<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875</id><updated>2011-04-22T01:02:16.530Z</updated><title type='text'>Crónicas &amp; Outros Textos de Alberto Gonçalves</title><subtitle type='html'>Para mais tarde recordar</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>34</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-112250888000528335</id><published>2005-07-27T23:53:00.000Z</published><updated>2005-07-28T00:04:27.610Z</updated><title type='text'>O PAPEL IMPÔS A SUA VONTADE</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:courier new;font-size:130%;color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;POR SOLICITAÇÃO DO PRÓPRIO ALBERTO GONÇALVES, E POSSO ADIANTAR QUE POR EXCELENTES RAZÕES PARA QUEM GOSTA DE LER O QUE ELE ESCREVE, &lt;span style="color:#ff0000;"&gt;ESTE BLOGUE TERÁ QUE FECHAR&lt;/span&gt;. É PENA? POIS É. MAS ACREDITEM QUE HAVERÁ UMA &lt;span style="color:#33cc00;"&gt;ALTERNATIVA&lt;/span&gt; MUITO APETECÍVEL PARA BREVE.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-112250888000528335?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/112250888000528335'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/112250888000528335'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/07/o-papel-imps-sua-vontade.html' title='O PAPEL IMPÔS A SUA VONTADE'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-112196335786051767</id><published>2005-07-19T20:26:00.000Z</published><updated>2005-07-21T16:29:17.866Z</updated><title type='text'>Os pobres de espírito</title><content type='html'>De acordo com uma célebre escola de pensamento, cuja licença em Portugal foi consignada ao dr. Soares, as motivações dos terroristas são a pobreza e o desespero. É fascinante que se repitam toleimas com cara séria. Shehzad Tanweer, um dos assassinos de 7 de Julho, estudava na Universidade de Leeds, conduzia um Mercedes e jogava críquete. Mohammad Khan era professor do ‘básico’. Magdi el-Nashar, o alegado ‘quinto homem’, doutorou-se em química com bolsa do Estado britânico. Etc. Como aliás se verificou nos instruídos protagonistas de Nova Iorque, Washington e Madrid, dificilmente seria a pobreza a mobilizar os criminosos de Londres. Os pobres não matam em nome de abstracções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto ao desespero, o caso é diferente. Talvez o Mercedes do sr. Shehzad tivesse problemas de origem (uma vez comprei um carro que saiu do ‘stand’ a assobiar pelo pára-brisas, e confesso que me apeteceu desfazer o que estivesse à mão). Não sei. Sei que quem acredita chegar às virgens através de chacinas é mesmo capaz de estar desesperado. Infelizmente, não pelas causas que o dr. Soares papagueia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos lá repetir a cartilha. A angústia dos terroristas não provém da fome ou da injustiça, mas da insuportável inadequação do mundo deles ao nosso mundo. Com variantes, o Ocidente conquistou nos últimos séculos a laicização do Estado e da vida corrente. Semelhante processo valeu-nos perplexidades, “erosão moral” e, sem dúvida, um imenso avanço tecnológico. Em certo sentido, a modernidade entregou-nos a nós próprios, o que é, à falta de melhor, uma definição possível de liberdade. Inúmeros muçulmanos não a percebem. Alguns não a toleram. O Corão não prega o respeito pelos infiéis. Pior: o Corão exige estrita observância, e a ausência de uma hierarquia religiosa deixa os critérios dessa observância ao cuidado de pregadores avulsos, o que convida ao zelo e ao fanatismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há dois pontos comuns a quase todos os perpetradores da jihad: a frequência de universidades e mesquitas em território ocidental. Ambas são indispensáveis ao terror. Nas primeiras encontram a técnica; nas segundas a motivação. Não convém abolir o ensino superior, mas seria útil esquecer as boas maneiras e indagar o que acontece em muitas ‘mesquitas’ de Londres, Paris e Berlim, hoje um eufemismo para fábricas de tarados, perdão, desesperados. Se realmente pretendem combater o terror, as autoridades deveriam investigá-las, identificar os desesperados e ouvir-lhes as razões, compreendê-los, acarinhá-los. Ou então rebentar logo com eles: é mais seguro e, no fundo, eles não querem outra coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 19 de Julho de 2005&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-112196335786051767?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/112196335786051767'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/112196335786051767'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/07/os-pobres-de-esprito.html' title='Os pobres de espírito'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-112161723924900482</id><published>2005-07-17T18:14:00.000Z</published><updated>2005-07-18T11:19:25.286Z</updated><title type='text'>Homem-a-dias: 15 de Julho</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Afinal, parece que os cidadãos de Londres ficaram histéricos com os atentados. O sr. Blair é que censurou a informação. E o resto é crónica feminina: quotas, abortos e perseguições de importância diversa.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 7, QUINTA-FEIRA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Há quem se divirta com os comentários do dr. Mário Soares acerca do terrorismo. Eu acho-os espirituosos, mas repetitivos. A graçola do “diálogo” com os senhores da al-Qaeda já está estafada. Em matéria de alucinações, prefiro a cobertura televisiva caseira, que estrebuchou perante a calma dos londrinos. Na Tvi, as reportagens dos atentados corriam sobre um dístico: “Pânico e Caos”. Na Sic, um senhor Ribas qualquer clamava contra a “censura” noticiosa imposta pelo governo britânico, e contra os “média” locais que a aceitaram. Teoricamente, o jornalismo deveria informar o público dos acontecimentos do mundo. O “jornalismo” dos nossos noticiários conta-nos o mundo de quem os faz. E é um mundo repelente, profundamente boçal e, no fundo, muito triste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 8, SEXTA-FEIRA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Cancelei vários compromissos para ler, com vagar, a entrevista de Sónia Fertuzinhos ao “Público”. Quem é Sónia Fertuzinhos? Excelente pergunta, cuja resposta ignoro. Apenas sei que pertence a uma família com humor patronímico e que é deputada do PS. De resto, não importa o que ela é: importa o que ela pensa. E a dra. Fertuzinhos pensa que as mulheres devem ocupar 33% da Assembleia da República.&lt;br /&gt;Será um bocadinho estranho que, em pleno século XXI (como se costuma dizer), ainda haja gente que trata o mulherio enquanto produto alfandegário e pretende atribuir-lhes quotas. Por mim, óptimo. Não só não resisto a atitudes saudosistas como o instinto me recomenda que a presença das mulheres é sempre preferível à respectiva ausência. Seja no Parlamento, no restaurante, no organograma da CP ou na sala de estar cá de casa.&lt;br /&gt;Entusiasmado com a entrevista, dispus-me a participar em qualquer acção em prol da intervenção feminina. Roubei uma dúzia de soutiens à minha própria mulher (para queimar ou dar às pobres) e preparava-me para descer à rua quando olhei o “Público” de esguelha e reparei que, em pequena caixa anexa, a dra. Fertuzinhos também defende o casamento de homossexuais. Larguei os soutiens e prostrei-me no sofá, em conjecturas negras sobre a humanidade. Que feminismo é este? Como é que uma pessoa que exige uma quota de mulheres nas mais extravagantes actividades só as acha facultativas na união sexual? O casamento entre “gays” é-me indiferente. Mas a incoerência irrita-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 11, SEGUNDA-FEIRA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Foi bonito o ajuntamento à porta do Tribunal de Setúbal, onde duas senhoras eram julgadas por aborto. Felizmente, nos eventos assim nunca faltam as delegações dos partidos e os grupos activistas de inúmeras tendências não partidárias (todos dependentes do Bloco de Esquerda). Conhecida a sentença, as arguidas, que possivelmente preferiam ter atravessado o processo em ambiente mais discreto, foram mandadas em liberdade. Depois, em pose para os “telejornais”, a maralha contestatária fez vistosa festa e jurou continuar a lutar pelo fim da “perseguição às mulheres”.&lt;br /&gt;Parece-me que a festa é exagerada e que a luta decorre nos lugares indevidos. Que eu saiba, os julgamentos deste género terminam fatalmente na absolvição. Mesmo que haja algum enxovalho, palpita-me que existem mulheres a sofrerem violências maiores.&lt;br /&gt;Veja-se o mundo muçulmano. Veja-se, a título de exemplo, a Turquia, só nas últimas semanas. Veja-se Birgul Isik, baleada pelo filho após se queixar do marido num programa televisivo. Veja-se Ayse Aydin, encontrada morta e sexualmente mutilada (os familiares falaram em suicídio). Veja-se Rodja, forçada a casar aos 13 anos com o homem que a violou (um hábito apreciado na região) e cujo padrasto lhe amputou o nariz por motivos certamente compreensíveis.&lt;br /&gt;Embora a imprensa internacional ferva com episódios semelhantes, estes não comovem os nossos activistas da causa feminina. Se calhar, o respeito pela soberania alheia impede-os de fazer baderna no estrangeiro, mesmo que não tenha impedido muitos deles de emporcalhar Edimburgo a propósito do G8. Também não haverá obstáculos económicos: comparada com os preços de Istambul, uma estadia na Escócia sai caríssima. Pelos vistos, há perseguições e perseguições, mulheres e mulheres. É pena. Talvez as turcas apreciassem o apoio de manifestantes portugueses. Ou, pensando bem, talvez não. As desgraçadas já amargam o suficiente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 12, TERÇA-FElRA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Depois de a polícia encontrar um carro suspeito, a estação ferroviária de Luton foi hoje evacuada. Nos últimos dias, idêntica medida foi tomada em Birmingham e em diferentes pontos de Londres (Whitehall, King’s Cross). Dadas as circunstâncias, percebe-se a cautela. Certo é que a cautela, levada a estes extremos, não pode continuar para sempre. E mais horrível é imaginar que pode, que o medo de agora permanecerá intacto daqui a um, cinco, vinte anos. Em Inglaterra, políticos e populares reagiram aos atentados com louvável decência. Mas garantir que o terror não vencerá não o impede de vencer. Este particular terror, irracional no exacto sentido de que não negoceia nem exige, tem poucas possibilidades de fracassar. Pessimismo à parte, há que tentar encontrá-las. De preferência, dispensando o diálogo e o dr. Soares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 15 de Julho de 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-112161723924900482?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/112161723924900482'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/112161723924900482'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/07/homem-dias-15-de-julho.html' title='Homem-a-dias: 15 de Julho'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-112118481446527811</id><published>2005-07-12T18:11:00.000Z</published><updated>2005-07-12T16:13:34.470Z</updated><title type='text'>Madeira exótica</title><content type='html'>Sob critérios ‘étnicos’ ou religiosos, Estaline assassinou, ao longo de uma gloriosa carreira, milhares de ucranianos, polacos, judeus, tchetchenos e etc. Há meses, o PCP relembrou os ingénuos de que Estaline continua a ser a referência da seita. Quase ninguém se maçou. Certamente ninguém pediu ao Presidente da República uma opinião sobre o assunto, ninguém pressionou o sr. Jerónimo para desautorizar os autores do artigo e a ninguém ocorreu rumar de joelhos às embaixadas da Ucrânia, da Polónia e de Israel, com a corda ao pescoço e perdões oficiais. Já os disparates de Alberto João Jardim suscitam franco pandemónio, e o facto de a criatura pertencer ao Conselho de Estado talvez não explique tudo. Também não serei eu a explicá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sei que o dr. Jardim tem razão num ponto. Se não é insólito, é no mínimo ridículo que um país democrático se sinta obrigado a pedir desculpas a uma pocilga totalitária. Dado o modo como trata habitualmente a generalidade dos seus servos, perdão, cidadãos, não consta que o governo chinês se ofenda porque alguns deles foram enxovalhados pelo obscuro chefe de uma ilha longínqua. Ao mesmo tempo, é engraçado que o dr. Jardim atribua tamanha importância aos direitos humanos, sobretudo quando esses direitos têm a ver com os particulares humanos que ele próprio confessadamente despreza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo isto, é claro, são passatempos. O calor aperta e a classe política é tomada por um desejo recorrente de se fingir activa. Infelizmente, há uma outra questão, bem mais grave: o dr. Jardim perdeu a graça. E dantes eu achava-lhe alguma. O folclore em volta da figura nunca me incomodou. E a capacidade dele em enervar a esquerda não era pequena virtude. Claro que as atoardas contra os ‘cubanos’ da capital eram vagas e dispensáveis. Mas os confrontos verbais com os líderes indígenas ou continentais eram uma alternativa divertida ao respeitinho pelintra vigente no meio. Na altura, os alvos do dr. Jardim tinham rosto e, presume-se, possibilidade de resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devagarinho, porém, a inimputabilidade do dr. Jardim foi crescendo, à medida que as suas ambições de um papel na política ‘central’ diminuíam. E o resultado não espanta: enquanto o público abandona o circo, carrega-se nas palhaçadas para seduzir os espectadores que restam. No exercício, a piada atenua-se e, um dia, desaparece de vez. No caso do dr. Jardim, desapareceu agora. Atacar gente indistinta é apenas cobarde. Atacar imigrantes, por definição mais indefesos e dependentes, é apenas uma pulhice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antigamente, pelo Carnaval, o dr. Jardim fantasiava-se de selvagem. Já não precisa da fantasia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 12 de Julho de 2005&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-112118481446527811?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/112118481446527811'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/112118481446527811'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/07/madeira-extica.html' title='Madeira exótica'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-112093446719523484</id><published>2005-07-09T18:39:00.000Z</published><updated>2005-07-09T18:41:07.200Z</updated><title type='text'>Homem-a-dias: 9 de Julho</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Quem descobrir o nexo entre uma cançoneta da Madonna e a extinção da pobreza ganha o Nobel da Economia. Quem desco&amp;shy;brir a hospitalidade pátria ganha um fim-de-semana na Madeira. Quem descobrir Machado de Assis ganha.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIA 2, SÁBADO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A miséria alheia é a sorte de Bob Geldof. Em 1984, o cavalheiro viu um programa sobre a fome na Etiópia e, em vez de mudar de canal, decidiu chamar a atenção dos media através de uma cantiga. A cantiga, que reuniu todo o esterco da pop britânica, foi lançada em Dezembro e lamentava que os infelizes etíopes não soubessem que estávamos no Na&amp;shy;tal. Visto que os infelizes etíopes são maioritariamente muçulmanos on animistas, era como dedicar o Ser Benfiquista à claque do Porto. Ninguém se importou: Do They Know It's Christmas? vendeu imenso e convenceu Bob Geldof de que tinha uma missão a desempenhar,&lt;br /&gt;A missão consistia em nutrir milhões de africanos e em massacrar, com refugo vagamente "musical", milhões de ocidentais. 0 Live Aid, realizado em 1985, cumpriu a segunda tarefa. Embora Bob Geldof tenha assegurado que os lucros dos concertos foram inteirinhos "para as pessoas que precisam", não se notou muito que a pessoa mais precisada se chamava Mengistu Hai-le Mariam, o ditador local, a quem o dinheiro veio a calhar para fortalecer as tropas. Excepto pelos soldados, que passaram a comer indiscutivelmente melhor, o etíope médio não sentiu grandes abalos na dieta. Quer dizer, na verdade, sentiu: a fome, que é um instrumento usado na região para conter eventuais rebeliões, aumentou, graças a um exercito mais capaz de a implementar. Graças ao Live Aid.&lt;br /&gt;Vinte anos passados, a manutenção do drama africano e as prováveis debilidades na sua conta bancaria levam Bob Geldof a reincidir. O Live 8 é o Live Aid que, em lugar de recolher fundos, procura motivar os "países ricos" a perdoar a divida dos "países pobres". Mas a essência da caridade mantém-se, e terminara fatalmente no reforço bélico dos dementes que mandam em África.&lt;br /&gt;Ao contrario daquilo em que Bob Gel&amp;shy;dof finge acreditar (e em que alguns tontos acreditam de facto), o problema de África não passa pela escassez alimentar: passa pela escassez democrática. Removido o socialismo despótico que é regra de Angola ao Zimbabwe, a coisa só poderá progredir. Troque-se Madonna pela privatização da propriedade, os U2 pela liberalização do comércio, a Mariza pela abolição dos obstáculos fiscais à iniciativa particular, os Pink Floyd pelo fim das guerras civis. Bob Geldof por eleições justas e pronto.&lt;br /&gt;O engraçado é que o circo do Live 8 continua a culpar as democracias, o poder do mercado e a globalização, justamente o que África não tem e necessita. E tudo isto ante a complacência de Blair, Bush e restantes senhores do mundo livre. Aliás, excessivamente livre: há pelo menos 20 anos que o sr. Geldof devia estar preso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIA 5, TERÇA-FElRA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O dr. Sampaio sugeriu que Portugal repensasse a oferta turística. Segundo o Presidente da Republica, parece que o nosso "produto sazonal de sol e praia" perde em comparação com os países mediterrânicos e já não entusiasma ninguém. Nada a opor. A questão é: retirados o sol e a praia, que "produtos" podemos oferecer?&lt;br /&gt;0 campo é uma vastidão sem vivalma, que ainda por cima tem o tique de irromper em chamas no Verão. O património, historicamente muito inferior ao padrão europeu, foi varrido a expensas da "modernidade". A gastronomia? Seria uma hipótese, se a própria Agência de Segurança Alimentar não tivesse anunciado esta semana que um número indeterminado de restaurantes é entreposto certo para os cuida dos intensivos.&lt;br /&gt;Sobra a hospitalidade, a lendária hospitalidade indígena. Desde que a encontremos. Ontem, enquanto o dr. Sampaio se aliviava das suas preocupações, o chefe de uma região turística entretinha-se a insultar chineses e indianos. Seguiu-se o habi&amp;shy;tual tumulto indignado: é inadmissível, é intolerável, etc. A verdade e que o dr. Alberto João Jardim se limitou a dizer em publico o que milhões de Portugueses opinam em privado sobre a concorrência asiática. E sobre tudo o que a estranja nos envia de resto.&lt;br /&gt;Como e do conhecimento geral, os afri&amp;shy;canos são fonte de insegurança e os moços do Leste isco de gangues organizados. Os turistas, propriamente ditos, também não suscitam encómios. Os ingleses e os alemães que nos tocam são pés-rapados. Os americanos, felizmente poucos, são uns imperialistas, que julgam mandar nisto. Os franceses, esses peneirentos, escolhem outras paragens. E nós sabemos bem o que é que os espanhóis querem.