a lendária hospitalidade indígena. Desde que a encontremos. Ontem, enquanto o dr. Sampaio se aliviava das suas preocupações, o chefe de uma região turística entretinha-se a insultar chineses e indianos. Seguiu-se o habi­tual tumulto indignado: é inadmissível, é intolerável, etc. A verdade e que o dr. Alberto João Jardim se limitou a dizer em publico o que milhões de Portugueses opinam em privado sobre a concorrência asiática. E sobre tudo o que a estranja nos envia de resto.
Como e do conhecimento geral, os afri­canos são fonte de insegurança e os moços do Leste isco de gangues organizados. Os turistas, propriamente ditos, também não suscitam encómios. Os ingleses e os alemães que nos tocam são pés-rapados. Os americanos, felizmente poucos, são uns imperialistas, que julgam mandar nisto. Os franceses, esses peneirentos, escolhem outras paragens. E nós sabemos bem o que é que os espanhóis querem.
Mesmo "repensado", o turismo nacional não promete. O Governo é que promete o aeroporto da Ota, o qual talvez venha a beneficiar do trafego que o justifica. Não para receber estrangeiros, mas para levar os que ainda andarem por cá, em férias, trabalho ou vadiagem. De qualquer das formas, ao engano.

DIA 6, QUARTA-FEIRA
Há uns meses, na revista Ler, Abel Barros Baptista disse de mim o que o dr. Jardim não diria dos imigrantes. Na altura, não reagi. Sendo rancoroso, aproveito agora para informar que o dr. Baptista dirige, na Cotovia, o Curso Breve de Literatura Brasileira, 16 livros de Machado de Assis a Nelson Rodrigues, passando por Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Acrescento que seria difícil imaginar-se melhor e termino aliviado. A vingança serve-se fria.

Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 9 de Julho de 2005



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