Crónicas & Outros Textos de Alberto Gonçalves

Para mais tarde recordar

terça-feira, julho 19, 2005

 

Os pobres de espírito

De acordo com uma célebre escola de pensamento, cuja licença em Portugal foi consignada ao dr. Soares, as motivações dos terroristas são a pobreza e o desespero. É fascinante que se repitam toleimas com cara séria. Shehzad Tanweer, um dos assassinos de 7 de Julho, estudava na Universidade de Leeds, conduzia um Mercedes e jogava críquete. Mohammad Khan era professor do ‘básico’. Magdi el-Nashar, o alegado ‘quinto homem’, doutorou-se em química com bolsa do Estado britânico. Etc. Como aliás se verificou nos instruídos protagonistas de Nova Iorque, Washington e Madrid, dificilmente seria a pobreza a mobilizar os criminosos de Londres. Os pobres não matam em nome de abstracções.

Quanto ao desespero, o caso é diferente. Talvez o Mercedes do sr. Shehzad tivesse problemas de origem (uma vez comprei um carro que saiu do ‘stand’ a assobiar pelo pára-brisas, e confesso que me apeteceu desfazer o que estivesse à mão). Não sei. Sei que quem acredita chegar às virgens através de chacinas é mesmo capaz de estar desesperado. Infelizmente, não pelas causas que o dr. Soares papagueia.

Vamos lá repetir a cartilha. A angústia dos terroristas não provém da fome ou da injustiça, mas da insuportável inadequação do mundo deles ao nosso mundo. Com variantes, o Ocidente conquistou nos últimos séculos a laicização do Estado e da vida corrente. Semelhante processo valeu-nos perplexidades, “erosão moral” e, sem dúvida, um imenso avanço tecnológico. Em certo sentido, a modernidade entregou-nos a nós próprios, o que é, à falta de melhor, uma definição possível de liberdade. Inúmeros muçulmanos não a percebem. Alguns não a toleram. O Corão não prega o respeito pelos infiéis. Pior: o Corão exige estrita observância, e a ausência de uma hierarquia religiosa deixa os critérios dessa observância ao cuidado de pregadores avulsos, o que convida ao zelo e ao fanatismo.

Há dois pontos comuns a quase todos os perpetradores da jihad: a frequência de universidades e mesquitas em território ocidental. Ambas são indispensáveis ao terror. Nas primeiras encontram a técnica; nas segundas a motivação. Não convém abolir o ensino superior, mas seria útil esquecer as boas maneiras e indagar o que acontece em muitas ‘mesquitas’ de Londres, Paris e Berlim, hoje um eufemismo para fábricas de tarados, perdão, desesperados. Se realmente pretendem combater o terror, as autoridades deveriam investigá-las, identificar os desesperados e ouvir-lhes as razões, compreendê-los, acarinhá-los. Ou então rebentar logo com eles: é mais seguro e, no fundo, eles não querem outra coisa.

Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 19 de Julho de 2005



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