&lt;br /&gt;Mesmo "repensado", o turismo nacional não promete. O Governo é que promete o aeroporto da Ota, o qual talvez venha a beneficiar do trafego que o justifica. Não para receber estrangeiros, mas para levar os que ainda andarem por cá, em férias, trabalho ou vadiagem. De qualquer das formas, ao engano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIA 6, QUARTA-FEIRA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Há uns meses, na revista Ler, Abel Barros Baptista disse de mim o que o dr. Jardim não diria dos imigrantes. Na altura, não reagi. Sendo rancoroso, aproveito agora para informar que o dr. Baptista dirige, na Cotovia, o Curso Breve de Literatura Brasileira, 16 livros de Machado de Assis a Nelson Rodrigues, passando por Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Acrescento que seria difícil imaginar-se melhor e termino aliviado. A vingança serve-se fria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 9 de Julho de 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-112093446719523484?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/112093446719523484'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/112093446719523484'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/07/homem-dias-9-de-julho.html' title='Homem-a-dias: 9 de Julho'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-112058078214656672</id><published>2005-07-05T18:18:00.000Z</published><updated>2005-07-12T16:15:11.206Z</updated><title type='text'>As obras, as ideias e o macho</title><content type='html'>O vice-presidente do PPM justifica a escolha de uma concorrente da “Quinta das Celebridades” para candidata à Câmara de Cascais com os argumentos de que a senhora “é uma mulher independente, que não precisa de macho, que se preocupa muito com as questões sociais e que é uma visitadora nata.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parecem-me critérios válidos. Pelo menos, são uma alternativa possível às razões que levam um benfazejo qualquer a sacrificar-se em em prol da “sua” câmara. Normalmente, os heróis das autárquicas candidatam-se pelos mesmos aborrecidos motivos: porque têm “ideias” ou porque têm “obra”. Não custa perceber a distinção, já que a rapaziada das ideias é composta pelos caloiros e o pessoal da obra reúne os veteranos do ramo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que os conceitos não devem ser tomados à letra. No jargão municipalista, “ter obra” significa que já se presidiu a um lugarejo tempo suficiente para arrasá-lo quase por completo. Quanto a “ter ideias”, quer dizer que o candidato estreante tem a ideia de que talvez fosse preferível ser ele próprio, e não o cacique do costume, a prosseguir o arraso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O elevado grau de destruição de um município não diminui o apetite dos autarcas e dos desafiantes por tentar agravá-lo. Tirando a entulheira acabada do Marco de Canaveses, que lembra Nagasaki após a bomba, mas com pior saneamento e uma igreja do Siza Vieira, parece haver sempre lugar para nova miséria. Com jeitinho, cabe mais um “empreendimento-âncora”, um pólo “centralizador”, uma resma de “acessibilidades”. A este exercício de aniquilação contínua chama-se, naturalmente, “fazer cidade”. E quem a faz assim tem obra. Em certos casos, tem também um apreciável conjunto de bens em nome alheio e relativo prestígio entre os selvagens da paróquia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo tradicionalista, o povo prefere a obra às ideias. Regra geral, o coração do eleitorado inclina-se para os autarcas que já dispuseram de muitos anos a “fazer cidade” e a distribuir empregos. Questão de hábito, que não se deixa sequer influenciar pelo facto de o sujeito estar eventualmente indiciado por corrupção ou abuso de criancinhas. Como as sondagens têm demonstrado, aliás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Norte a Sul, os exemplos são célebres e não vale a pena citar nomes. Alguns são mulheres, alguns são independentes, uns tantos declaram imensas preocupações sociais, um anda há dois anos em visita ao Brasil e, que se saiba, poucos precisam de macho. Mas, ao contrário da senhora do PPM, nenhum reúne todos os predicados. Para cúmulo, a revelação monárquica não possui obra nem corre riscos de um dia vir a ter uma única ideia. Ai, se eu morasse em Cascais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 5 de Julho de 2005&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-112058078214656672?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/112058078214656672'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/112058078214656672'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/07/as-obras-as-ideias-e-o-macho.html' title='As obras, as ideias e o macho'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-112048007229361024</id><published>2005-07-03T23:24:00.000Z</published><updated>2005-07-04T12:27:52.300Z</updated><title type='text'>Homem-a-dias: 1 de Julho</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;O Bloco resiste à opressão vigente no meio de rebanhos e pastores. Os gays resistem à discriminação entre sedas e silicone. O português médio não resiste aos coletes reflectores, por acaso bem bonitos.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIA 21, SEXTA-FEIRA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Através de visões apocalípticas ou 11 invocações do "contexto social", não houve criatura que não tentasse explicar o arrastão de 10 de Junho. Não houve explicação tão interessante, diga-mos, quanto a da dra. Ana Drago, deputada da nação e do Bloco de Esquerda. Para a dra. Drago, o arrastão não existiu. Sucedeu apenas que a rapaziada entrou praia adentro em fuga de "uma carga policial indiscriminada". A ser verdade, eu gostaria de perceber como é que uma carga po&amp;shy;licial sobre centenas de pretos numa área repleta de brancos consegue, ainda assim, manter-se indiscriminada.&lt;br /&gt;Provavelmente, não merece a pena o esforço. Estamos no sinuoso terreno dos desejos íntimos. A dra. Drago limitou-se a imaginar os arruaceiros de Carcavelos numa situação que ambiciona para ela própria, inspirada nos mitos de uma infância bloquista que, pelos vistos, demora a passar. Com as devidas variantes, o caso aproxima-se da neurose de transferencia, definida por Freud. Parece que ha cura.&lt;br /&gt;Até que a cura chegue, a dra. Drago continuará a suspirar por investidas da polícia, interrogatórios, censura e todo o entulho ditatorial que legitima, por oposição, o verdadeiro resistente. Convenhamos: ser trotskista em democracia não tem grande piada. Ser trotskista e deputado de um parlamento eleito deve ser uma angústia. É chato protestar contra a globalização e conduzir um Toyota. É chato fingir marginalidade e ter acesso solto à imprensa. É chato combater o sistema e usufruir das respectivas mordomias. É chato provocar e não ofender vivalma.&lt;br /&gt;Felizmente, a esta gente não custa trocar a realidade pela alucinação. É por isso que, no fim do mês, o Acampamento dos Jovens do Bloco promoverá um workshop sobre Desobediência Civil na Serra da Estrela. Não sei se a dra. Drago participará como docente ou aluna. Sei que, entre montanhas, ribeiros e cabritos, o bando resistira estoicamente a fascismos e torturas imaginários. Alguns audazes poderão mesmo baixar à clandestinidade na Covilhã ou adquirir um queijinho proibido. não há dúvida de que um outro mundo e possível, embora o mundo em questão se resolvesse melhor com um internamento no Júlio de Matos do que com umas ferias na Beira Alta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIA 25, SÁBADO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Ausente de Lisboa e pouco versado em marchas populares, venho por este sossegado meio solidarizar-me com a marcha do Orgulho Lésbico, Gay, Bissexual e Transgenero (LGBT), que hoje se realizou. E não vejo melhor maneira de o fazer senão confessando profunda vergonha da minha heterossexual idade. A todos os orgulhosos LGBT peço, portanto, desculpa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIA 27, SEGUNDA-FEIRA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Começa hoje a obrigatoriedade dos coletes reflectores nos automóveis. Talvez não acabe hoje a carnificina nas estradas. De alguma forma, especialistas apuraram que a sinistralidade rodoviária está intimamente ligada ao vestuário dos condutores, que teimam em vestir tons morrinhentos, como o beije, o azul-marinho e, nos casos mais irresponsáveis, o cinzento. Confundindo-se com a paisagem envolvente, sobretudo se houver nevoeiro ou se circularem perto dos subúrbios, os baços automobilistas tornam-se presas fáceis para a concorrência. Dai a nova fardamenta, garrida e vistosa. Infelizmente, a modernice sé terá influência na redução dos acidentes em que nos encontramos no exterior do veículo. Para os restantes azares, em que o pessoal se espatifa no interior e que constituem uns 99,47% dos desastres totais, é provável que a União Europeia prepare em breve outra linha de pronto-a-vestir.&lt;br /&gt;Certo é que os Portugueses adoraram a medida. A portaria que regulamenta a lei do colete foi publicada há três meses, e há três meses que milhares de coletes embelezam os assentos dianteiros de milhares de carros. Ou seja, aos cidadãos não bastou comprar o produto com antecedência, tiveram que mostrá-lo a olho nu, para que não restassem dúvidas do seu entusiasmo.&lt;br /&gt;Curioso. Não vamos longe naquilo que importa. Não somos excessivamente produtivos, organizados, asseados ou pontuais. E, mesmo sem frequentarmos o workshop do Bloco de Esquerda, não so&amp;shy;mos nada cumpridores das leis convencionais e sensatas. Mas temos um talento inato para acatarmos com contagiante zelo determinadas regras, escritas ou tácitas, desde que desprovidas de sentido.&lt;br /&gt;A irracionalidade parece ser, de facto, o critério principal. Não é o único. Após laboriosos estudos, conclui que os portugueses só apreciam normas que, alem de ridículas, impliquem a exibição pública de objectos, de preferência susceptíveis de serem pendurados. Se o Governo ou um SMS em cadeia decretassem para Outubro o uso forçado de tamancos (graças aos céus, por enquanto não decretou), muitos de nós passariam o Verão com os tamancos ao pescoço, em demonstração prévia de brio.&lt;br /&gt;No ano passado foram as bandeiras. Em 1999, os lençóis por Timor. Este é o ano dos coletes: quem não os possuir arrisca multa; quem não os desfraldar ante a comunidade incorre em casmurrice e, quiçá, falta de patriotismo. Escusado é alimentarmos esperanças sobre os demais aspectos do comportamento ao volante. O limite de velocidade não é fácil de pendurar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 1 de Julho de 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-112048007229361024?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/112048007229361024'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/112048007229361024'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/07/homem-dias-1-de-julho.html' title='Homem-a-dias: 1 de Julho'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111997652346852388</id><published>2005-06-28T18:32:00.000Z</published><updated>2005-06-28T16:35:23.473Z</updated><title type='text'>A luta pela derrota</title><content type='html'>As dificuldades do dr. Carrilho em distinguir as esferas pública e privada suscitaram inúmeras comparações com o dr. Santana. Não está mal visto, embora as afinidades sejam muito mais profundas. Claro que ambos partilham a urgência em exibir a família, fazer as capas da Imprensa dita “social” e proferir disparates “íntimos”. Mas isto não os distingue do contemporâneo médio: qualquer concorrente ao “Big Brother” ou repositora de “stocks” em Alfragide revela as mesmíssimas ambições.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que principalmente aproxima os drs. Carrilho e Santana é um bizarro desejo de arruinar os objectivos que definiram para si próprios. Na recente corrida a S. Bento, o dr. Santana fez o que pôde para que não o elegêssemos primeiro-ministro. As metáforas da incubadora e das facadas, o luto pela Irmã Lúcia e a suspensão dos comícios a pretexto do Carnaval não enganaram ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por incrível que pareça, o dr. Carrilho tem levado a autodestruição ainda mais longe. A sua campanha à Câmara de Lisboa é o maior aglomerado de falhanços desde que Edward Kennedy celebrou as suas hipóteses presidenciais afogando uma rapariguinha num lago e fugindo de seguida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro, foi o acordo com o PCP que se esvaiu. Depois, numa demonstração cabal da sua visão para a cidade, o dr. Carrilho produziu uma série de cartazes em que a imagem de Lisboa surge invertida. Corrigido o ligeiro erro, irrompeu nova vaga de cartazes, que por sua vez taparam fachadas de edifícios, esconderam semáforos e para cúmulo, motivaram uma cartinha da Entidade de Contas e Financiamentos Políticos, a pedir esclarecimento dos respectivos custos. No passado dia 7, o dr. Carrilho lançou oficialmente a campanha, com o lendário vídeo familiar, que alimenta há semanas o anedotário nacional, e que além de incluir esposa e filho, beneficia igualmente de promessas aos “cidadões” (sic).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não acredito que o dr. Carrilho não saiba soletrar “cidadãos”. Eu não acredito que o dr. Carrilho pense que insultar jornalistas rende votos. Eu não acredito que o dr. Carrilho se isole em “reflexão” a fim de comover o povo. Eu acredito que o dr. Carrilho não só quer perder as eleições como faz questão de ser o principal responsável pela derrota. A bem do PS, o eng. Sócrates já removeu os autores da campanha do dr. Carrilho. Mas seria preciso, como de resto começa a constar, que removesse o dr. Carrilho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À semelhança de Santana, o dr. Carrilho é na aparência uma personagem cómica, no sentido em que se presta à galhofa geral. À semelhança de Santana, o dr. Carrilho é na essência uma figura trágica. Enquanto a comédia nos divertir e a tragédia reverter sobre ele, não há nisso problema nenhum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 28 de Junho de 2005&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111997652346852388?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111997652346852388'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111997652346852388'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/06/luta-pela-derrota.html' title='A luta pela derrota'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111974793539672531</id><published>2005-06-24T20:03:00.000Z</published><updated>2005-06-26T01:06:43.976Z</updated><title type='text'>Homem-a-dias: 24 de Junho</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;O dr. Carrilho ameaça não abandonar esta coluna. A classe docente ameaça não abandonar o estado de greve. E os meus amigos ameaçam abandonar-me, se eu insistir na RTP Memória&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIA 18, SÁBADO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Ainda a propósito do famoso vídeo, prossegue a saga da família Carrilho contra o mundo. Em entrevis&amp;shy;ta ao Expresso, e decerto apetrechado com diagnósticos clínicos comprovativos, o dr. Carrilho declara os jornalistas débeis mentais. Que jornalistas? Todos ? Uma selecção aleatória? Os que não gostam do dr. Carrilho? Um medico meu conhecido, entretanto irradiado pela Ordem, acha que não gostar do dr. Carrilho é sintoma de grave perturbação, susceptível de internamento.&lt;br /&gt;De qualquer modo, e dado que eu próprio terei algumas fraquezas de raciocínio, não aceitei à primeira que um filosofo desta dimensão perca tempo e verbo a insultar energúmenos. Aceitei a segunda. A menos que se seja Alberto João Jardim, em Portugal ofender os profissionais da imprensa é meio caminho andado para se beneficiar de uma imprensa favorável. Um exemplo? Não custa nada. Álvaro Cunhal abjurou durante décadas a liberdade dos media, apavorado com a circulação de opiniões distintas das vinculadas no &lt;em&gt;Avante!&lt;/em&gt; ou no &lt;em&gt;Pravda&lt;/em&gt;. Em troca, salvo ligeiras excepções, os media trataram-no sempre com imaculado respeito. E, na sua morte, certos locutores de telejornais vestiram gravata preta e ameaços de choro.&lt;br /&gt;Se o dr. Carrilho não se ficar pelos distúrbios do foro psiquiátrico e alargar as injurias a outros âmbitos (sugestões: os jornalistas cheiram mal da boca; os jorna&amp;shy;listas têm mulheres feias; os jornalistas não possuem 38.760 caracteres de ideias para Lisboa), é quase garantido que, como se diz no jargão da bola, será levado ao colo até às autárquicas, que o nosso herói garante ir "ganhar folgadamente". Até por&amp;shy;que o seu adversário e sonso, no sentido que Michel Foucault deu à expressão, presume-se.&lt;br /&gt;Só falta o povo aprender a distinguir o sonso do sábio e votar em massa neste ul&amp;shy;timo. O dr. Carrilho pode tentar insultar o povo a ver se resulta (o famoso vídeo já ofende bastante; a entrevista ofende mais). Mas é provável que o eleitorado não seja tão masoquista quanto a classe jornalística. Nem tão débil mental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIA 20, SEGUNDA-FEIRA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Para garantir os exames do 9° ano, o ministério da Educação obrigou os professores à prestação de serviços mínimos. No Fórum Mulher da TSF (não confundir com o Fórum Chinês, o Fórum Operador de Alfaia Agrícola ou o Fórum Bebé Proveta, na mesma estação), uma profissional do ramo espumava-se: "Este Governo é fascista!" Apesar das definições mais restritas constantes dos manuais de política, é sabido que o cognome fascista se aplica a qualquer badameco que nos faca sair da cama de manhã, a fim de realizar actos absurdos como, por exemplo, trabalhar. Visto que, sempre que não esta em greve, de férias ou de baixa, boa parte dos professores do ensino publico se levanta a horas impróprias, é fácil admitir que todos os governos foram, são e serão fascistas.&lt;br /&gt;Que os docentes persistam em servir tão infame patrão é, para alguns, um mistério. Alternativas não faltam: podiam emigrar, descer à clandestinidade, mudar-se para o sector privado. Ao invés, eles incompreensivelmente teimam em manter o vinculo a um Estado que os maltrata.&lt;br /&gt;Incompreensivelmente, virgula. A mim, ninguém me convence de que os "setôres" não querem combater por dentro, destruindo o malvado regime desde o seu âmago. Aliás, basta olhar de esguelha o panorama da Educação, e, já agora, os exa&amp;shy;mes do 9.° ano, para se concluir que a luta tem sido um sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIA 21, TERÇA-FEIRA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Agora que as manifestações estão de novo em voga, temo que nem cem mil populares entusiasmados no Rossio possam agradecer devidamente à RTP Memória o serviço que presta aos cidadãos, sem distinção de classe, raça ou tara. Para quem sente um desejo súbito de varar a noite na contemplação do Boavista-Belenenses de 1992/1993, a RTP Memória ajuda. Para quem suspira por Manuela Bravo em 1982, a RTP Memória consola. Para quem falhou o telejornal de 12 de Outubro de 1977, a RTP Memória providencia. Para quem consegue rever a entrevista de "mestre" Almada ao Zip-Zip sem cortar os pulsos, a RTP Memória transmite.