Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

terça-feira, julho 12, 2005

 

Madeira exótica

Sob critérios ‘étnicos’ ou religiosos, Estaline assassinou, ao longo de uma gloriosa carreira, milhares de ucranianos, polacos, judeus, tchetchenos e etc. Há meses, o PCP relembrou os ingénuos de que Estaline continua a ser a referência da seita. Quase ninguém se maçou. Certamente ninguém pediu ao Presidente da República uma opinião sobre o assunto, ninguém pressionou o sr. Jerónimo para desautorizar os autores do artigo e a ninguém ocorreu rumar de joelhos às embaixadas da Ucrânia, da Polónia e de Israel, com a corda ao pescoço e perdões oficiais. Já os disparates de Alberto João Jardim suscitam franco pandemónio, e o facto de a criatura pertencer ao Conselho de Estado talvez não explique tudo. Também não serei eu a explicá-lo.

Eu sei que o dr. Jardim tem razão num ponto. Se não é insólito, é no mínimo ridículo que um país democrático se sinta obrigado a pedir desculpas a uma pocilga totalitária. Dado o modo como trata habitualmente a generalidade dos seus servos, perdão, cidadãos, não consta que o governo chinês se ofenda porque alguns deles foram enxovalhados pelo obscuro chefe de uma ilha longínqua. Ao mesmo tempo, é engraçado que o dr. Jardim atribua tamanha importância aos direitos humanos, sobretudo quando esses direitos têm a ver com os particulares humanos que ele próprio confessadamente despreza.

Tudo isto, é claro, são passatempos. O calor aperta e a classe política é tomada por um desejo recorrente de se fingir activa. Infelizmente, há uma outra questão, bem mais grave: o dr. Jardim perdeu a graça. E dantes eu achava-lhe alguma. O folclore em volta da figura nunca me incomodou. E a capacidade dele em enervar a esquerda não era pequena virtude. Claro que as atoardas contra os ‘cubanos’ da capital eram vagas e dispensáveis. Mas os confrontos verbais com os líderes indígenas ou continentais eram uma alternativa divertida ao respeitinho pelintra vigente no meio. Na altura, os alvos do dr. Jardim tinham rosto e, presume-se, possibilidade de resposta.

Devagarinho, porém, a inimputabilidade do dr. Jardim foi crescendo, à medida que as suas ambições de um papel na política ‘central’ diminuíam. E o resultado não espanta: enquanto o público abandona o circo, carrega-se nas palhaçadas para seduzir os espectadores que restam. No exercício, a piada atenua-se e, um dia, desaparece de vez. No caso do dr. Jardim, desapareceu agora. Atacar gente indistinta é apenas cobarde. Atacar imigrantes, por definição mais indefesos e dependentes, é apenas uma pulhice.

Antigamente, pelo Carnaval, o dr. Jardim fantasiava-se de selvagem. Já não precisa da fantasia.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 12 de Julho de 2005



<< Home

Archives

Março 2005   Abril 2005   Maio 2005   Junho 2005   Julho 2005  

This page is powered by Blogger. Isn't yours?