&lt;br /&gt;Eu prefiro os musicais. A programação geral, embora magnifica de um perverso modo, não é particularmente saudosista: excepto pelos telefones portáteis e o parque automóvel, o pais mudou menos de 1980 para cá do que às vezes se pretende. Mas nas rubricas (ai, essa palavra tão RTPiana) de música há uma tristeza pessoal e muito nossa, a que não sou capaz de resistir. Podem ser aquelas coisas anódinas, em que um artista interpreta dez cantigas em meia hora, ou os espaços utilizados por Represas, Simone ou Paco Bandeira para apresentar as putativas revelações do meio.As revelações são invariavelmente jovens, vazios de talento e repletos de ambição. Vão levar o álbum para a estrada, vencer no mercado internacional, chegar longe. E depois uma pessoa olha o canto superior do televisor, lê "1988" e percebe que eles não levaram, não venceram, não chegaram. Hoje são bancários, que graças à RTP Memória revêem as ilusões no sofá, e provavelmente choram. E eu, um senti&amp;shy;mental, só não choro com eles porque os programas em causa me dão uma vontade danada de rir&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 24 de Junho de 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111974793539672531?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111974793539672531'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111974793539672531'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/06/homem-dias-24-de-junho.html' title='Homem-a-dias: 24 de Junho'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111939813227173184</id><published>2005-06-21T23:52:00.000Z</published><updated>2005-06-21T23:55:32.276Z</updated><title type='text'>Um país a preto e branco</title><content type='html'>No 10 de Junho, 500 (ou 200? Ou 40?) moços, ao que consta de ascendência cabo-verdiana, juntaram-se na praia de Carcavelos e varreram a dita. De acordo com sociólogos e afins, isto constituiu um sinal de revolta, e uma afirmação “étnica” e “cultural”. Para os banhistas, foi um roubo, e um rebuliço desgraçado. Em consequência, no sábado, 400 (ou 200? Somos terríveis nas contas, não admira o défice) rapazes encontraram-se no Martim Moniz para se declararem “brancos”, reclamarem da criminalidade e, não fosse a polícia, cometerem ligeiros crimes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu agradeço aos céus por residir a muitos quilómetros de ambos os lugares. Não gosto de manifestações, protestos colectivos, “arrastões” ou ajuntamentos de qualquer espécie. Toda a actividade que necessita de ser realizada em bando revela a cretinice inata de cada um dos intervenientes, e aconselha distância às pessoas civilizadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que não impede a questão: os pretos “revoltados” e os brancos “nacionalistas” não têm onde passar os feriados e os fins-de-semana? O ministério da Educação devia providenciar a esta gente um regime de ocupação dos tempos livres. Em simultâneo, daria uso à classe docente, que a julgar pelas revoltas em que também gasta os seus dias, anda excessivamente ociosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, caso não sejam absolutamente analfabetos, o ideal seria os agitadores de Carcavelos e do Martim Moniz ficarem sossegados em casa, a ler um bom livro. Talvez aprendessem que a cor da pele é acidente, não motivo de orgulho. E quanto à afirmação “cultural”, não só duvido que se obtenha pela desordem pública, como convém lembrar que nem Cabo Verde nem Portugal possuem um património tão magnífico que apeteça sair à rua a celebrá-lo. As mornas e o fado não justificam tamanha vaidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Folclore à parte, é certo que existe um problema. Pior: existem vários, todos comuns às metrópoles ocidentais. O crescimento urbano. A imigração. Os guetos. O crime. A percepção do crime. O racismo. Aborrecido por estes azares, o dr. Sampaio condena “a xenofobia, o ostracismo e a demagogia mediática” e pede respeito pela lei. Palavras justas, tempo perdido. Perdoem a banalidade, mas não podemos desejar os benefícios do progresso sem pagar os respectivos custos. Quer dizer, poder podemos. Suspeito é que não adianta nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por desfastio, nomeiam-se comissões, elaboram-se leis, apoiam-se “associações” e, se a ocasião permite, acontece o proverbial discurso regenerador. Entretenimento puro: enquanto se procura a solução do problema, esquece-se que há problemas sem solução. No máximo, há a polícia. Quando a polícia não se encontra revoltada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 20 de Junho de 2005&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111939813227173184?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111939813227173184'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111939813227173184'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/06/um-pas-preto-e-branco.html' title='Um país a preto e branco'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111912291279839149</id><published>2005-06-18T19:22:00.000Z</published><updated>2005-06-18T19:31:18.910Z</updated><title type='text'>Homem-a-dias: 17 de Junho</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Enquanto jovens negros resolvem o problema da limpeza das praias, o país pasma com a sensatez do jovem Dinis Maria e despede-se, com três décadas de atraso, dos dois "heróis" do PREC.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIA 11, SÁBADO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Após o "arrastão" de ontem, que lhes deu uma excelente alternativa às comendas do dr. Sampaio, as televisões voltaram hoje a Cascais, para inquirirem os populares. Sentado numa esplanada, um popular sentenciou: "Ou (os pretos) se comportam, ou têm de voltar para a terra deles." Não percebi. Segundo todas as notícias, eles voltaram logo para a Amadora, E de comboio, ao que sei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIA 12, DOMINGO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Alguns despeitados da imprensa enxovalharam o dr. Carrilho, por cau&amp;shy;sa de um filme promocional da candidatura deste a Câmara de Lisboa. Para quem não sabe, o filme conta com a participação da esposa e do filho do candidato, capturados em amena conversa:&lt;br /&gt;- Nós gostaríamos que o presidente da Câmara fosse o papá, não é, Dinis?&lt;br /&gt;- Papá. Papá. Papá.&lt;br /&gt;Tomando a resposta por um assentimento, a esposa revela a um público ávido que o jovem Dinis "tem sempre Lisboa a seus pés", um fenómeno bizarro, dado que "o Manel passeia pela cidade com o filho às costas". Depois, a esposa diz outras coisas, igualmente importantes ou, no mínimo, dignas de registo, e diversos conhecidos "do Manel" pronunciam-se acerca dele, curiosamente de modo favorável.&lt;br /&gt;Certo é que os profissionais da inveja ficaram irritados e irritaram dois pacientes compinchas do candidato, Daniel Sampaio e Eduardo Prado Coelho. Este ultimo, prontamente, explica o rancor: a semelhança dos grandes homens, presume-se que inclua Hitler e aquele sr, Malato, o dr. Carri&amp;shy;lho "suscita grandes paixões. Ou se ama, ou se odeia." Toldado pela objectividade, o dr. Prado Coelho recusa a tese da "instrumentalização da família" e mantém que Carrilho continua em "melhores condições" para conseguir a eleição, graças ao "lado imaginativo das medidas avançadas" e respectiva "pertinência, ornamentação e exequibilidade".&lt;br /&gt;É bem possível. Por palavras diferentes, estas em português de gente, a sra. Carri&amp;shy;lho também garante que o marido tem "carisma" e tem "ideias" ("boas" e "simples"). Tem, igualmente, um herdeiro a altura na pessoa do Dinis, que possui o "sorriso do pai, cumprimenta as pessoas, é muito simpático". Não tarda, anda por aí a suscitar grandes paixões.&lt;br /&gt;O que nos leva ao ponto da questão. Como o dr. Carrilho recentemente descobriu, "Lisboa é a capital, temos que assumir o desígnio da capitalidade". E, se calhar, o "desígnio da capitalidade" não se contenta com um reles presidente da Câmara: exige toda uma dinastia. Enquanto não chega o seu tempo de assumir desígnios e de percorrer mercados, exibindo o sorriso, cumprimentando transeuntes e espalhando simpatia, o pequeno Dinis concorda sem restrições: "Papá. Papá, Papá." Até na simplicidade das ideias sai ao pai. João Soares, outro rebento célebre, não diria melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIA 14, TERÇA-FEIRA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Eu era criança, e lembro-me. Ao contrario do que era então habitual, a revolução de 1974 não transformou a minha família num bastião de velhos anti-fascistas, dos que evocavam por tudo e por nada um passado de luta e abnegação ante um regime hostil. Regra geral, o salazarismo não lhes fora agradável ou simpático. Permitiu-lhes, porém, levar as vidas da melhor maneira que puderam, e isso, para quem cresceu habituado as pequeníssimas glórias da classe media urbana, com razoável ascensão social pelo meio, era quase suficiente. Ainda assim, lembro-me do meu pai, por acaso amigo de Otelo, festejar o 25 de Abril de braços no ar, aos gritos de "liberdade". Uns dias passados, o meu pai assinalou o regresso de Álvaro Cunhal com gritos em sentido diverso. Em Julho, a partir do II Governo Provisório, liderado por um tal Vasco Gonçalves, a gritaria deu lugar ao murmúrio angustiado. Durante o "verão quente" de 1975, os meus pais e avos juntavam-se ao serão e comentavam os desenvolvimentos da situação, quer em Lisboa, quer nos respectivos empregos. O tom dos comentários não podia ser mais sombrio.&lt;br /&gt;Certa ocasião, o nome do meu pai apareceu pintado numa parede de Matosinhos, acrescido de epítetos diversos, dos quais o menos ofensivo era "capitalista". Essa era uma pratica comum à época, com o fim elevado de denunciar à comunidade os inimigos do povo. À época, não se estranhava que um engenheiro técnico, assalariado de uma empresa pública e cujo solitário bem declarável era um automóvel pelintra, fosse "capitalista". A designação possuía carácter vago, e genericamente cobria todos os que, nos plenários ou na rua (era difícil distinguir), não se empenhavam na construção instantânea do socialismo.Desde esse episódio, percebi que alguma coisa tinha mudado decisivamente. Se possível, para pior. O meu léxico foi enriquecido com a palavra saneamento, uma das duas que entraram com fulgurante insistência nas conversas familiares. A outra palavra era Brasil. Entre tropelias várias, ambas só caíram em desuso meses depois, quando um desconhecido militar chamado Eanes retirou o medo lá de casa, retirando o país a Álvaro Cunhal e a Vasco Gon&amp;shy;çalves. Agora, com escassas horas de diferença, ambos partiram definitivamente e o pais político chora absurdas lágrimas. Mas para minha sorte, e para sorte de milhões de Portugueses, já ambos tinham partido há trinta anos. E não deixaram saudades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 17 de Junho de 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111912291279839149?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111912291279839149'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111912291279839149'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/06/homem-dias-17-de-junho.html' title='Homem-a-dias: 17 de Junho'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111877583720163738</id><published>2005-06-14T19:01:00.000Z</published><updated>2005-06-14T19:04:50.763Z</updated><title type='text'>Elogios fúnebres</title><content type='html'>Com ou sem luto nacional, nas mortes de Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal a ladainha foi praticamente unânime e deliciosamente grotesca. Pelos vistos, ambos contribuíram imenso (”à sua maneira”) para o País. Ambos (pese as “naturais divergências políticas”) partem cobradores da nossa gratidão. Sobretudo, ambos eram pessoas de firmes “convicções” e inabalável “coerência”. Sem dúvida. Os falecidos deixam-nos sempre legados assim fascinantes. E, dada a solenidade da hora, convém respeitá-los.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, não estou para aí virado. Desde logo, e por muito que me esforce, não consigo encontrar a coerência do Companheiro Vasco, que serviu fielmente uma ditadura de direita e depois fez tudo para implantar uma barbárie de esquerda. Também me custa perceber de que modo a convicção, no sentido cego que lhe atribuiu Cunhal, não é a mais repugnante das virtudes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já sobre o contributo destes dois vultos para o País, guardo de facto uma vaga ideia. No tempo de acção e na influência, não se pode compará-los. Ainda assim, e se não me engano, um e outro contribuíram com inegável empenho para que isto se transformasse numa Cuba, ou numa Albânia (aqui, as opiniões dividiam-se), mas com certeza num altar de devoção aos prodígios do totalitarismo soviético. Se alguma coisa lhes devemos, é o fracasso dos seus intentos. E, a menos que sejamos comunistas, malucos ou masoquistas, é a alegria desse fracasso que devemos agora evocar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que “alegria” não significa abrir garrafas de champanhe, como a queda de um determinado avião em Camarate abriu. Ou sequer esboçar o proverbial sorriso de troça quando se evoca a queda, mais subtil e igualmente decisiva, de uma particular cadeira. Trata-se apenas de reconhecer que, mesmo com défice, atraso, corrupção e a geral pelintrice pátria, habitamos um mundo incomparavelmente melhor do que o previsto pelas convicções e pela coerência dos senhores do PREC. Volto atrás e retiro “alegria”: talvez a palavra correcta seja “alívio”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De resto, as minhas sinceras condolências às famílias, caso as aceitem. Até por uma questão de basilar humanidade, o respeito que sentimos por Álvaro Cunhal e Vasco Gonçalves no momento das respectivas mortes é certamente maior que a consideração deles pelo assassínio de milhões, que a coberto do dogma ignoraram, ou legitimaram, ou, se formos justos, defenderam. Mas do mero respeito à homenagem vai um passo enorme, a enormidade que é ver uma democracia homenagear os seus principais inimigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 14 de Junho de 2005&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111877583720163738?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111877583720163738'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111877583720163738'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/06/elogios-fnebres.html' title='Elogios fúnebres'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111836536821518631</id><published>2005-06-09T22:00:00.000Z</published><updated>2005-06-10T01:02:48.226Z</updated><title type='text'>Homem-a-dias: 9 de Junho</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Era bom que os Portugueses ajudassem o eng. Sócrates a cumprir ao menos uma promessa. Era bom que os Portugueses pudessem comprar livros sem serem notícia. Nabokov é bom sinal.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIA 5, DOMINGO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Os impostos sobem. A despesa do Estado ameaça o habitual desatino. O choque tecnológico esvaiu-se. O défice deixou de ser uma "questão ideológica" (sic) e transformou-se numa inesperada calamidade. 0 reformismo socrático fica um nadinha acanhado face as amplas reformas dos seus ministros. E o fim das pensões vitalícias dos políticos revelou-se apressado. São as famosas "excepções", que o Governo vai abrindo para deixar entrar o mundo real. De excepção em excepção, todas as promessas do eng. Sócrates falecem a uma rapidez curiosa em tão jovem líder. Menos uma.&lt;br /&gt;Quando o eng. Socrates jurou dar trabalho a 150 mil criaturas, os cínicos tomaram a garantia por uma alucinação, fenómeno frequente em campanha. E riram-se. Ago&amp;shy;ra, que o Governo se aproxima dos três meses em funções e que o número de socialistas e afins designados para cargos públicos se aproxima dos 900, os cínicos riem com menor vigor. Como dizia em tempos o actual alto comissário Não Sei Bem Do Quê, é só fazer as contas. 900 nomeações em 90 dias, grosso modo, significam dez empregos diários. Considerando que o PS tem um mandato previsto de 1461 dias, a legislatura terminara com 14.610 cidadãos satisfeitos. Ou seja, um decimo da promes&amp;shy;sa inicial. É um esforço louvável. Mas não suficiente.&lt;br /&gt;Para alcançar os 150 mil, número magico, há duas saídas. Uma exige que o Gover&amp;shy;no comece imediatamente a nomear 100 ociosos partidários por dia, o que talvez implicasse problemas logísticos. A outra obriga o eng. Sócrates a permanecer no poder durante 10 mandatos. Bem sei que o primeiro-ministro, do alto do seu altruísmo, se propôs limitar o exercício do cargo a 12 anos. Mas quem abriu tantas excepções não se negara ao sacrifício. E o eleitorado que o escolheu, em respeito pela própria capacidade de julgamento, de certo gostara de ver uma promessa cumprida. É pois altura de as pessoas se empregarem a fundo na eleição sucessiva e quase vitalícia do eng. Sócrates. Até porque, se não se em&amp;shy;pregarem nisso, e não forem próximas do PS, a prazo não se empregarão em mais lado nenhum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIA 6, SEGUNDA-FEIRA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Regresso à Feira do Livro (do Porto), após dois ou três anos de ausência. Nenhuma surpresa: algum público, dezenas de quiosques das editoras e, naturalmente, livros, uns bons, outros atrozes e uma maioria silenciosa de irrelevâncias. De resto, como em todas as coisas. O que nem todas as coisas parecem justificar é o circo que as feiras do livro regularmente atraem. Em cada edição das ditas, jornais, rádios e televisões empurram solícitos repórteres para o Eduardo VII e o Palácio de Cristal, a fim de cobrir o acontecimento: ali, atenção, anda gente que se prepara para adquirir livros.&lt;br /&gt;Em países normais, as pessoas compram livros com o mesmo despreocupado prazer com que compram sapatos. E depois lêem os primeiros e calçam os segundos: ambos fazem parte da vida corrente, à semelhança do café com torradas e da mobília da sala. Em Portugal, o exercício é noticia, e envolve uma solenidade peculiar. Antes de mais, não há livros, assim no corriqueiro plural. As feiras são "do Livro". A tutela do "sector" está a cargo do Instituto "do Livro". E note--se que não falamos da Bíblia: certa vez, num telejornal, Adriano Moreira referia as "três religiões do Livro", para a apresentadora interromper logo, intrigada: "Qual livro, senhor professor?"&lt;br /&gt;O tom eucarístico com que rodeamos "o Livro" praticamente nos impede de o ler.&lt;br /&gt;Alias, "ler" é dos verbos que menos utilizamos para acompanhar um livro, perdão, Livro. O Livro devora-se, folheia-se, cheira-se, contempla-se. Lê-lo é uma maçada e, com franqueza, pode ate constituir blasfémia. Aos Portugueses, toldados por séculos de analfabetismo e décadas de iniciativas governamentais, o Livro surge como uma entidade una e divina, cuja intrínseca superioridade é venerada à distancia. É a forma, e não o conteúdo, que interessa. É indiferente tratar-se do Quixote ou do Mein Kampf, do Processo ou do Coisas Doces Sem Açúcar: todos os livros são dignos justamente por serem livros.&lt;br /&gt;Típico terceiro mundo? Há pior. Na inevitável Franca, decorre uma pequena polémica sobre a venda de livros, CD e DVD jun&amp;shy;to com os jornais, a baixo preço. Ao que consta, a moda desvaloriza económica e psicologicamente (?) os "produtos culturais", que se querem sagrados e longínquos. Na cabeça dos franceses, há muito psicologicamente desvalorizada, "cultura" não é apenas tudo o que esta impresso em paginas encadernadas, mas também o que se enfia num disco digital. Acho óptimo. Mas qual disco, senhor professor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIA 7, TERÇA-FEIRA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A propósito do Livro, sugiro um: Opiniões Fortes. A edição, recentíssima, é da Assírio &amp; Alvim, e reúne 22 entrevistas feitas a Vladimir Nabokov e 14 ensaios do próprio. Apesar das confissões, mais ou menos biográficas ou encenadas, o melhor da obra são precisamente as opiniões, nas quais o autor de Lolita arrasa com deleite as piscinas, a musica de fundo, o comunismo e dois terços do moderno cânone literário, incluindo Eliot, Hemingway, Faulkner, Conrad e Mann. Escusado será dizer que podemos, e devemos, discordar. O facto é que Nabokov, repito, é o autor de lolita. E nós não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto Gonçalves – Revista Sábado, 9 de Junho de 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111836536821518631?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111836536821518631'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111836536821518631'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/06/homem-dias-9-de-junho.html' title='Homem-a-dias: 9 de Junho'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111816587471572213</id><published>2005-06-07T17:33:00.000Z</published><updated>2005-06-07T17:37:54.720Z</updated><title type='text'>Uma era de tolerância</title><content type='html'>As reacções da opinião publicada ao circo político movem-se por critérios peculiares. E, às vezes, surpreendentes. Para nos limitarmos à última semana, espantou, por exemplo, que a proposta do CDS para a criação do ‘Dia Mundial da Criança Por Nascer’ fosse recebida por uma discrição quase absoluta. No máximo, podemos presumir os motivos do silêncio: por um lado, entre dias internacionais da Biodiversidade, da Diabetes, do Trabalhador, do Teatro e do Meu Primo Lucas, começa a ser complicado arranjar datas disponíveis, embora esteja convencido de que uma inciativa do Bloco de Esquerda em dedicar um dia qualquer à luta das abortadeiras clandestinas encontrasse espaço e franco aplauso. Por outro lado, o CDS é, ao contrário da referida criança, um partido em Vias de Não o Ser, o que retira algum impacto aos seus murmúrios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas já foi totalmente apropriado que a conferência do dr. Campos e Cunha tenha merecido uma aprovação respeitosa e, em certos casos, entusiasmada. Sumário: no sábado, o senhor ministro das Finanças convocou os jornalistas para esclarecer as notícias que o davam a acumular a reforma do Banco de Portugal com o salário de governante. Em minutos, sem direito a perguntas adicionais, o dr. Campos e Cunha confirmou a acumulação (que toda a gente já conhecia) e reafirmou a estrita legalidade da mesma (o que também não foi novidade). De brinde, justificou a “moralidade” subjacente (afinal, o único ponto em questão) com um argumento esmagador: ele e a esposa serão igualmente afectados pelas alterações em curso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis um choque. No fundo, ninguém esperava que o dr. Campos e Cunha se submetesse, mais a sua pobre família, às restrições que vem exigindo ao cidadão comum. O que corria por aí é que os decretos-leis passariam a conter um artigo que isentava os membros do Executivo (e aparentados) do respectivo cumprimento. Vale que o altruísmo venceu, e que a maioria dos comentadores, mediante leal apoio, soube reconhecê-lo na pessoa do ministro das Finanças, um santo que apenas a costumeira inveja nacional ousaria pôr em causa. A exacta inveja que impediu o povo de sair à rua em festa, celebrando a sorte de Governo tão generoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que, na TVI, Constança Cunha e Sá lembrou os velhos tempos de Santana, quando declarações como a do ministro das Finanças teriam posto a Imprensa em galhofa durante semanas, até as barrigas se queixarem de dor. Eu lembro à dra. Constança que, nessa época sinistra, os remédios para uso gástrico só se encontravam em farmácias. E lembro aos leitores que, felizmente, a dra. Constança não representa a classe hoje ordeira e dócil do nosso comentário político.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 7 de Junho de 2005&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111816587471572213?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111816587471572213'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111816587471572213'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/06/uma-era-de-tolerncia.html' title='Uma era de tolerância'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111784353337178607</id><published>2005-06-04T00:00:00.000Z</published><updated>2005-06-04T00:05:33.376Z</updated><title type='text'>Homem-a-dias - 3 de Junho</title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Quando entregamos a nossa saúde à Comissão Europeia, o destino da Europa à França e a solução da pobreza ao sr. Bob Geldof, sabemos que este mundo está perdido. E outro mundo e impossível.&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIA 27, SEXTA-FEIRA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A Comissão Europeia (CE) apresen&amp;shy;tou 42 fotografias para enfeitar os maços de tabaco nos países da União. O divertido portefólio, que visa retratar as opções dos fumadores, inclui um tumor na garganta, um pulmão destruído e uma boca em decomposição. Dado que os anteriores textos preventivos se torna&amp;shy;ram irrelevantes graças ao analfabetismo da populaça, eu acho muito pedagógico que a CE esclareça visualmente a popula&amp;shy;ça sobre dois factos que a populaça teima em ignorar: 1) o tabaco faz mal; 2) as pes&amp;shy;soas adoecem. Parece-me é que este cari&amp;shy;nho, de tão sincero, não pode limitar-se aos cigarros e afins: estou convencido de que os senhores da CE se preparam para cobrir os automóveis com imagens de aci&amp;shy;dentados e os cidadãos que rejeitarem a Constituição de vergonha.&lt;br /&gt;Por cá, ainda não se sabe quando é que os tumores ilustrarão os produtos da Ta&amp;shy;baqueira. No nosso particular caso, seria simpático que, além de indicar aos fuma&amp;shy;dores as possíveis consequências dos seus hábitos, o Governo também lhes mostras&amp;shy;se o verdadeiro destino dos respectivos impostos, os quais deveriam financiar um sistema de saúde e não a anedota que te&amp;shy;mos. O pormenor talvez não mudasse os hábitos dos fumadores mas, mal por mal, convenceria muitos a mudar de país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIA 29, DOMINGO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Assim à primeira vista, desconfio que os defensores do "Sim" exageraram um bocadinho. Afinal, passaram-se algumas horas desde que os franceses recusaram o Tratado Constitucional Euro&amp;shy;peu e não há sinais do Apocalipse. Pelo menos a parcela da Europa perceptível aqui da minha varanda não sofreu abalos. Pre&amp;shy;sumo que o cenário seja pior de outras varandas: na televisão, sucedem-se estadistas em tom sombrio, a pedir calma ou a pedir pânico.&lt;br /&gt;É caso para tanto? Por dever profissional, achei que devia ler o Tratado, Ao fim de 70 páginas (aí pelo Artigo I-53-°), sentia-me disposto a abandonar a profissão. Nin&amp;shy;guém, excepto os sujeitos que conceberam o texto e o ocasional pervertido, consegue suportar aquilo. Sucede que, em França, o conteúdo do Tratado até teve pouquíssi&amp;shy;mo a ver com o respectivo debate. E dizer "debate" é uma liberdade poética. É verda&amp;shy;de que o "Não" agrupou os fascistas dos dois lados e o "Sim" a vulgar bazófia nacio&amp;shy;nalista. Mas os principais motivos de am&amp;shy;bas as partes, basicamente o ódio ao liberalismo e aos EUA, são velhos, idênticos e não se recomendam. C’est la France, que da guilhotina a Vichy, de De Gaulle a Le Pen não cessa de se humilhar e de nos cansar. Isto merece o nosso cuidado? Não merece. Agora que a França rejeitou a Europa, não haverá maneira de a Europa rejeitar a Fran&amp;shy;ça? Para quando o referendo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIA 31, TERÇA-FEIRA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A cruzada antiglobalização ganhou novo fôlego. Habitualmente, cada cimeira do G8 atraía a peregrina&amp;shy;ção de milhares de pelintras, que em nome dos excluídos torravam fortunas em via&amp;shy;gens, lenços palestinianos e bombas artesanais. A fim de desafiar os poderosos da Terra, os pelintras bloqueavam estradas, pilhavam a cidade anfitriã, reviravam uns carros e deixavam um rastro de pandemónio geral. Com sorte, um vadio levava dois tiros da polícia e a causa ganhava um már&amp;shy;tir. Porém, bem espremido, o "protesto" não maçava nadinha os estadistas, reuni&amp;shy;dos a uma distância segura das arruaças e do odor dos "activistas".&lt;br /&gt;Deve ter sido por isso que os "activis&amp;shy;tas" alteraram a estratégia. Conforme&lt;br /&gt;anunciou hoje com a pompa dos dema&amp;shy;gogos, o sr. Bob Geldof está a organizar uma série de concertos coincidentes com o próximo encontro do G8, em Julho na Escócia. Recentemente, o sr. Geldof foi notícia por promover a venda de umas pulseiras contra a pobreza (é remédio san&amp;shy;to), e sobretudo pela descoberta de que as ditas pulseiras são produzidas na China, em regime de semiescravatura. Se tiver&amp;shy;mos a imprudência de escavar na memó&amp;shy;ria, lembrar-nos-emos de que o sr. Gel&amp;shy;dof é aquela criatura que há 20 anos con&amp;shy;cebeu o Live Aid, a maratona musical que pretendia acabar com a fome em África. Na altura, a fome em África continuou intac&amp;shy;ta, já que o dinheiro angariado foi devida&amp;shy;mente investido nos exércitos locais e em despesas de representação de ditadores avulsos. Mas, depois do Live Aid, a maio&amp;shy;ria dos "artistas" presentes passou certa&amp;shy;mente a comer muito melhor. E inúme&amp;shy;ros espectadores desprevenidos, entre os quais eu próprio, perderam o apetite du&amp;shy;rante dias.Não era para menos: do público consu&amp;shy;midor aos "artistas", o Live Aid original condensou o que o Ocidente possui de mais ordinário em matéria de arrogância, boçalidade, manha publicitária, incapaci&amp;shy;dade critica e total ausência de talento. O Live Aid versão 2005, denominado Live 8 (notável a alusão à cimeira), promete re&amp;shy;petir a dose, e não duvido que o sr. Geldof seja menino para a agravar. Por enquan&amp;shy;to, os beneméritos confirmados incluem Sting (o redentor da Amazónia), Madon-na, Eminem, Elton John e Mariah Carey (a que afirmou invejar a elegância dos re&amp;shy;fugiados etíopes). E, claro,os fatídicos U2. U2 contra G8, portanto. A táctica é sim&amp;shy;ples: ou os países ricos ajudam os pobre&amp;shy;zinhos ou eles cantam. Os ricos que se pre&amp;shy;parem: se o capitalismo dito selvagem não recuar perante tamanha selvajaria, não vejo o que o possa segurar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 3 de Junho de 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111784353337178607?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111784353337178607'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111784353337178607'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/06/homem-dias-3-de-junho.html' title='Homem-a-dias - 3 de Junho'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111762039175337544</id><published>2005-06-01T10:05:00.000Z</published><updated>2005-06-02T22:05:45.860Z</updated><title type='text'>O monstro continua à solta</title><content type='html'>Coitado do dr. Marques Mendes: os esforços para livrar o PSD de alguns embaraços autárquicos valeram-lhe o rosnar das ‘bases’ e zero agradecimentos. Já o eng. Sócrates, condena os socialistas que espatifaram a Câmara do Porto a salários absurdos e ninguém pia. Fernando Gomes ruma ao petróleo, pensou-se em Nuno Cardoso para as águas e não deve espantar que Narciso Miranda seja agraciado com qualquer outro recurso mineral. Provavelmente, o celebrado ‘estilo’ de Sócrates passa pela impunidade ou pela completa ausência de vergonha, e não é muito original.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O país político, porém, continua a fingir que sim. Durante o ‘estado de graça’, ao olho destreinado facilmente confundível com a apatia ou a sabujice, cada decisão do primeiro-ministro é analisada à luz da sua infinita singularidade e virtude. Sócrates escolhe o Governo em segredo? O homem é sensato. Sócrates vende aspirinas no ‘Jumbo’? O homem é bondoso. Sócrates jura que os impostos não subirão? O homem é coerente. Sócrates aumenta os impostos? O homem é corajoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdoem a impertinência: vai sendo tempo de reparar que Sócrates, perfeito exemplar do político ‘moderno’, foi como tal uma invenção do marketing, destinada a distinguir o produto em causa do produto anterior, chamado Santana. Onde Santana nos metralhava com rajadas de comunicados e contra-comunicados, de metáforas e desabafos sentimentais, Sócrates faz o boneco do sujeito distante, reflexivo, que decide de acordo com princípios rigorosos e verdades absolutas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por manifesto azar, o exercício exige um alheamento da realidade impossível de manter por mais que umas semanas. Aos poucos, a realidade irrompe e a frieza desliza fatalmente para o alvoroço e o descaramento. Nunca falha. Regra geral, a transição coincide com o início da caça ao ‘pai’ do défice, vulgo ‘monstro’. Este apreciado ritual decorre sempre que a miséria das contas públicas é revelada ao povo, momento aproveitado pelos diversos governos para imputarem aos anteriores a culpa pela mediocridade seguinte. No processo, a paternidade do ‘monstro’ torna-se difícil de determinar. Para Sócrates, o pai é Barroso. Para Barroso, o pai era Guterres. Para Guterres (e Cadilhe), o pai foi Cavaco. E por aí fora, até chegarmos à generosidade que o PREC espalhou pela Função Pública e suspeitarmos (cruz, credo) que Abril teve algumas desvantagens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curioso é que, enquanto se busca alegremente o pai do ‘monstro’, continua a não haver quem procure seriamente abater o ‘monstro’. Também nisso o ‘estilo’ de Sócrates é de uma banalidade aflitiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 31 de Maio de 2005&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111762039175337544?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111762039175337544'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111762039175337544'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/06/o-monstro-continua-solta.html' title='O monstro continua à solta'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111774977908624078</id><published>2005-05-25T21:57:00.000Z</published><updated>2005-06-02T22:02:59.093Z</updated><title type='text'>Homem-a-dias - 25 de Maio</title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;strong&gt;As mulheres do PS não se querem ver domesticadas. A "rua árabe" não quer ver os seus ex-tiranos em roupa interior. E, ao que consta, os europeus não querem ver o seu cinema, de que tanto se orgulham.&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 19, QUINTA-FEIRA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Eu não sei o que é o Departamento Nacional de Mulheres Socialistas (DNMS). Talvez seja um lóbi de minorias, como o Departamento Nacional de Dia&amp;shy;béticos Socialistas ou o Departamento Na&amp;shy;cional de Apicultores Socialistas. Também não sei exactamente para que serve. Presu&amp;shy;mo que as senhoras procurem emprego, or&amp;shy;ganizem excursões ao cabeleireiro e leiam Natália Correia em animados saraus. Certo é que, à semelhança de algum mulherio, fa&amp;shy;zem muito barulho. No início de Junho, ha&amp;shy;verá eleições para a presidência do DNMS e associas andam engalfinhadas. De um lado, está a alegada candidatura do aparelho; do outro, a candidatura contra a candidatura do aparelho, contra o aparelho e contra, pê&amp;shy;los vistos, José Sócrates, a quem acusam de possuir uma "cabeça misógina".&lt;br /&gt;Pobre Sócrates. De acordo com a facção feminista, o engenheiro quer um DNMS dócil, e elas acham mal. A mim, parece-me uma ambição mais do que legítima, embo&amp;shy;ra de difícil concretização. Eu despacho dia&amp;shy;riamente com a Associação Nacional de Es&amp;shy;posas do Alberto Gonçalves, formada por um único elemento, e não tenho obtido grandes resultados. Porém, aconselho ao engenheiro paciência: a história está repleta de mulheres indomáveis cujo desígnio inconfesso é esperar pelo esposo em casa, com o tacho ao lume e um conhaque prontinho na mão. De resto, se as senhoras do PS fossem tão insubmissas e independen&amp;shy;tes, não estavam no PS. Nem em partido nenhum, diga-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 20, SEXTA-FEIRA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O The Sun publicou umas fotografias indiscretas de Saddam Hussein e a indignação instalou-se (a indignação é dada a instalar-se). As imagens esclare&amp;shy;cem-nos sobre o cativeiro do psicopata, que habita uma cela minúscula, mobilada com secretária, cama e uma cadeira de plástico cor-de-rosa. Além disso, mostram-no a la&amp;shy;varas próprias meias e, num instantâneo as&amp;shy;saz polémico, a passear-se em cuecas.&lt;br /&gt;No meio do chinfrim, a minha primeira reacção consistiu em averiguar o estado das cuecas. Há poucos meses, soube-se que Ali, o Químico, interrompeu diversas ses&amp;shy;sões de interrogatório devido a incontinên&amp;shy;cia (juro!), e que mesmo assim se recusa a usar fraldas em nome da honra e do res&amp;shy;peito por regras tribais. Presumindo que a honra e as regras são comuns à chusma de tarados que mandava no Iraque, era legí&amp;shy;timo questionar se Saddam não deveria la&amp;shy;var outra peça de vestuário que não as meias.&lt;br /&gt;Felizmente, a acreditar nas fotos o ho&amp;shy;mem parecia limpinho, donde logo de se&amp;shy;guida pude perceber e partilhar o descon&amp;shy;forto da opinião pública, que por sua vez percebe e partilha a revolta da "rua árabe", que por sua vez está em pagode permanen&amp;shy;te. Episódios como este abalam a legitimi&amp;shy;dade das autoridades dos EUA e, como al&amp;shy;guém disse, rebaixam-nas ao nível dos cri&amp;shy;minosos em causa.&lt;br /&gt;Eu acho até que as rebaixam um bocadi&amp;shy;nho mais. Saddam pode ter chacinado cen&amp;shy;tenas de milhares de curdos, mas nunca os forçou a actos de lavandaria. Saddam pode ter encarcerado metade dos seus conterrâ&amp;shy;neos, mas não lhes decorou as Jaulas com cadeiras rosa. As valas comuns são achados diários por aquelas bandas, mas os repre&amp;shy;sentantes das ONG no terreno asseguram que os cadáveres se encontram dignamen&amp;shy;te vestidos.&lt;br /&gt;A verdade é uma; Bush não é apenas a maior ameaça à paz mundial, mas também ao bom gosto. Se não o pararmos a tempo, quem sabe as desgraças que nos aguar&amp;shy;dam? Bin Laden em tingerie? O Mullah Omar a remendar ceroulas? Só de pensar ar&amp;shy;repia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIA 22, DOMINGO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Poucas vezes a Europa que somos se revela com a nitidez das reportagens do Festival de Cannes, transmitidas pelo exemplar EuroNews. De meia em meia hora, chegam-nos planos do tapete verme&amp;shy;lho, por onde desfilam as alegadas vedetas do cinema europeu, que ou não são vede&amp;shy;tas ou não são europeias. Há sempre uns americanos reconhecíveis, que o público recebe com gritinhos, e toneladas de fran&amp;shy;ceses ou espanhóis obscuros, que as câma&amp;shy;ras do EuroNews contemplam com reve&amp;shy;rência.&lt;br /&gt;Ocasionalmente, o desfile dá lugar às conferências de imprensa, nos últimos anos dedicadas na íntegra a insultar Bush. No exercício, presumo que obrigatório, os ar&amp;shy;tistas dos EUA são participantes activos, por simpatia para com os anfitriões ou sincera estupidez, E é isto. Às escondidas, julgo que em Cannes se estreiam uns filmes, desde sucessos imperialistas (pagos por produ&amp;shy;tores sem escrúpulos e feitos para as mas&amp;shy;sas), aos produtos alternativos (pagos pê&amp;shy;los estados da UE e feitos para alimentar os parasitas do meio).&lt;br /&gt;Podemos abominar o folclore de Hollywood, e não custa ignorar 99% da sua actual produção. Ainda assim, o cinemaé as&amp;shy;sunto deles. Deste lado do oceano, houve ar&amp;shy;remedos de fitas, de autores, de estrelas, que não por acaso coincidiram com o apo&amp;shy;geu de Cannes, há quarenta anos. Enterra&amp;shy;das a nouvelle vague, dois ou três talentos casuais (Buñuel, Bergman) e uns protóti&amp;shy;pos de stars (Bardot, Delon), o tapete verme&amp;shy;lho tornou-se uma paródia inadvertida da cerimónia dos Óscares, e o Festival uma ce&amp;shy;lebração do vazio. Não seria grave, se cele&amp;shy;brar o vazio não fosse hoje, na política, na cultura, na ciência, na economia e na vida, uma espécie de profissão de um continen&amp;shy;te irrelevante. Tão irrelevante que até para reagir à América precisa da América.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 25 de Maio de 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111774977908624078?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111774977908624078'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111774977908624078'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/05/homem-dias-25-de-maio.html' title='Homem-a-dias - 25 de Maio'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111701925896626997</id><published>2005-05-25T11:05:00.000Z</published><updated>2005-05-25T11:07:38.970Z</updated><title type='text'>Um país no vermelho</title><content type='html'>Domingo à noite, um penálti esquisito e um golo da Académica decretaram o início da famosa retoma. Pois é, o Benfica ganhou o campeonato e, conforme inúmeros especialistas haviam previsto, o País entrou numa nova fase de prosperidade. Só o dr. Constâncio não notou, e ontem insistiu em mostrar ao Governo um défice grotesco e muitas preocupações. Nitidamente, o dr. Constâncio não vê televisão. Todos os canais disponíveis dedicaram uma madrugada inteira ao assunto, e, dado que não são dirigidos por malucos, com certeza não o fariam em nome de uma mera celebração futebolística.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda assim, foi pena que os referidos especialistas se esquecessem de explicar os pormenores da transição, que permanecem um tanto nebulosos. Há a hipótese de os festejos contribuírem directamente para o crescimento económico, por exemplo reforçando a confiança dos consumidores. Sucede que os consumidores não precisam de confiança, precisam de dinheiro. Além disso, não me parece que a venda esporádica de cervejas, bifanas e cachecóis chineses sirva para reabilitar o nosso débil tecido industrial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também há sugestões de que o triunfo do ‘slb, slb, slb’ despoletou enfim o choque tecnológico que nos conduzirá ao Paraíso. Volto a hesitar: embora, na Avenida dos Aliados, a claque do Porto esboçou alguns choques frontais contra os adeptos benfiquistas, a tecnologia utilizada (paus, garrafas, sinais com o dedo médio) mostrou-se assaz rudimentar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A redução do desemprego? Pouco provável. A julgar pela frequência com que os simpatizantes do Benfica garantiam que o dia seguinte seria feriado nacional, o mais certo é que o desemprego tenha até aumentado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez os especialistas aludissem apenas aos reflexos indirectos do triunfo. Os seis milhões de portugueses que há onze anos ruminavam melancolia adquiriram revigorado fôlego. E, segundo esta escola de pensamento, agora é esperar para vê-los, empenhadíssimos, elevar a produtividade e a eficácia empresariais aos níveis da Irlanda (e quem diz uma Irlanda diz uma Angola, onde a festa foi igualmente rija). Pode ser, mas eu tendo a duvidar do discernimento de indivíduos que saltam mal lhes apontam uma câmara, enquanto repetem à exaustão “somos campeões, somos campeões”. Os jogadores são campeões; os adeptos limitam-se a fazer barulho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se vê, o nexo entre a vitória do Benfica e o fim da crise não é inteiramente perceptível. Não importa, já que nem o próprio Benfica percebe como é que foi campeão. O fundamental é que a retoma está aí: alguém avise o dr. Constâncio, se faz favor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 24 de Maio de 2005&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111701925896626997?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111701925896626997'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111701925896626997'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/05/um-pas-no-vermelho.html' title='Um país no vermelho'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111741002484531166</id><published>2005-05-20T23:37:00.000Z</published><updated>2005-05-29T23:40:24.850Z</updated><title type='text'>Homem-a-dias - 20 Maio</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Enquanto inúmeras organizações conspiram para nos enxovalhar, em Viseu evoca-se a origem dos gays, um charro no Dubai acende trilhos para a diplomacia e, na ONU, um menino corre atrás dos seus sonhos.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 12, QUINTA-FEIRA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Um estudo da competitividade feito pelo IMD coloca Portugal em 45.° lugar, num conjunto de 60 economias. Nos últimos dois anos, descemos 13 luga&amp;shy;res, e já conseguimos olhar de baixo para a Jordânia. Vale que estamos à frente da Gré&amp;shy;cia e da Itália, numa demonstração de que a Antiguidade Clássica não foi grande estágio para o capitalismo.&lt;br /&gt;A boa notícia é que, de acordo com um dos critérios em análise, somos os melhores do mundo no número de alunos por professor (apenas 8,3). A má notícia é que isso serve de pouco: a julgar por outro estudo recente, este da OCDE, temos os alunos de matemática mais pelintras. Uma duvidosa compensação: os cá&amp;shy;bulas não ficam impunes, já que um terceiro estudo, da UNICEF, prova que em nenhum país industrializado há crianças que levem tanta porrada quanto as portuguesas.&lt;br /&gt;Este bombardeamento de estatísticas des&amp;shy;tinadas a embaraçar-nos no contexto inter&amp;shy;nacional não é novo. O que espanta é a inér&amp;shy;cia dos sucessivos governos face ao proble&amp;shy;ma. Embora não seja da sua competência aumentar a eficácia empresarial, ensinar os petizes a fazer contas e impedir os pais de os espancar, há uma solução óbvia: proibir a di&amp;shy;vulgação dos estudos ou, o que seria prefe&amp;shy;rível, a participação nacional neles.&lt;br /&gt;Uma coisa é sermos fraquinhos. Outra é ex&amp;shy;pormos a miséria. Para nos relembrar desas&amp;shy;tres, já possuímos o Banco de Portugal, que ao menos guarda a vergonha dentro de por&amp;shy;tas. O Banco de Portugal e, é claro, a vidinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 15, DOMINGO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Em Viseu, a manifestação contra a "homofobia", organizada pela Opus Gay e pelas inúmeras ramificações do BE,juntou largas dezenas de pessoas. Umas eram favoráveis à causa; outras, nem tanto. Estas últimas enriqueceram o ajuntamento com gritos de "Havia de ser no tempo do Sa-lazar!", o que só abona a favor dos seus co&amp;shy;nhecimentos históricos.&lt;br /&gt;Como é sabido, no tempo de Salazar não havia homossexualidade. Nem podia haver. À época, a mulher portuguesa média pare&amp;shy;cia, de facto, mulher, e ninguém vislumbra&amp;shy;va qualquer motivo racional para a trocar pelo galego da mercearia. A atracção de al&amp;shy;guns homens pêlos machos da espécie co&amp;shy;meçou justamente após a revolução de 1974, quando, por acção das feministas, a imagem feminina dominante desceu a profundidades insondáveis: cabelo desgrenhado, roupas do Exército de Salvação e higiene rejeitada a tí&amp;shy;tulo de "burguesa". Pior: a "mulher" de Abril abria exclusivamente a boca para berrar so&amp;shy;bre a contracepção, o divórcio ou Lenine. Muitos homens não estavam para aturar isto, donde se tenham voltado para a alternativa possível: as fardas do MFA, então omnipre&amp;shy;sentes nas ruas, nas fábricas, nos campos, na televisão. Mal por mal, o capitão Duran Clemente era mais apresentável que Isabel do Carmo e, dado que não dizia nada de per&amp;shy;ceptível, era também mais suportável.&lt;br /&gt;Depois, aos poucos a mulher portugue&amp;shy;sa média regressou ao banho e aos cabelei&amp;shy;reiros, o que consolou a minha geração. Mas, sobretudo para certos nichos da es&amp;shy;querda, em que para cúmulo subsistiram réplicas das feministas originais, foi tarde: o bichinho já lá estava. Da homossexualida&amp;shy;de não se sai. No máximo, sai-se do armá&amp;shy;rio. E irrompe-se em Viseu, sob vaias de malucos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIA 16, SEGUNDA-FEIRA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Grandes homens são os que descobrem oportunidades onde elas menos se adivinham. Veja-se o embai&amp;shy;xador António Monteiro, que foi ao Dubai suplicar pelo cineasta Ivo Ferreira e, de ca&amp;shy;minho, conseguiu estreitar os laços com os Emirados Árabes Unidos. Se, como vem no Expresso, um reles charro aproximou assim dois Estados, está definido o radioso futuro da diplomacia portuguesa.&lt;br /&gt;Primeiro, há que enviar às sete partidas do mundo heroinómanos, dependentes de crack e os tradicionais bêbados. Depois, basta esperar que eles sejam detidos para que os nossos embaixadores intervenham, rogando clemência em público e sedimen&amp;shy;tando contactos na sombra. Aliás, julgo que o método já está a ser copiado por outros países: o turco hoje preso em Cascais com 28 quilos de estupefacientes será somente um pretexto para que representantes da Turquia venham cá discutir e aprofundar a adesão à UE. E não estaremos longe do tempo em que os próprios conflitos arma&amp;shy;dos serão um anacronismo, graças à in&amp;shy;fluência dos narcóticos na paz mundial. Brilhante ideia, ainda por cima nossa. Bem diz o povo que as Necessidades são as mães da invenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DIA 17, TERÇA-FEIRA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Todas as crianças ambicionam as mes&amp;shy;mas profissões: bombeiro, jogador de futebol, astronauta ou alto comis&amp;shy;sário das Nações Unidas para os Refugia&amp;shy;dos. Infelizmente, quase nenhuma realiza o sonho e poucas chegam perto.&lt;br /&gt;António Guterres constitui uma ventu&amp;shy;rosa excepção. Por estes dias, decorre na ONU o processo decisivo de selecção e o en&amp;shy;genheiro é um dos finalistas. Em princípio, já ganhou: que eu saiba, os restantes can&amp;shy;didatos ao comissariado jamais sentiram na pele o drama dos refugiados. Guterres, pelo contrário, tem experiência na matéria desde 2001, quando fugiu de um pântano ingrato. Que o pântano, agora, se retracte apoiando a candidatura dele para qualquer posto longínquo, é o mínimo que se pode exigir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 20 de Maio de 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111741002484531166?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111741002484531166'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111741002484531166'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/05/homem-dias-20-maio.html' title='Homem-a-dias - 20 Maio'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111637269957728407</id><published>2005-05-17T23:28:00.000Z</published><updated>2005-05-17T23:31:39.583Z</updated><title type='text'>As virgens</title><content type='html'>O dr. Campos e Cunha meteu na cabeça que é prioritário reduzir o défice orçamental, aliás astronómico. E depois é vê-lo, em Lisboa ou no Luxemburgo, a desabafar às massas que “isto” vai mal, e que pior ficará se não se tomarem medidas urgentes. Com vasto descaramento, o homem chega ao ponto de enunciar as medidas: evitar o investimento público; aumentar os impostos; reduzir benefícios sociais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escandalosamente, o senhor ministro das Finanças pretende inclusive cortar na despesa do Estado com pessoal, a qual representa 15% do PIB e pertence à esfera do sagrado. De um ponto de vista “reaccionário”, estas trivialidades podem fazer sentido: não é descabido pedir sacrifícios, e, desde que se perceba o milagre, tentar subtrair, até 2008, quatro mil milhões de euros ao pandemónio dos gastos estatais. Do ponto de vista eleitoral, o dr. Campos e Cunha é maluco, donde o merecido sermão que o primeiro-ministro – para efeitos de protocolo “muito preocupado” com a penúria vigente – lhe administrou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notoriamente, o dr. Campos e Cunha ainda não conhece o Governo que integra e o País que governa. Tivesse ele ouvido as raras, e sublimadas, intervenções do eng. Sócrates, o sr. ministro perceberia que este particular Executivo não aumenta (confessadamente) os impostos, não reduz pessoal (cria 150 mil empregos) e não foge das grandes obras públicas (a acreditar no ministro Mário Lino, atira-se a elas com sofreguidão).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema não é novo, e vem com o cargo. Ao iniciar funções, certos titulares das Finanças convencem-se de que lhes compete endireitar as contas públicas. Abençoados sejam os pobres de espírito. Como qualquer sujeito lúcido sabe, a pasta das Finanças tem uma única finalidade: legitimar à tripa forra que reina nos ministérios vizinhos. Enquanto uns arrasam o que há e o que não há, convém existir quem pareça assegurar a seriedade do exercício, de forma a relaxar o povo. Em meio ao pagode, é de bom-tom simular “rigor” e “pragmatismo”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sem exageros. Às vezes, sobretudo quando as coisas dão para o torto, é mesmo aconselhável temperar o “rigor” com uma nota optimista. Em 1993, Braga de Macedo descobriu o “oásis” no exacto momento em que a nossa economia entrava em processo de desidratação. Hoje, o cenário é tão negro que um oásis não basta. Se quiser prestar um efectivo serviço à nação e manter o toque magrebino e alucinado das metáforas, o dr. Campos e Cunha devia usar o paraíso islâmico, com as setenta virgens da praxe. Ou, em nome do rigor e do pragmatismo, apenas umas trinta e cinco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 17 de Maio de 2005&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111637269957728407?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111637269957728407'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111637269957728407'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/05/as-virgens.html' title='As virgens'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111740979263850655</id><published>2005-05-13T23:34:00.000Z</published><updated>2005-05-29T23:36:32.643Z</updated><title type='text'>Ir dentro lá fora</title><content type='html'>Na terça-feira foi libertado Ivo Ferreira, o português detido no Dubai por fumar haxixe. No domingo anterior, o se&amp;shy;nhor Ferreira fora ouvido em julgamento durante 30 segundos e sem advogado. A nossa diplo&amp;shy;macia garantiu o acompanhamento do caso, o futebolista Luís Figo deu uma palavrinha aos filhos do xeque local e uma petição com milhares de assinaturas seguiu para o pró&amp;shy;prio xeque, rogando clemência. Graças a es&amp;shy;tas mezinhas ou ao acaso, o senhor Ferrei&amp;shy;ra livrou-se da alhada. Embora não o conhe&amp;shy;cendo, fico satisfeito: acho grotesco que um acto tão banal, até infantil, seja merecedor de prisão. Só não percebo porque é que o sr. Ferreira insistiu em visitar um sitio onde a infantilidade dá cadeia.&lt;br /&gt;Ë verdade que as agências de viagens têm promovido o Dubai como um paraíso balnear, com os seus hotéis de seis estre&amp;shy;las e condomínios de luxo. Também é ver&amp;shy;dade que o referido sr. Figo passou lá a lua-de-mel, o que entre nós parece constituir um atractivo suplementar. Nada disto im&amp;shy;pede que o Dubai, um dos sete Emirados Árabes Unidos, integre uma pocilga ditato&amp;shy;rial, em que a presidência e a chefia do go&amp;shy;verno são direito hereditário de duas famí&amp;shy;lias, cujos tribunais se regem amplamente pelo Corão, Se uma pessoa prefere os sub&amp;shy;valorizados mimos do Ocidente às peculia&amp;shy;ridades da barbárie, o Dubai está longe de ser o destino ideal.&lt;br /&gt;Ao que consta, o sr. Ferreira, que é cineas&amp;shy;ta, encontrava-se por lá a realizar um docu&amp;shy;mentário. Fraca atenuante. Para quem não for correspondente de guerra e dispensar julgamentos sem defesa, castigos corporais, petições e maçadas afins, quatro quintos do mundo são rigorosamente a evitar. Bem sei que as linhas aéreas reduziram o planeta a uma dúzia de horas de distância e que o imaginado exotismo seduz. Porém, finda a excitação do folheto turístico, convém pensar melhor e trocar Cuba por Chicago, as praias da Jamaica pêlos lagos da Escócia, a China pela Austrália.&lt;br /&gt;Ainda que o propósito da viagem não in&amp;shy;clua a degustação de narcóticos, há umas 130 nações infestadas de miséria, arbitra&amp;shy;riedade e violência, fenómenos que no mí&amp;shy;nimo perturbam a digestão de um lavagante à beira-mar e que, com frequência, trans&amp;shy;bordam sobre o viajante desprevenido. Para complicar, note-se que estas simpáticas ca&amp;shy;racterísticas não têm de andar agrupadas: Singapura é economicamente próspera, mas uma cerveja a mais pode conduzir ao chico&amp;shy;te; a República Dominicana diz-se uma de&amp;shy;mocracia representativa, mas os polícias afastam os pedintes com as coronhas das armas. Cuidado, portanto.&lt;br /&gt;No Manifesto do Partido Comunista, Marx acusava os burgueses de construírem um mundo à sua imagem, subordinando os países atrasados ao modo de produção capita&amp;shy;lista, ou seja, àquilo que chamamos de civi&amp;shy;lização. Infelizmente, os receios do velho Karl não se realizaram tanto quanto gostaríamos. Tenhamos esperança. Talvez, um belo dia, os amanhãs cantem de facto, e os pedaços exóticos da Terra se convertam ao modo de produção e demais modos da burguesia.&lt;br /&gt;Enquanto isso não se verifica, eu não po&amp;shy;nho lá os pés. E julgo que o sr. Ivo Ferreira, sabendo o que sabe hoje, adoptará igual princípio.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;É certo que &lt;/strong&gt;as habituais forças conspirati&amp;shy;vas absolveram Santana de uma segunda candidatura e que o Bloco de Esquerda per&amp;shy;guntou ao dr. Sá Fernandes se se deixava apoiar. Mas, no fundo, o único lema sério das "autárquicas" na capital são os cartazes do dr. Manuel Maria Carrilho. Num dos di&amp;shy;tos (que aliás embelezam a cidade), o busto do dr. Carrilho enverga um traje que ao olhar desarmado pode parecer um fato de treino. A confirmar-se, isto significaria que o conhe&amp;shy;cido filósofo, contra todas as expectativas, joga futebol nas manhãs de sábado, leva a esposa ao hipermercado e frequenta o snack da esquina, onde emborca umas cervejas com caracóis e amigos. Escândalo. Tragédia. Calamidade. Ou, no mínimo, a alienação do eleitorado potencial do dr. Carrilho.&lt;br /&gt;Felizmente, encontro-me em condições de assegurar que o alegado fato de treino não o é. Trata-se de um mero blusão de tipo informal, de resto aprovado pela Société Française de Philosophie e já experimenta&amp;shy;do por Jack Lang. Que alívio: é um mito que se preserva. Em Portugal, pelo menos, inte&amp;shy;lectual não bebe cerveja, intelectual casa-se com apresentadora de variedades, negoceia o "exclusivo" do casamento e frequenta as páginas da Caras. Intelectual não engole ca&amp;shy;racóis: belisca acepipes. Intelectual não joga à bola: escreve na Imprensa uns artigos fraquinhos, que reúne sazonalmente em livros magríssimos. Se sobrar tempo, o intelec&amp;shy;tual actualiza o seu sítio na Net, repleto de ideias fascinantes e totalmente desprovidas de sentido.&lt;br /&gt;Afinal, o que mais se espera que um in&amp;shy;telectual faça?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 13 de Maio de 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111740979263850655?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111740979263850655'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111740979263850655'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/05/ir-dentro-l-fora.html' title='Ir dentro lá fora'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111582700374656059</id><published>2005-05-11T15:54:00.000Z</published><updated>2005-05-11T15:56:43.753Z</updated><title type='text'>Crise de fé</title><content type='html'>Depois não me acusem de má vontade. Logo que, na própria tomada de posse, o eng. Sócrates encaminhou todas as prioridades para a recuperação económica, eu acreditei nele, mesmo que a “recuperação” não passasse de uma variante da velha “retoma”, que faleceu sem regressar. Eu até já acreditara nas promessas de campanha, como o choque/plano tecnológico (que nunca percebi) e a milagrosa criação de milhares (ou milhões, tanto faz) de empregos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais recentemente, continuei a acreditar nas garantias do jovem Governo em funções. O eng. Sócrates jurava o controlo do défice e eu agradecia aos céus a dádiva de um chefe assim. O eng. Sócrates assegurava que os impostos não subiriam e eu colocava o retrato dele na parede da sala, emoldurado a banho de ouro e com uma velinha por baixo. O eng. Sócrates decretava medidas para “prevenir” o endividamento das famílias e eu acendia a velinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toldado por uma devoção genuína, não me importava que os economistas declarassem, por este andar, o défice mais ou menos incontrolável. Nem que umas remodelações discretas da fiscalidade substituíssem, na prática, o aumento dos impostos. Nem que, com dívidas equivalentes a 117% do rendimento, as famílias já se encontrassem penhoradas com galhardia. Eu tinha fé, e a fé não se explica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, a fé perde-se. A minha levou sumiço quando li no CM que o eng. Sócrates comprou, há quatro anos, 500 acções do Benfica. Foi um golpe. Eu julgava que elegêramos um feiticeiro da prosperidade económica e surge-me pela frente um sujeito que compra acções do Benfica, adquiridas pelo valor nominal de cinco euros e hoje ao preço do tremoço. Pior: o engenheiro não possui outras aplicações financeiras ou investimentos. A bem dizer, e além de casa e carros, ele não possui nada. Excepto as fatídicas 500 acções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De início, tentei compensar o choque (não tecnológico) com uma explicação racional. Consegui duas explicações irracionais. Talvez os 2500 euros fossem uma esmola ao pobre clube, que à semelhança dos demais anda em declínio material e simbólico. Nesse caso, Sócrates revelaria o seu lado humano, consciencioso, “social”. A segunda hipótese: ele meteu-se no negócio (?) convencido de que ia encher os bolsos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qualquer das possibilidades assusta, uma pela irresponsabilidade, a outra pela ingenuidade. Uma coisa é certa: alguém acredita que um homem que concentra todos os seus investimentos pessoais em acções do Benfica é o primeiro-ministro que vai salvar a nação da bancarrota? Eu não acredito. A fé pode ser vesga, mas não tem de ser cega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 10 de Maio de 2005&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111582700374656059?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111582700374656059'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111582700374656059'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/05/crise-de-f.html' title='Crise de fé'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111740967777765710</id><published>2005-05-06T23:33:00.000Z</published><updated>2005-05-29T23:34:37.783Z</updated><title type='text'>Postos na linha</title><content type='html'>Desde o passado dia 24 de Abril é aparentemente proi&amp;shy;bido fumar nos comboios Alfa, que até aqui dispu&amp;shy;nham de uma carruagem para o efeito. Nada de espe&amp;shy;cial. Banir o tabaco é fácil. Na quase totali&amp;shy;dade do Ocidente, leis idênticas têm sido instituídas sem um esboço de reacção. Aos poucos, não sê pode fumar nos transpor&amp;shy;tes, nos locais de trabalho, nos restaurantes, nos cafés e, quando calha, nos domicílios. Era certas, e pioneiras, cidades dos EUA, já não se pode fumar em parte nenhuma.&lt;br /&gt;Eu acho tudo muito bem, mas privar, sem mais, a horrenda matilha de fumadores do seu horrendo hábito parece-me sanção ex&amp;shy;cessivamente branda. Aos propósitos da saúde há que acrescentar um pedacinho de humilhação, sem a qual os higienistas não alcançam pleno gozo. Os aeroportos, por exemplo, tiveram o cuidado de reservar ao consumo de cigarros uma pequena área, que fazem questão de manter imunda e a pilo menos 800 metros da porta de embar&amp;shy;que mais próxima. Assim, é sempre um di&amp;shy;vertimento para o passageiro saudável ob&amp;shy;servar a correria dos viciados rumo à última chamada do voo, tresandando a suor e ao fumo produzido pela sua espécie.&lt;br /&gt;A medida agora instaurada pela CP apro&amp;shy;veita este louvável princípio e, de brinde, oferece algumas subtilezas deliciosas. Ape&amp;shy;sar da interdição nas carruagens, existe de facto uma zona de fumadores, situada num dos átrios do veículo. "Átrio" é a designação oficiosa. Na realidade, estamos a falar de um espaço idêntico às casas de banho dos ditos comboios: um metro quadrado, com um cinzeiro, zero renovadores de ar e, regra ge&amp;shy;ral, cinco ou seis desgraçados em simultâ&amp;shy;neo, que absorvem o próprio cigarro junto com os cigarros dos desgraçados que os an&amp;shy;tecederam.&lt;br /&gt;De manhã, a coisa passa. Ao fim da tarde, temos festa. O cinzeiro, que não foi limpo&lt;br /&gt;durante o dia, transbordou centenas de bea&amp;shy;tas para o chão. E o fumo, que não foi expe&amp;shy;lido, converteu o "átrio" num centro de tes&amp;shy;tes à resistência do pulmão humano. O ce&amp;shy;nário é o de uma cabina prestes a irromper em chamas, onde através do nevoeiro se vis&amp;shy;lumbram meia dúzia de silhuetas curvadas pela tosse. Uma alegria, portanto, que infe&amp;shy;lizmente apenas os passageiros contíguos podem contemplar.&lt;br /&gt;Para gáudio colectivo, era importante que cada frequentador da linha Lisboa-Porto ti&amp;shy;vesse acesso a isto. Aplicar ao "átrio" a por&amp;shy;tentosa tecnologia necessária à renovação do ar seria dinheiro mal gasto. Porém, uns tostões bastariam para se instalar uma câ&amp;shy;mara que transmitisse o espectáculo pêlos televisores do Alfa, que um desacordo com a S1C tem mantido desligados. Do depri&amp;shy;mente Malucos ao Riso ao enxovalho em di&amp;shy;recto dos fumadores vai uma distância apre&amp;shy;ciável. Até eu, entre dois cigarros, me riria com vontade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Depois de um estudo da OCDE&lt;/strong&gt; confir&amp;shy;mar, pela enésima vez, que as nossas crian&amp;shy;ças são um desastre a matemática, a senho&amp;shy;ra ministra da Educação anunciou logo o alargamento dos horários no i.° ciclo. Óp&amp;shy;timo; assim os meninos e as meninas terão renovado vagar para não aprender matemá&amp;shy;tica. E os professores terão outra disponi&amp;shy;bilidade para não ensinar coisa nenhuma. Excepto, talvez, pêlos maluquinhos que atravessam a tutela, toda a gente percebe que a quantidade de tempo gasto na escola é inversamente proporcional aos conhecimentos adquiridos. A pedagogia dita moderna, de resto, aboliu os conhecimentos e trocou-os por "apetências" e "competências", que é aquilo que as crianças fazem enquanto se ba&amp;shy;bam. Além disso, substituiu as reprovações pelas "retenções", o que sem dúvida identi&amp;shy;fica a natureza anal do arranjinho.&lt;br /&gt;Na prática, isto celebra o confesso desí&amp;shy;gnio do ensino público: a igualdade. Dado que, na "primária", as "competências" mais complexas consistem em empilhar três cu&amp;shy;bos e em fixar quatro clichés sobre ecolo&amp;shy;gia, os filhos dos pobres não têm por que se envergonhar perante os meninos ricos (eu-jos progenitores, por desleixo ou crueldade, os inscreveram numa escola estatal).&lt;br /&gt;Já o prolongamento, em duas horas, do expediente escolar, tende a alcançar uma inconfessada finalidade: a nacionalização dos petizes. Em casa, ocupada a exercitar as "competências" adquiridas, a canalha é um estorvo. Compete ao Estado providenciar armazéns onde o estorvo possa ser deposi&amp;shy;tado, de preferência sem prazo de recolha. O horário sugerido pela sra. ministra ainda é curto. Porém, constitui um primeiro pas&amp;shy;so para um sistema non stop, de acordo com o qual os alunos pudessem, idealmente, vi&amp;shy;ver na escola.&lt;br /&gt;Os pais, pelo menos os pais que aparecem muito indignados nas televisões, aplaudem. E esses pais, à semelhança do dr. Louçã, sa&amp;shy;bem o que é o sorriso de uma criança. Não foi em vão que o aborto se tornou no gran&amp;shy;de debate nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 6 de Maio de 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111740967777765710?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111740967777765710'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111740967777765710'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/05/postos-na-linha.html' title='Postos na linha'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111515518303623469</id><published>2005-05-03T22:16:00.000Z</published><updated>2005-05-03T21:19:43.036Z</updated><title type='text'>Um presidente à paisana</title><content type='html'>Meses depois de inventar um governo desastroso e de o espatifar em seguida, o dr. Sampaio resolveu dedicar um bocadinho do seu tempo aos acidentes rodoviários. Desde que Soares enxotou um guarda que lhe fazia escolta, este tipo de acções dá sempre resultados notáveis. Só no dia inaugural, durante um passeio entre Lisboa e Santarém, o dr. Sampaio teve uma ideia e uma revelação, ambas limitadas a predestinados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ideia foi sugerir que os militares da Brigada de Trânsito deixem de usar farda, de modo a não serem detectados pelos condutores em infracção, que se comportam com decência logo que distinguem a autoridade. De facto, isto é inaceitável, e a proposta do dr. Sampaio tem de ser adoptada com urgência. Sem o uniforme ou qualquer elemento identificativo, a BT deixa de alertar o pre-varicador, permitindo que este continue a aterrorizar terceiros a 230 km/hora, até ser multado ou imobilizado em chamas contra um camião, conforme o que suceder primeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A revelação é ainda mais espantosa e sábia. De repente, o dr. Sampaio percebeu que a guerra nas estradas nacionais é questão de civismo. Caso o seu mandato não estivesse a terminar, acho que ele iria a tempo de descobrir que a açorda se faz com pão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, o “civismo” não explica tudo. Dou um exemplo: por que é que, em Agosto, os nossos emigrantes percorrem com primor dois mil quilómetros para regressar à aldeia, e apenas estraçalham o carro a vinte minutos desta? Perderam o “civismo” em Salamanca? Duvido. A qualidade das estradas? Volto a duvidar: na Europa há bem pior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os portugueses guiam como loucos porque odeiam os portugueses. No estrangeiro, somos modelos de comportamento. Mas mal nos encontramos rodeados por compatriotas, somos tomados por um impulso destrutivo, que nos impele a ziguezaguear pelo IP5 com o objectivo de abatermos tantos quantos pudermos. O sentimento, aliás, não se esgota no tráfego automóvel. Há um ano, José Mourinho brilhava no Porto e cinco sextos da população abominavam o homem. Agora, que repetiu o sucesso entre ingleses, Mourinho é uma unanimidade. Portugal não legitima ninguém. Apesar de vagos assomos patrióticos, no fundo julgámo-nos uns pelintras, incapazes de suscitar respeito, inclusive o nosso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez, como dizia o outro, não gostemos de um clube que nos aceite como membros. Nem do clube, nem dos restantes sócios, nem do respectivo presidente, que por acaso elegemos. É por isso que evito conduzir após cada discurso ou sermão do dr. Sampaio: nesses períodos, as estradas tornam-se particularmente perigosas. À semelhança da BT, o PR devia andar incógnito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 3 de Maio de 2005&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111515518303623469?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111515518303623469'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111515518303623469'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/05/um-presidente-paisana.html' title='Um presidente à paisana'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111740956315909508</id><published>2005-04-29T23:31:00.000Z</published><updated>2005-05-29T23:32:43.163Z</updated><title type='text'>25 de Abril, às vezes!</title><content type='html'>Ai, que saudades. Em 2004, o 25 de Abril completou 30 anos, e a data redonda aju&amp;shy;dava à festa. Porém, nada contribuiu tanto para rea&amp;shy;vivar o espírito dos cravos quanto a cirurgia que o governo do dr. Du&amp;shy;rão Barroso operou à palavra "revolução", amputando-a do "r". Num instante, e ape&amp;shy;sar da ciática, a esquerda levantou-se, recu&amp;shy;perou o "r" do lixo e ergueu-o nos braços. Depois, vibrante e colérica como um plená&amp;shy;rio do MFA, exibiu-o nas ruas, em artigos de opinião e, no comovente caso de Manuel Alegre, nos versos de um poema épico. Nes&amp;shy;se dia, até o fatídico discurso de Jorge Sam&amp;shy;paio à nação saiu perceptível e correctamen&amp;shy;te indignado. Foi bonito, pá.&lt;br /&gt;Agora, compare-se com o 25 de Abril da passada segunda-feira. E melhor não com&amp;shy;parar. Sampaio voltou a entaramelar-se nos "desafios do futuro". Os deputados adormeceram. Em Lisboa, um bando mis&amp;shy;teriosamente liderado pelo dr. Carrilho marchou do Marquês ao Rossio. E o povo, agradecido ao feriado mas ignorante do respectivo pretexto, marchou rumo aos shoppings. Por mim, confesso com pesar: estava em Trás-os-Montes, alienado entre um javali na brasa e um arroz de lebre. Um escândalo, pá.&lt;br /&gt;O 25 de Abril não se fez para isto. Com cer&amp;shy;teza não se fez para que cada um ocupasse o aniversário do golpe de Estado da forma que entendesse, ostentando tiques pequeno-bur&amp;shy;gueses. Se calhar, nem sequer se fez para re&amp;shy;movera ditadura. Provavelmente, os tanques desceram de Santarém apenas para estabe&amp;shy;lecer uma nova classe política, uma casta de heróis repleta de experientes e instantâneos "antifascistas", que a ralé tomaria como exemplo e objecto de perpétua adoração. Os motivos do 25 de Abril esgotam-se na pró&amp;shy;pria existência do 25 de Abril, e talvez graças a esse sonho de eternidade a esquerda nun&amp;shy;ca o invoque sem acrescentar "sempre".&lt;br /&gt;Por manifesta injustiça, o "sempre" du&amp;shy;rou 19 meses. Desde 1975, o "às vezes" ga&amp;shy;nhou prioridade e aos poucos a coisa re&amp;shy;sumiu-se a cerimónias oficiais, crescente&amp;shy;mente melancólicas, e a passeatas anuais, decrescentemente concorridas. A excep&amp;shy;ção, lá está, ocorreu em 2004, quando um governo de direita despertou as almas adormecidas e reacendeu o fogo revolu&amp;shy;cionário.&lt;br /&gt;Daqui para a frente, acabou. Trinta e dois anos não servem para efeméride. Trinta e cinco também não. E em 2014 os protago&amp;shy;nistas do período revolucionário estarão en&amp;shy;terrados ou, mesmo os que ainda não o eram de origem, senis. A quatro décadas de&lt;br /&gt;não foi muito mais relevante que a do dr. Carrilho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A propósito&lt;/strong&gt;, se o 25 de Abril se esvai da memória colectiva, não é por culpa ou mé&amp;shy;rito das televisões. Em cada aniversário, há dose reforçada de documentários sobre o golpe e o subsequente PREC. A ideia, presu&amp;shy;mo, é enaltecer a época. Os resultados são de uma enorme perversidade.&lt;br /&gt;Por razões diversas, e que não devem ex&amp;shy;cluir a possibilidade de doença, tenho, em VHS ou DVD, umas duzentas horas de fil&amp;shy;magens do período, as quais vi e revi até ser ameaçado de divórcio. Donde consigo afirmar com razoável certeza que uns 98,6% do ma-&lt;br /&gt;distância, não há comemorações: há mis&amp;shy;sas e exéquias. Sabemos no que consistem os festejos da implantação (tipo prótese) da República ou da Restauração (tipo mobília) de 1640. E, conforme se constata pêlos la&amp;shy;mentos na imprensa dos últimos dias, cus&amp;shy;ta submeter a herança de Salgueiro Maia a tamanho embaraço.&lt;br /&gt;Para os verdadeiros "antifascistas", que no fundo somos todos, a única esperança é que a direita regresse ao poder, retire vá&amp;shy;rias letras ou sílabas inteiras à "revolução" e nos suscite novamente a vontade de gri&amp;shy;tar com raiva o nome de Abril, nas ruas, nas fábricas e nos demais lugares onde se gri&amp;shy;tam patetices assim. O problema é que, do modo que a direita está, é provável que o so&amp;shy;neto evocativo da praxe já só possa ser en&amp;shy;comendado ao bisneto de Manuel Alegre, cuja participação na gesta de 1974 decertoteria registado constituem, hoje e não ape&amp;shy;nas hoje, um constrangimento sem fim. As mudanças iniciadas no 25 de Abril deram-nos a liberdade de expressão, e eu nunca agra&amp;shy;decerei o suficiente por isso. Mas as circuns&amp;shy;tâncias dos anos revolucionários são uma comédia boçal, e só igual boçalidade permi&amp;shy;te imaginar que da sua repetida exibição saia uma impressão favorável daqueles tempos. Felizmente, os canais que mais insistem na cena da enxada na Herdade da Torre Bela ou no diálogo entre militares no 11 de Mar&amp;shy;ço (regra geral, a RTP2 e a SIC Notícias) assu&amp;shy;mem-se como serviço público, o que signifi&amp;shy;ca que pouco público os vê. Entretidos com o Panda ou o Sexy Hot, é possível que os jovens actuais cresçam sem os traumas que desgra&amp;shy;çaram a minha geração. E que um dia, lumi&amp;shy;noso e limpo País possa ser inteiramente ha&amp;shy;bitado por gente sem vergonha do País.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 29 de Abril de 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111740956315909508?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111740956315909508'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111740956315909508'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/04/25-de-abril-s-vezes.html' title='25 de Abril, às vezes!'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111456059028831214</id><published>2005-04-27T20:06:00.000Z</published><updated>2005-04-27T00:09:50.290Z</updated><title type='text'>As regras de casa</title><content type='html'>A semana anterior começou bem, com a escolha do novo Papa. E continuou esplendorosa, com as reacções à escolha. Não sendo católico, ou sequer cristão, o assunto não me diz grande respeito. Mas é sempre agradável ver a esquerda estrebuchar com o “conservadorismo” de Ratzinger. Claro que apreciei a fúria de Soares e de Louçã. Claro que ri até às lágrimas quando Saramago, esse baluarte dos direitos humanos, anunciou o regresso da Inquisição. Se me permitem, porém, o momento alto aconteceu na TSF, que, ainda o fumo branco saía da chaminé, conseguiu pôr o ressuscitado Leonardo Boff em antena. A babar ódio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para os felizardos que não sabem e os abençoados que não se lembram, o (excomungado) padre Boff foi um dos expoentes brasileiros da “teologia da libertação”. E a “teologia da libertação” era uma espécie de Copcon em sotaina. Resultante de uma interpretação oportunista do Vaticano II, o movimento tinha os pés na América Latina, o coração em Havana e a cabeça em Moscovo. Em síntese, defendia que o reino dos Céus pertence exclusivamente aos pobres, na medida em que se mantenham pobres no reino da Terra. A julgar pelas referências políticas do sr. Boff &amp; amigos, tal não seria tarefa complicada – se Ratzinger não tivesse entretanto desfalcado a seita, cujas sobras desde então lhe dedicam natural carinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O engraçado é que, nos últimos dias, a opinião de um alucinado como o sr. Boff fez escola. Indiferente às origens e ao absurdo da própria tese, a opinião dominante determinou que Ratzinger não é o Papa “ideal” para o tempo. O argumento mistura velhos sermões marxistas com as recentes expectativas sobre o programa de um Papa realmente “actual”: o casamento dos sacerdotes; a ordenação das mulheres; o aborto; a eutanásia; a homossexualidade; a contracepção. E com certeza só o desleixo tem impedido que se exija à Igreja o apoio às drogas leves e ao transformismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os sábios ignoram que, ao contrário das ‘causas’ da opinião pública, os desígnios de uma religião instituída não mudam com o vento. Sobretudo, desculpem a graçola, não mudarão com este Bento. É grave? Nada: são as regras da casa, sem as quais a casa perderia a permanência e a identidade. O facto de Ratzinger também não estimar o capitalismo, o liberalismo ou, bem entendido, qualquer dos sintomas da ‘modernidade’ que eu prezo, não me ofende. Como a aversão do homem pelo relativismo, que eu moderadamente partilho, não me entusiasma (excepto, repito, enquanto factor de irritação da esquerda).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma coisa é a doutrina da Igreja, outra a observância dos homens – duas instâncias que, no Ocidente, até andam cada vez mais separadas. Mas isso talvez seja outra história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 26 de Abril de 2005&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111456059028831214?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111456059028831214'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111456059028831214'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/04/as-regras-de-casa.html' title='As regras de casa'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111740944446791100</id><published>2005-04-15T23:28:00.000Z</published><updated>2005-05-29T23:30:44.473Z</updated><title type='text'>As feiras cabisbaixas</title><content type='html'>Segundo os jornais espanhóis do passado fim-de-semana, que ci&amp;shy;tam o próprio, O eng. Sócrates avisou durante a campanha para as "legislativas" que a sua "pri&amp;shy;meira prioridade é Espanha, a se&amp;shy;gunda é Espanha e a terceira é Espanha". É engraçado, eu acompanhei a dita campa&amp;shy;nha e não dei por nada. Na altura, ficara con&amp;shy;vencido de que as prioridades do homem in&amp;shy;cidiam no avanço tecnológico, ou na criação de emprego, ou nas pensões dos velhinhos. E até acho ligeiramente improvável que se&amp;shy;melhante plataforma eleitoral permitisse uma vitória como a de 20 de Fevereiro: é complicado conquistar o eleitorado de um país quando se promete inteira (e tripla) dedicação ao país vizinho.&lt;br /&gt;Certo é que o eng. Sócrates invadiu Ma&amp;shy;drid com um punhado de governantes, de&amp;shy;cidido a explicar aos espanhóis que não é saudável saírem a lucrar nas relações eco&amp;shy;nómicas mútuas. Em simultâneo, o dr. Sam&amp;shy;paio tomou Paris, levando na bagagem em&amp;shy;presários e, vejam bem, artistas, músicos e intelectuais. Quais são as três principais prioridades do PR? Com certeza a França, a França e a França.&lt;br /&gt;Não sendo exclusivo português, estas vi&amp;shy;sitas de Estado com rancho atrás gozam de grande popularidade entre nós. Se calhar, re&amp;shy;presentam uma compensação pêlos hábitos da ditadura. Salazar amava tanto o País que, salvo um ou dois saltitos à fronteira, nun&amp;shy;ca o deixou. Além disso, era tão cioso dos produtos nacionais que fechava o mercado ao exterior e os intelectuais em cadeias, não fosse perdê-los.&lt;br /&gt;Mas também há aqui cedência à globali&amp;shy;zação, que força a diplomacia dos fracos à venda a domicílio. De algum modo, as na&amp;shy;ções pouco prósperas julgam que entrar pela casa alheia com o estendal em riste se&amp;shy;duz os nativos ou, no mínimo, comove-os. Faz sentido, é sem dúvida comovente a con&amp;shy;vicção do eng. Sócrates, ao imaginar que a&lt;br /&gt;"afinidade ideológica" (sic) que o une a Za&amp;shy;patero reverterá a balança comercial ibérica a nosso favor. E é sedutora a fé de Sampaio, crente de que basta agitar Lobo Antunes para subjugar os franceses ao "prestígio" de Portugal e da língua.&lt;br /&gt;No mais, o exercício é quase cruel. Des&amp;shy;montada a feira, limpos os salões, tudo o que importa permanece intacto. Resta aos nossos representantes despirem a pose de estadistas e regressarem, taciturnos, a Por&amp;shy;tugal, Portugal, Portugal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nunca percebi &lt;/strong&gt;os critérios pêlos quais o di&amp;shy;nheiro público repara os azares privados. Se o meu computador se eclipsar graças a um vírus, o Estado não me indemnizará pelo dano. Mas o Estado vai indemnizar os pro&amp;shy;dutores de cortiça cujos sobreiros arderam nos dois últimos Verões. Aparentemente, existe uma diferença qualitativa entre os ví&amp;shy;rus informáticos e os incêndios florestais. É uma diferença que me escapa: sempre jul&amp;shy;guei que ambos fossem obra de pelintras ou do desleixo. O primeiro factor é respon&amp;shy;sabilidade da polícia; o segundo, dos lesa&amp;shy;dos. Em qualquer dos casos, o papel dos subsídios é discutível.&lt;br /&gt;E mais discutível é o respectivo valor: cada produtor receberá 8 euros por quinze qui&amp;shy;los de cortiça queimada, uma enormidade se atendermos aos padrões internacionais. No Rio de Janeiro, as famílias dos que, em 31 de Março, morreram às mãos de "vigilan&amp;shy;tes" (polícias militares, ao que consta), te&amp;shy;rão a haver uma pensão mínima de 77 euros. Ou seja, considerando o peso médio de um sujeito, de 1 euro por quilo, aproxima&amp;shy;damente. Apenas o dobro da quantia que o nosso Governo atribui à cortiça (no Brasil, a pensão será presumivelmente mensal, mas os supostos rendimentos dos falecidos também o eram, e a mesma cortiça só se vende uma vez).&lt;br /&gt;Os apressados tenderão a conclusões sim&amp;shy;plistas, como a de que a vida humana é pou&amp;shy;co cotada no Terceiro Mundo. Eu acho é que sobrevalorizamos a cortiça, e vejo no epi&amp;shy;sódio um sinal das promessas de Lula, quan&amp;shy;do no dia do massacre afirmou, ao lado de Zapatero e Chávez: "O século XXI pertence&amp;shy;rá à América Latina." Na altura, toda a gente, Zapatero e Chávez excluídos, gargalhou com vontade, e a mim ainda me dói a bar&amp;shy;riga. A verdade é que o Brasil, a Venezuela, a Colômbia, o Uruguai e os demais países que caíram ou ameaçam cair na alçada de malucos "bolivarianos", ou "fidelistas", po&amp;shy;dem ter descoberto os trilhos do desenvol&amp;shy;vimento. Basta constatar as últimas tendên&amp;shy;cias da região: as chacinas combatem a sub&amp;shy;nutrição: as armas estimulam a economia paralela; os gangues atraem o investimen&amp;shy;to estrangeiro (drogas e terrorismo); os tos&amp;shy;tões que se poupam em indemnizações ser&amp;shy;vem o comércio de armamento.Entretanto, na sensível Europa debatem-se mariquices como a Constituição, e os orçamentos são delapidados em rolhas. Felizmen&amp;shy;te, Sócrates não dorme, e já deve ter estuda&amp;shy;do com o homólogo espanhol a alternativa la&amp;shy;tina ao modelo social europeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 15 de Abril de 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111740944446791100?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111740944446791100'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111740944446791100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/04/as-feiras-cabisbaixas.html' title='As feiras cabisbaixas'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111507812891262452</id><published>2005-04-12T17:54:00.000Z</published><updated>2005-05-03T00:12:01.900Z</updated><title type='text'>A lebre e as tartarugas</title><content type='html'>Sabem as ‘lebres’ do atletismo, aqueles rapazes obscuros que começam as corridas como galgos, a fim de espevitar o passo dos putativos campeões? Imaginem uma prova em que, por falta de comparência, coragem ou forma, os campeões não acompanham as ‘lebres’ e uma delas acaba mesmo por vencer. Nas olimpíadas, isso seria uma surpresa, e um feito arrebatador. Na política, foi o XXVII congresso nacional do PSD, e um aborrecimento pegado. Aborrecimento é favor. O encontro de Pombal foi tão previsível, certinho e comportado que não precisava de ter existido. Mendes ganhou. Menezes perdeu. Cavaco foi relutantemente “designado” para Belém. A famosa terceira via, fosse ela qual fosse, não chegou às urnas de facto. Para isto, uma reunião, privada e púdica, teria bastado. A estopada foi tamanha que a Imprensa, a fim de combater o sono, determinou que o equilíbrio da votação final constituía uma espécie de acontecimento. Estimulados por audiências que dificilmente poderiam descer mais, os repórteres televisivos varreram então a sala, inquirindo os congressistas sobre a possível “divisão” do partido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes da eleição, o assunto (digamos assim) era o propagado carácter “provisório” dos candidatos, o qual se atirava, microfone espetado, à cara do infeliz mais a jeito. E em ambos os casos ouviram-se, dezenas de vezes, as respostas da norma: que não, que o líder designado era para valer e, Deus o permitisse, seria o primeiro--ministro em 2009; e que não, que o PSD não saíra nada dividido, e o equilíbrio dos resultados apenas reflectia a “dinâmica” (juro) e a “dialéctica” (eu seja ceguinho) do partido. Perguntas escusadas pedem respostas tontas. No centro político, as lideranças são estáveis e os partidos unidos em proporção à possibilidade e à proximidade do poder. Neste momento, e nos que seguem, o poder mora muito longe do PSD, donde a conivência numa inocente, e obrigatória, mentira. A bem dizer, os “apoiantes” de Marques Mendes designam-se com aspas, e a maioria deles não só não acredita que ele possa durar como, sobretudo, não quer que ele dure mais que a proverbial “travessia”. Eis porque o congresso foi, para os participantes, uma triste resignação, e, para todos nós, um embaraço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O único toque gracioso ficou, como aliás não poderia deixar de ficar, por conta de Santana Lopes, que em cada discurso lega uma anedota à posteridade. Desta vez, foi a do “eu vou andar por aí”. Pois vai. E os restantes pretensos chefes do PSD também, embora atravessassem Pombal com discrição. Em tempo de choque tecnológico, os carros já vêm com a rodagem feita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 12 de Abril de 2005&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111507812891262452?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111507812891262452'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111507812891262452'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/04/lebre-e-as-tartarugas.html' title='A lebre e as tartarugas'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111740925493079363</id><published>2005-04-08T23:26:00.000Z</published><updated>2005-05-29T23:28:23.660Z</updated><title type='text'>O paraíso reencontrado</title><content type='html'>Na noite em que cheguei, o primeiro livro que vi em Hay-on-Wye foi o Paradise Losi de Milton. Fraca premonição. Hay-on-Wye parece ficar longe de tudo, mas, mm paciência e um bom mapa, de per&amp;shy;dida não tem nada. E, sob certos critérios, constitui uma espécie de paraíso.&lt;br /&gt;Hay (Wye é o nome do rio que atravessa a região) situa-se no centro do País de Gales, na fronteira com a Inglaterra. Ë uma cidadezinha com mi! e poucos habitantes, ro&amp;shy;deada por pastagens imensas e imensas ove&amp;shy;lhas. No fundo, à semelhança de qualquer pequena localidade britânica ou irlandesa. A diferença é que Hay vende livros. Mui&amp;shy;tos livros. A acreditar na publicidade, é mes&amp;shy;mo "a capital mundial do comércio de li&amp;shy;vros em segunda mão". Não duvido. Tem 30 e tal livrarias, entre as genéricas, enormes e de arrumação discutível, e as temáticas, es&amp;shy;pecializadas em romances policiais, jardi&amp;shy;nagem, línguas e dialectos, literatura infan&amp;shy;til, viagens ou apicultura. Na minha curta estadia, corri não sei quantas estantes e lom&amp;shy;badas de cabeça encostada ao ombro, a prin&amp;shy;cípio em busca do que queria e depois em busca do que calhasse. Tirando uma dor de pescoço que demorou a sarar, enchi três ma&amp;shy;las e fiquei saciado.&lt;br /&gt;Julgo que os milhares de turistas que fre&amp;shy;quentam anualmente o lugarejo também não terão razões de queixa. Além da aluci&amp;shy;nante oferta livreira, Hay possui uma dúzia de restaurantes, do aceitável ao sublime (o Old Black Lion pertence à segunda categoria) e cada moradia é um bed&amp;breakfast em potência. E há os costumes indígenas, que já não se usam, como as pessoas saudarem-nos na rua ou as portas das casas quererem-se permanentemente abertas. Antes de Hay, eu nunca vira um lugar tão próspero, civi&amp;shy;lizado e feliz.&lt;br /&gt;O sucesso de Hay deve tudo à monarquia. Não me refiro à casa Windsor. Hay beneficia de uma dinastia à parte e, até ver, de um homem só. O homem chama-se Richard Booth e é o auto-proclamado rei da cidade, que declarou independente do Reino Uni&amp;shy;do. Foi ele quem, em 1961, abriu a livraria inicial e criou o fenómeno. Booth habita um castelo (em ruína parcial), escreveu uma vo&amp;shy;lumosa autobiografia, passeia-se de man&amp;shy;to e coroa, publica éditos e confere títulos de Cavaleiro aos cães que encontra.&lt;br /&gt;Durante um quarto de hora, Sua Majes&amp;shy;tade interrompeu uma entrevista a um su&amp;shy;jeito da Nacional Geographic para conversar comigo e com dois amigos meus. Insultou Napoleão e a BBC e sugeriu a possibilidade de, tal como tem sucedido em diversas terrinhas por lodo o mundo, nos acompanhar na criação de uma "Hay" em Portugal, des&amp;shy;de que o Estado não incomodasse. Perante o nosso pasmo, chamou uma "serviçal" e marcou uma audiência connosco para o dia seguinte, no castelo. Nós não fomos. Ele, suspeito, também não. Em Portugal, não haveria mistura mais improvável do que li&amp;shy;vros, aversão ao Estado e a demência de um rei assim. Quer dizer, reizinhos locais não faltam, mas a loucura deles é perigosa, sub&amp;shy;sidiada e não dá de ler a ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Venhor por este meio&lt;/strong&gt; convidar a comuni&amp;shy;dade homossexual de Viseu a mudar-se para Matosinhos. De acordo com a imprensa, os gays da Beira Alta vêem-se regularmente aborrecidos por energúmenos, que vigiam os locais de encontro e gozam mediante ameaças e insultos. Nas palavras de um dos&lt;br /&gt;energúmenos, recolhidas de um sítio gay na Internet, tudo começou numa área de serviço do ll'5:"{..) entrou um gajo e come&amp;shy;çou a olhar para mim. Estava a fazer as mi&amp;shy;nhas necessidades e ele, sem mais nem me&amp;shy;nos, pôs-me a mão na coisa... Levou um malhão."&lt;br /&gt;Ë curioso que a reacção tenha recorrido ao folclore. Uma coisa garanto: em Matosi&amp;shy;nhos, mais precisamente em Leça da Pal&amp;shy;meira, não há riscos de malhão, vira ou corridinho. No lado poente da Petrogal, a vas&amp;shy;ta zona entre a refinaria e a praia é, desde há uns dois ou três anos, o equivalente na&amp;shy;cional a São Francisco, se trocarmos a Golden Gate do cenário pela Casa de Chá do Siza Vieira.&lt;br /&gt;Eu sei, porque é voz corrente e porque resido a escassos metros dali. Na berma da estrada, há dezenas de carros parados, per&amp;shy;tença dos cavalheiros que se aliviam na mata em redor, sem tabus nem, presumo, gran&amp;shy;de higiene. Às vezes, voltam ao automóvel ainda a subir as calças. E a tudo isto a popu&amp;shy;lação permanece indiferente, fruto de uma tolerância impossível na província. Ë ver&amp;shy;dade que a minha mulher não consegue ob&amp;shy;servar o espectáculo sem abanar a cabeça, mas, em última instância, ela é pacífica.Portanto, gays beirões: unam-se e percor&amp;shy;ram o 1P5 rumo ao litoral. Porém, se no ca&amp;shy;minho as necessidades os obrigarem a pa&amp;shy;rar nas áreas de serviço, evitem pôr a mão na coisa alheia e levar correspondente malhão. Chegados a Matosinhos, há tempo para outras danças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 8 de Abril de 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111740925493079363?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111740925493079363'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111740925493079363'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/04/o-paraso-reencontrado.html' title='O paraíso reencontrado'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111507806632970486</id><published>2005-04-05T11:53:00.000Z</published><updated>2005-05-03T00:11:00.400Z</updated><title type='text'>A tanga e a panóplia</title><content type='html'>Encontro-me há vários dias fora de Portugal, nos vários sentidos da expressão. Por um lado, não tenho televisão, o telemóvel tem permanecido desligado e, salvo as inúmeras referências a José Mourinho, a Imprensa que circula no País de Gales dedica à nossa terrinha a mesma atenção que o CM costuma dedicar ao campeonato de andebol da Suazilândia (o qual, asseguro, é fascinante). Mas reconheço igualmente que não tencionei preencher estas férias com reflexões acerca do congresso do PSD, a possível candidatura de Manuel Alegre à presidência da República ou a já lendária caminhada do PP rumo à completa irrelevância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para cúmulo, e ainda que eu quisesse actualizar-me, as conversas com os nativos não ajudam muito. Sempre que esclarecidos sobre a minha proveniência (questão por aqui obrigatória), acrescentam logo: “Oh, óptimo clima. E belas praias.” ou “Excelente, bons vinhos”. Para os galeses (e os estrangeiros em geral), nós somos uma nação de bêbados estendidos ao sol, e dada a inveja que esta imagem lhes parece suscitar, evito contrariá-los.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema, para quem aspira a distância e sossego, é a internet. Estando num lugarejo com míseras centenas de habitantes, julgava-me livre dos avanços tecnológicos. Ontem, porém, vi uma loja pequenina que oferecia vinte minutos na “rede” em troca de uma libra. E não resisti. Foi assim que soube das reacções à morte de João Paulo II. E foi assim que soube que, entretanto, Portugal se tornara um país rico. Quem o afirmou foi Jerónimo de Sousa, o campeão das últimas “legislativas” nas categorias simpatia e honestidade. E se Jerónimo o diz, só um louco ou um bandido arriscariam duvidar. Os argumentos do homem, aliás, são de uma simplicidade devastadora: dado que as empresas cotadas na bolsa lucraram, em 2004, 900 milhões de euros, é apenas graças a uma “panóplia de comentadores” (sic), que teima em esconder o facto dos trabalhadores, que se perpetua o discurso da “tanga” e se convence os pobres à aceitação de uma escusada pobreza. Peço desculpa ao sr. Jerónimo, mas enquanto comentador acho ofensivo ver-me incluído nessa “panóplia” de biltres. E juro: durante as próximas semanas, esta humilde coluna invectivará sem descanso o eng. Sócrates a proceder à justa repartição das mais-valias capitalistas pelo povo. Depois, logo que tenha cumprido a minha missão, levanto os 90 euros que me cabem (e a cada um dos 10 milhões de portugueses), compro um chalé em Barbados e, por ínvios atalhos, realizo enfim o imaginário dos galeses, levando a vida ao sol, entre rum gelado e mar ameno. E, literalmente, de tanga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 5 de Abril de 2005&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111507806632970486?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111507806632970486'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111507806632970486'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/04/tanga-e-panplia.html' title='A tanga e a panóplia'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111740911998956805</id><published>2005-04-01T23:23:00.000Z</published><updated>2005-05-29T23:25:19.996Z</updated><title type='text'>Paz e sossego</title><content type='html'>Nos EUA, o longo fim de Terri Schiavo tem ocupa&amp;shy;do as manchetes durante semanas. Sabemos os por&amp;shy;menores. Após a senhora passar 15 anos em estado vegetativo, o marido conseguiu aprovação para que se removesse o tubo alimentar. Os pais perderam sucessivos apelos na justiça para impedi-lo. O Presidente Bush assinou de urgência uma lei federal, absurdamente criada para aplacar uma das facções. De ca&amp;shy;minho, a América partiu-se ao meio, entre os defensores e os opositores mais ou me&amp;shy;nos instantâneos da eutanásia.&lt;br /&gt;Longe da vista, aqui a história não atin&amp;shy;giu com o mesmo impacto o coração do povo. Salvo os blogues, que discutem tudo, e alguns artigos de opinião, a eutanásia ain&amp;shy;da não merece honras de drama social. É questão de tempo, até que um infeliz, se&amp;shy;questrado sem esperança pêlos avanços clí&amp;shy;nicos, peça nas televisões para morrer e suscite o "debate".&lt;br /&gt;Por enquanto, no que toca a "questões fracturantes", contentámo-nos com o abor&amp;shy;to. E a discussão em volta do dito já mos&amp;shy;trou que estas "fracturas" atingem sobretu&amp;shy;do o bom senso. Seja qual for o tema ou o lado do combate, os assuntos da vida e da morte empurram milhares para a rua, cheios de cartazes, slôganes e certezas. Principal&amp;shy;mente certezas, e é no mínimo curioso que estas cresçam em proporção directa ao me&amp;shy;lindre da situação. Acerca do aborto, cada bando de exaltados detém uma ciência irre&amp;shy;dutível da propriedade a preservar: o ventre da grávida ou o respectivo conteúdo.&lt;br /&gt;Na eutanásia, ainda menos prestável a doces simplificações, a simplificação é a re&amp;shy;gra. Por razões académicas, levei um ano inteirinho a estudar a morte assistida. Li a bibliografia disponível. Falei com médicos e doentes, teóricos e pragmáticos. Termi&amp;shy;nei mais confuso do que começara. Não sei o que decidiria se alguém próximo se encontrasse na condição da sra. Schiavo. Nem sei o que decidiria sobre mim próprio, as&amp;shy;sim eu pudesse.&lt;br /&gt;Percebo que, historicamente, a medicina não se limita à preservação da vida: de Pla&amp;shy;tão e dos antigos celtas a Bacon ou More, a eutanásia, terapêutica ou não, era uma pos&amp;shy;sibilidade, pretensa ou realizada. Mas tam&amp;shy;bém suspeito que as utopias purificadoras servem a legitimação do eugenismo. Perce&amp;shy;bo o princípio da "boa morte", caseira, "an&amp;shy;tecipada", familiar. Mas não a imagino com&amp;shy;patível com uma sociedade tecnológica. Per&amp;shy;cebo que seja equívoco inventariar os modos "dignos" de falecer. Mas o culto do sacrifí&amp;shy;cio não me entusiasma.&lt;br /&gt;A verdade? Ocorrem-me duas: i) apesar de tudo, à hora em que escrevo a sra. Schiavo está viva; 2) é triste que a vida assuma formas daquelas. Fazem falta outras verda&amp;shy;des: quem decide o instante da morte? E sob que critérios? Dizer que a matéria é delica&amp;shy;da é leviano. Compete ao legislador decidir em recato leis que nunca serão "exactas", ou sequer razoáveis. Serão as possíveis. O que ultrapassar isto pertence ao ofício cir&amp;shy;cense, com acrobacias vistosas em que os argumentos das partes se vão eliminando mutuamente: a "dignidade"; a "compaixão"; a "ética"; a "crença"; etc. Feitas as contas, fe&amp;shy;chadas as portas, algures numa ala hospi&amp;shy;talar resta, sob a histeria, a intransmissível tragédia de uma família, que nunca sere&amp;shy;mos capazes de compreender ou partilhar. E cuja exposição pública é sempre um atroz enxovalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Na semana passada&lt;/strong&gt;, a rapaziada do Greenpeace invadiu o porto de Leixões, a fim de impedir um desembarque de madei&amp;shy;ra. Apesar do esforço das televisões, parece que a madeira acabou por desembarcar. In&amp;shy;satisfeito, na terça-feira o mesmo simpáti&amp;shy;co grupinho acorrentou-se à porta da Viçai-ma, uma fábrica do ramo, impedindo a en&amp;shy;trada dos funcionários e atraindo nova chusma de empolgados repórteres.&lt;br /&gt;Ignoro se os feitos assinalam a efeméri&amp;shy;de. Certo é que, há quase cinco anos, tam&amp;shy;bém em Leixões, os moços do Greenpeace já se haviam amarrado ao mastro de um na&amp;shy;vio, em nome de "causa" idêntica. Na altu&amp;shy;ra, o Ministério do Ambiente levou-os a sério e a carga ficou retida no porto. Dias de&amp;shy;pois, testes provaram que as madeiras "protegidas" eram uns pauzinhos aborreci&amp;shy;damente legais. Quem pagou o prejuízo? Provavelmente, não os "ambientalistas", rá&amp;shy;pidos a provocar tumultos e menos lestos a abrir a carteira. Agora, os senhores da Vicaima exigem ressarcimento e eu sugiro-Ihes paciência.E nem é difícil abolir estas macacadas. Vis&amp;shy;to que as arruaças "ecológicas" exigem orien&amp;shy;tação de estrangeiros, basta que o SEF aten&amp;shy;te a quem entra no País. Se se desconfiar que aquele sujeito de barbicha ou aquela rapari&amp;shy;ga desgrenhada são membros de uma asso&amp;shy;ciação "verde", as autoridades devem ter ple&amp;shy;no direito de pedir a sua retenção na alfân&amp;shy;dega, até que testes pormenorizados revelem o contrário. Enquanto isso, podem acorren&amp;shy;tá-los a um canto. Eles gostam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 1 de Abril de 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111740911998956805?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111740911998956805'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111740911998956805'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/04/paz-e-sossego.html' title='Paz e sossego'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111507798883745664</id><published>2005-03-29T09:51:00.000Z</published><updated>2005-05-03T00:09:42.310Z</updated><title type='text'>Reformas antecipadas</title><content type='html'>Era fatal: a estrondosa derrota do PSD e do PP suscitou na direita uma súbita vontade de se “reformar”. Ou de se “reinventar”, segundo os mais líricos. Quando se ocupa o poder, não é habitual surgirem apetites assim. Ainda há um ano, a direita achava-se óptima tal e qual como estava. Depois, vieram Santana, a iminência do desastre e as primeiras dúvidas existenciais. E agora é ver a direita ou as direitas vadiarem por becos e colunas de opinião, em busca de um rumo, de um desígnio e, em particulares casos, de um emprego melhor. Mas de que reformas falamos? No que respeita ao PP, já não seria mau convencer alguém a tomar conta do tasco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto ao PSD, outra dimensão, outras responsabilidades, outra barafunda, a história exige análise cuidada. Porém, e a benefício da síntese e do bom senso, é desnecessário ir além dos palpites dos candidatos reais e putativos à liderança. Marques Mendes pretende “reconquistar o centro social-democrata”. Não satisfeito em “virar” o partido à esquerda, deseja “abri-lo” ao exterior e aumentar a participação das “bases”. No extremo oposto, Luís Filipe Menezes pretende retomar “os valores da social-democracia”, “recentrar” o PSD no centro-esquerda, torná-lo atraente à “sociedade civil” e “devolvê-lo” às “bases”. Há aqui funda cisão, e sente-se a falta de alguém com uma perspectiva intermédia, alguém que sugerisse, digo eu, recuperar os princípios da social-democracia, levar o partido para a esquerda, despi-lo em praça pública e em seguida gritar vivas às “bases”. Sobretudo faz falta ao PSD quem se esqueça de que o PS existe, que por acaso é governo, e que estranhamente possui maioria absoluta. Não é o caso de António Borges. Este célebre vulto, que ninguém conhece bem e que também não é bem candidato, não cultiva a social-democracia ou as “bases”. A ambição do dr. Borges passa por converter o PSD ao liberalismo, custe o que custar. E o facto de o liberalismo ser tão querido ao eleitorado do PSD (e ao País) como um tumor maligno não parece importuná-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo, no fundo, a única coisa que cada um destes três senhores pretende alterar no partido é o líder, de preferência por troca directa. A aspiração dos drs. Mendes e Menezes tem efeito imediato. O dr. Borges, que não dispõe de vagar para oposições, estará a pensar em 2008. Claro que, na sombra, intelectuais reflectem. Infelizmente para eles, reflectem sozinhos. A direita não quer reformas: a direita quer regressar ao poder. E para isso não precisa de “reinvenções”: precisa de paciência, de vestígios de juízo e, se um dia tiver sorte, de um candidato a sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Alberto Gonçalves - Correio da Manhã, 29 de Março de 2005&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111507798883745664?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111507798883745664'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111507798883745664'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/03/reformas-antecipadas.html' title='Reformas antecipadas'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111740877380247259</id><published>2005-03-24T23:16:00.000Z</published><updated>2005-05-29T23:22:55.596Z</updated><title type='text'>Não ir à bola</title><content type='html'>A sugestão de abolir o cam&amp;shy;peonato nacional de futebol, que, meio a sério, meio a brincar, aqui deixei há umas semanas, indignou pelo me&amp;shy;nos dois leitores, os quais decidiram insultar-me com elevação. Para esta significativa amostra dos meus detrac&amp;shy;tores, eu não passo de um pedante, desses que desprezam a bola porque: a) não perce&amp;shy;bem nada do assunto; e b) não toleram diver&amp;shy;timentos populares.&lt;br /&gt;Falso e falso. Em primeiro lugar, eu até percebo "do assunto". Aliás, e com a excep&amp;shy;ção de José Mourinho, o equivalente terre&amp;shy;no de Nosso Senhor, não conheço quem sai&amp;shy;ba de futebol tanto quanto eu. Eu sei o nome de cada vencedor da Taça dos Campeões Eu&amp;shy;ropeus. Eu sei porque é que, no Mundial de 1958, Feola adiou para o terceiro jogo a titularidade de Pele e Garrincha. Eu sei a trá&amp;shy;gica história de Mathias Sindelar, o melhor jogador da década de 1930. Além disso, li todos os clássicos do género, de Mário Filho a Brian Glanville e, quando criança, assisti a todos os desafios a que era humanamente possível assistir.&lt;br /&gt;Em segundo lugar, gosto muito das folias populares, desde o futebol abordoada públi&amp;shy;ca. Se deixei de acompanhara bola (mas não a bordoada), foi justamente a partir do ins&amp;shy;tante em que a dita desceu do povo para meios mal frequentados. O meu problema come&amp;shy;çou com os "debates" televisivos. Nos últi&amp;shy;mos anos, os canais de TV encheram-se de intermináveis lengalengas, nas quais alegados representantes dos "três grandes" (haja pa&amp;shy;ciência!) reproduzem paleio de café nas suas piores formas. E que, ainda por cima, conta&amp;shy;minam o resto: se nos media apenas se discu&amp;shy;te a "tomada de posição" do dirigente X ou as falhas do árbitro Y, por que razão os jogado&amp;shy;res haveriam de se esmerar na qualidade do jogo, insignificância a que, pêlos vistos, já ninguém presta atenção? Dez minutos do dr. Sea&amp;shy;ra bastariam para desmoralizar Cruyff.&lt;br /&gt;E depois, confesso, não me entusiasmo com: claques (assustadoramente) organiza&amp;shy;das; jogadores que posam no relvado como posam para anúncios; conferências de im&amp;shy;prensa em que as mesmas banalidades se re&amp;shy;petem com intuitos sádicos; dirigentes des&amp;shy;portivos sem excepção; o pífio nacionalismo inerente, que obriga a que a "selecção" seja "de todos nós" e que o Real Madrid seja "de Luís Figo"; o jargão do ramo, onde cabem expressões do tipo "binómio espaço-tempo"; a doce subserviência dos políticos.&lt;br /&gt;Do que eu gostava era dos tais 22 tipos que corriam atrás de uma bola. Hoje, entre o ruído, a bola escapa-se-lhes. E a mim tam&amp;shy;bém. Ë só isto.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;No primeiro dia de Abril&lt;/strong&gt; (sem piadas, s. f. f.), entrará em vigor o novo código penal tur&amp;shy;co, que visa adoçar a União Europeia (UE). A mim, confesso que o alargamento suscitava hesitações (e recentemente, num programa televisivo, mostrei-as com fartura). A Histó&amp;shy;ria tanto evidencia fundas disparidades como laços comuns. E é discutível se. no Ocidente que se pretende laico, as diferenças religio&amp;shy;sas devam ser um argumento sério. Além disso, a UE já vai em 25 membros e os "se&amp;shy;nadores" Mário Soares e Adriano Moreira in&amp;shy;vocam as raízes partilhadas para defender a inclusão de Cabo Verde, um precedente que, a prazo, faria a Europa coincidir com a Terra inteira.&lt;br /&gt;A verdade é que a familiaridade da Tur&amp;shy;quia com os famosos "valores" europeus está a ser avaliada pêlos critérios errados. Recuar a Bizâncio ou à derrota dos otomanos em Viena não ajuda nem os simpatizantes nem os opositores da adesão. Também não va&amp;shy;mos lá com indicadores do tipo "Percenta&amp;shy;gem de casas com acesso à Internet": a Tur&amp;shy;quia ainda apresenta números fracotes, mas a popularidade da "rede" entre os animado&amp;shy;res de rua islâmicos não tardará a inverter a situação.&lt;br /&gt;Um indicador fiável é a leitura. E, neste particular, reconheço agora que os turcos es&amp;shy;tão preparadíssimos para a Europa. Se ca&amp;shy;lhar, mais do que muitos europeus. Nos países da UE, os tops da venda de livros conti&amp;shy;nuam, há dois anos, atafulhados com o Código Da Vinci e seus sucedâneos. Na Tur&amp;shy;quia, o sucesso do momento chama-se Mein Kampf.Enquanto a Europa divaga em policiais anacrónicos, nos últimos meses a Lata do Adolfo vendeu 6o mil cópias da tradução lo&amp;shy;cal. E não se contam os milhões de turcos que vivem na Alemanha, os quais decerto preferem a edição original. Académicos expli&amp;shy;cam que o êxito se deve ao aumento do anti-americanismo e do anti-semitismo na Tur&amp;shy;quia. E então? Nojo dos EUA? Ódio aos ju&amp;shy;deus? Nada tão actual. Nada tão europeu. As manifestações da semana passada, as enésimas contra a invasão do Iraque e em favor dos lencinhos palestinianos, foram um ínfi&amp;shy;mo exemplo. Um êxito literário é uma au&amp;shy;têntica carta de recomendação. Eu deixei-me de dúvidas. A Turquia? União com ela. Logo que a adesão da Síria esteja encaminhada, claro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto Gonçalves - Revista Sábado, 24 de Março de 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111740877380247259?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111740877380247259'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111740877380247259'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/03/no-ir-bola.html' title='Não ir à bola'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12463875.post-111507786878964795</id><published>2005-03-23T23:44:00.000Z</published><updated>2005-05-29T23:20:41.853Z</updated><title type='text'>Uma questão de acessibilidade</title><content type='html'>Eu sei que ninguém me encomendou este blogue. Muito menos o próprio Alberto Gonçalves, que espero que me perdoe o atrevimento. Mas como os jornais estão muito caros, e a sua leitura nem sempre apetecível, decidi criar este arquivo de crónicas e outros textos de Alberto Gonçalves, que fica disponível para todos os que, como eu, gostam da sua prosa, e independentemente de concordarem ou não com o conteúdo, não dispensam a sua consulta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O alimentador do arquivo ficará anónimo para escapar às possíveis perseguições dos órgãos de origem destes textos. Alberto Gonçalves incluído.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12463875-111507786878964795?l=cronicas-de-ag.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111507786878964795'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12463875/posts/default/111507786878964795'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicas-de-ag.blogspot.com/2005/03/uma-questo-de-acessibilidade.html' title='Uma questão de acessibilidade'/><author><name>Crónicas de AG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00733626002050133839</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry></feed>
